A confessionalidade do Credo Apostólico – uma benção para a igreja moderna

É essencial que os cristãos verdadeiros entendam a necessidade de confessar a sua fé de forma Bíblica e coerente. Elencando a perspectiva de uma confessionalidade Reformada (isto é, uma perspectiva integralmente bíblica, creditando os moldes do sistema teológico nos cinco solas), tornamo-nos uma Igreja confessional, onde confessamos a nossa fé por meio de atos públicos (sacramentos), como batismo e ceia, confessamos a nossa fé através do culto público e particular e ao recitar as Confissões de Fé, bem como o Credo dos Apóstolos. Toda a confissão deve vir acompanhada de uma vida de compromissos e com valores ao Reino de Deus, que não deve respaldar uma confissão apenas em um molde meramente baseado em um discurso retórico, mas a consciência de uma confessionalidade deve acompanhar o discurso de uma prática tão perfeita quanto aquilo que é dito. “E temos portanto o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos” (2 Co 4:13).

Nessa relação de fé e prática ao longo dos anos, a Igreja de Cristo tentou formular métodos (pedagógicos, hermenêuticos e apologéticos) que consolidassem aquilo que era tido como síntese da regra de fé e prática cristã, isto é, as Santas Escrituras. É nesse sentido que trataremos nessa temática alguns pontos sobre a historicidade do Credo Apostólico, bem como a sua aplicação e consolidação no meio das Igrejas Confessionais.

Muitos são os casos de alguns cristãos Protestantes (de grande maioria não-reformados) que negligenciam o estudo mais acurado do Credo dos Apóstolos. Essa descrença da Igreja moderna está ligada basicamente em três pilares:

  1. As pessoas se enganam ao identificar o Credo Apostólico com a Igreja Católica Apostólica Romana, crendo que é um documento inventado por essa instituição;
  2. A Igreja Católica Apostólica Romana tem a prática de conferir autoridade divina a muitas de suas tradições. Então, certos cristãos protestantes acreditam que é dado o mesmo valor ao Credo que é atribuído à Bíblia (o que de maneira alguma o Credo dos Apóstolos é equiparado a Bíblia, apenas o Credo contém doutrinas elementares da própria Bíblia, por isso a sua utilização);
  3. Ignorância de uma consciência histórica.

Desse modo, deve observar que o ponto três, isto é, a ignorância de uma consciência histórica, talvez integralize todos os demais pontos. A falta de estudo mais acurado sobre o que é a fé protestante é a causa do pluralismo sincrético que temos hoje na Igreja moderna, oriundo de uma falta de padronização da fé, que concomitantemente traz em si um distanciamento da Palavra, o que explica algumas ditas igrejas protestantes admitirem práticas tão divergentes do que é prescrito nas Santas Escrituras e que os irmãos da Reforma do século XVI entendiam como verdadeiro cristianismo. O que deve ser posto é que o Credo Apostólico vem sendo utilizado antes do romantismo papal, sendo o Credo um recurso para confessar os pontos principais da fé.

O Credo dos Apóstolos não nos foi dado de modo pronto, imutável ou indiscutível, como nos é outorgada as Santas Escrituras (por exemplo, o decálogo, Êxodo 20), mas passou por um processo de adaptação e desenvolvimento até chegar à estrutura que conhecemos hoje.

I. Os nomes do Credo

Por ser uma confissão mais popular, recebe o nome de “Credo”, palavra oriunda do verbo da primeira palavra do texto em latim: “Credo in Deum Patrem”. Dessa forma, o Credo não é outra coisa se não confessar as nossas crenças básicas, extraídas exclusivamente da Bíblia, de modo a sintetizar a fé e unir homogeneamente as doutrinas elementares do cristianismo.  Talvez pela facilidade do que o mundo pós-moderno dispõe hoje, alguns neófitos possam indagar: “Por que não procurar diretamente na Bíblia as doutrinas elementares da Bíblia?”; ou em segundo questionamento dizer: “Não é mais fácil ver na Bíblia e a expor?” Se esses questionamentos fossem válidos, talvez poderíamos excluir da liturgia e comunhão a recitação do Credo Apostólico, porém, essas perguntas ficam inviáveis quando paramos e vemos que elas nada mais são que questionamentos fundamentados no anacronismo.

