A glória da vida é viver para morrer – Parte II

Esse escrito é a segunda parte de um comentário do “Morrer de tanto viver” de Nathan David Wilson, publicado esse ano pela editora Monergismo, em Brasília, na tradução de Josaías Cardoso Ribeiro Júnior, dedicado à Heather Wilson, esposa do autor.

Leia a primeira parte: A glória da vida é viver para morrer parte I.

VII

Somos ribeiro desaguando diretamente dos passados onde viveram os nossos ancestrais. Olhar para trás é necessidade. De onde viemos? Tanta vida que temos independe de nós, sua origem se perde no tempo atrás de nós. Olharemos essa parte obscura da nossa existência? A narrativa tem um autor, tem outras personagens? Olharemos atrás do véu da nossa pequenez? Devemos , pois ali está fixa a raiz da árvore da nossa personalidade, a anatomia (incompleta ou não) do nossos gostos e dileções, ali as sementes que os nossos pais plantaram no chão de mortes de rostos apagados pelo tempo: “Meu avô me deu o amor às histórias e o amor para vivê-las, o amor à coragem, às piadas e burlar sistemas. Ele me deu uma apreciação pela beleza do cinema, pela captura de impressões digitais de luz em uma cena e exibi-las para a geração posterior” (p.94). Ler Wilson leva-te a pensar nos teus contextos e avós e histórias também: é assim que a literatura educa nossa sensibilidade, molda nossa alma, alarga nossa mente. A origem dos nossos amores? Sermos pescadores de histórias depende de sermos consumidores de histórias: Wilson deseja fazer a avó transpassar gerações através das suas histórias, mas isso não é mais importante do que a necessidade dessas gerações conhecerem o avô nas narrações. O morrer sempre é incompleto, portanto, ficamos habitantes daqueles que amamos e ajudamos a moldá-los. Ouvir histórias é lei deuteronômica, mas igualmente o é a sua contação (Dt 6.4-7, 20-25).

VIII

O tempo anterior a nós é uma eternidade. Incognoscível. Deus existe antes do tempo. Salmos 90 é a ecrã exibindo essa verdade. O tempo, ao esmagar-nos, revela nossa pequenez. O que nós somos expira em um segundo. O morrermos significa que o nosso tempo acabou. Crescendo subversivamente dentro de nós, despercebido, o tempo marca nossa partida, como sino, comunica à morte que estamos maduros para sua ceifa. Gasta-nos, rói a nossa existência. A memória, o que ela pode contra o tempo? Quer guardá-lo em si, mas o que percebemos no tempo se só miramos o viver e não o armazenar instantes? Apesar das diferenças na força mnemônica, todos temos em comum o esquecer inúmeras partes do passado. Por isso, viver a narrativa não tem familiaridade com a autonomia, a interdependência é lei: precisamos dos outros para saber do passado e para ler quem somos e donde viemos. E a fé no que contam-nos. Assim como acontece com os quadros e os postais, tentamos memorizar, mas falhamos.

Completamos com a imaginação, mas até ela carece dos relatos alheios. Essa derrota para o tempo e a memória espelha a pequenez real de que somos feitos: pedaços de memórias – que acessam-nos como que em curto circuito, choques. Esses esquecimentos poderiam ser também espécies de morte. Contudo, mesmo sem lembrar as ocorrências passadas, livros lidos há anos, filmes assistidos