Isso nos fica mais claro quando, ao se debruçar na história, percebemos que a prensa de Guttemberg, a tradução da Bíblia do latim para a língua popular (com Lutero, por exemplo, traduzindo a Bíblia para o alemão), só foram possíveis no século XV e XVI, respectivamente. Sendo então ainda uma dificuldade mesmo com o alto custo da Bíblia e as grandes taxas de analfabetismo, sendo muito difícil a leitura da Bíblia, bem como uma análise mais fiel por parte de todos, sendo aí a necessidade de um curto texto que possibilitasse a memorização como forma de recurso pedagógico, litúrgico e apologético, sendo possível a todos que abraçassem a fé cristã, não esquecendo que o Credo Apostólico (de uma versão mais arcaica do que a atual) já era proferido no início da era cristã.

O Credo Apostólico é também chamado de “símbolo apostólico”, nome dado quando as heresias dos primeiros séculos começaram a minar dentro da Igreja. Com isso o entendimento da palavra “símbolo” é expresso por sua própria significação, isto é, a palavra “símbolo” deve ser entendida como marca distintiva, sinal, sendo então uma característica do discurso próprio dos Apóstolos, mesmo que se saiba que nenhum Apóstolo escrevera propriamente o Credo, porém o conteúdo do Credo está de comum acordo com as doutrinas bíblicas, sendo, então, também concomitante ao que os apóstolos elencaram como credo de fé.

Para tal formulação, dizia Rufino (cristão do século IV), que o Credo dos Apóstolos era uma marca contra os falsos apóstolos: “Assim, os apóstolos prescreveram essa fórmula como sinal e penhor pelo qual reconhecer quem realmente prega verdadeiramente a Cristo, segundo a regra apostólica”.  Outro nome também intitulado ao Credo dos Apóstolos, é a nomenclatura de os “Doze artigos de fé”, donde há uma lenda que cada um dos doze apóstolos de Cristo escreveram um artigo, mesmo que é sabido nos dias atuais que nenhum dos apóstolos de Cristo escrevera tal texto, apenas que o Credo é uma síntese dos principais pontos daquilo que os Apóstolos descreveram como símbolos de fé.

Atribui-se o qualitativo de “apostólico”, pois segundo Rufino (cerca de +/- 307-309 d.C), afirmou que no dia anterior à partida para pregar para todas as nações os apóstolos se reuniram e “inspirados” escreveram a norma de sua pregação, formulando um texto que seria uma síntese daquilo que o cristianismo acreditara como símbolo de fé.  O bispo Ambrósio de Milão (grande influenciador de Agostinho), do século IV, afirmou que o número de doze artigos (frases) obedece ao número de apóstolo. Porém, é salutar afirmar que “o Credo dos Apóstolos não é apostólico por ter sido escrito pelos apóstolos, mas por ser sua doutrina”.

II. Qual a origem do Credo dos Apóstolos?

As Confissões de Fé ou Regras de Fé não são simplórios textos inventados aleatoriamente sem qualquer respaldo. Também é notório ponderar que as Confissões de Fé também não são credos inventados como formulação normativa e exclusiva da Igreja Católica Apostólica Romana.  A proclamação de um “credo” já era comum na tradição Judaica, onde podemos citar por exemplo o uso proclamativo do “Shemá”, texto contido no texto de Dt 6:4-9. Onde pode-se observar a sua utilização e efetuação doutrinária nas epístolas paulinas, como por exemplo na formulação do texto de I Co 8:4-6.

Alguns grandes notáveis no cristianismo bíblico utilizaram de confissões para expressarem a sua fé baseada em doutrinas que sempre apontavam para Cristo, como por exemplo  João Batista (Jo 1: 29;34), Natanel (Jo 1:49), os Samaritanos (Jo 4:42), os discípulos (Jo 6:14;69), mas a mais célebre declaração da Confissão de Fé está dita através de Pedro: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Mt:16:16.

Dois principais motivos devem ser expostos como pontos necessários para o surgimento do Credo Apostólico, sendo estes:

  1. Surgimento de uma declaração de fé básica para instruir aos candidatos ao batismo (pós expansão da Igreja);
  2. As heresias obrigaram a Igreja verdadeira a definir claramente a sua fé, baseada nos princípios bíblicos.

Esse segundo ponto já supracitado se dá pelo contato com os filósofos e culturas pagãs que colocavam em xeque as doutrinas dos apóstolos, perigo ese denunciado em Hb 4:14; 10:23 e I Jo 4:1-6. Dessa forma, fica clara também o sentido apologético do Credo, com pontos delineados e fáceis para a sua percepção e exposição. Com isso, durante a história alguns mártires e notáveis bispos da Igreja, considerados do período da Patrística, afirmavam em suas apologéticas, sermões e aplicações dos sacramentos, o uso do “Credo Apostólico” (ou sua estrutura básica).

O Bispo Inácio de Antioquia expunha a verdadeira doutrina contra a heresia docética (heresia do primeiro século que acreditara que Cristo não possuía corpo, mas era apenas Espírito). Dizia Inácio:

De maneira que, sejam surdos quando alguém vos fale sem Jesus Cristo, o qual foi de linhagem de Davi, de Maria, quem verdadeiramente nasceu, comeu como também bebeu, foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos, foi verdadeiramente crucificado e morreu tendo por testemunhas os céus, a terra e o que há sob a terra; quem também verdadeiramente ressuscitou dos mortos, quando seu Pai o levantou. Seu Pai, a sua semelhança, a nós os que Nele cremos, nos ressuscitará da mesma forma em Cristo Jesus, sem o qual não temos vida verdadeira – Carta aos Tralianos , IX. 1-2.

Justino (cerca de 100-165 d. C), outro mártir, disse em sua apologia (I.61.10) que entre os cristãos no batismo se pronunciava “… em nome do Pai do universo e Deus Soberano… em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e em nome do Espírito Santo.”

É notório perceber que o conteúdo bíblico do Credo Apostólico pode ser chamado de apostólico por ser baseado exclusivamente na Bíblia e nas doutrinas apostólicas. O reformador francês, por exemplo, não se interessava na autoria do Credo, mas dizia sobre o Credo dos Apóstolos: “o mais importante que devemos saber é que nele se encontra e resumida e de modo claro toda a história de nossa fé e que nada contêm nele que não se possa confirmar com sólidos e firmes testemunhos das Escrituras” – Institutas II, XVI,18.

III. O texto do credo e sua forma trinitária

Cópias mais antigas que se tem conhecimento são os textos de Rufino (em Latim, +/- 390 d. C) e de Marcelo (em grego +/- 341 d.C , onde são as duas versões mais breves comparadas à estrutura que conhecemos hoje como Credo Apostólico. Marcelo, Bispo da capital da Galácia (337-341 d.C), escreveu uma carta ao Bispo Júlio I com o fim de lhe provar a sua ortodoxia, sendo então umas das versões mais antigas do Credo na estrutura que conhecemos hoje.

O texto trinitário é visto dessa forma porque podemos dividi-lo nas estruturas das três pessoas da Trindade:

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra (DEUS PAI).

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos (JESUS CRISTO – O FILHO).

Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém (ESPÍRITO SANTO).

Foi no Concílio de Nicéia (325 d. C) que houve a formulação do dogma da divisão do Credo dos Apóstolos na divisão da Trindade. O Credo não expõe de forma detalhada quanto à peculiaridade de cada pessoa da Trindade, mas deve ser visto como:

  1. O Pai e a nossa criação;
  2. O Filho e a nossa redenção (forma mais detalhada e por isso o Credo poder também ser definido como Credo Cristocêntrico);
  3. O Espírito e a nossa Santificação.

Essa divisão é feita de tal form , pois expressa a Santíssima Trindade, que nada mais além de afirmar a doutrina peculiar ao cristianismo expresso na Bíblia, também combatia heresias que negavam a Trindade tal como o Arianismo.

Desse modo, podemos concluir que o Credo dos Apóstolos em maneira alguma pode ser equivalente à Bíblia, mas ele é apenas uma ferramenta baseada na Bíblia e em suas principais doutrinas as quais devem ser usadas amplamente nas Igrejas atuais por reconhecimento histórico, por servir como grande ferramenta pedagógica e ser uma síntese nas principais doutrinas elementares do cristianismo histórico. Utilizar o Credo dos Apóstolos é conhecer e utilizar a História, pois tal utilização é concordar com a soberania e regência de um Deus controlador da História, o Deus da Providência. Por fim, utilizar o Credo dos Apóstolos é ganhar mais uma ferramenta de preparação para a defesa da Fé, da qual faz cada cristão responsável por amar, conhecer e cuidar das doutrinas bíblicas.

 Revisão: Laísa Caroline | Publicação: Alicia Catarina

Cristão Reformado, membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, servo de Cristo, pecador por natureza e casado com a Rafaella Moreira. Bacharel em Teologia (FATIN), Licenciado em Filosofia (UFPE) e Mestrando em Filosofia (UFPE), estudante de Agostinho de Hipona.

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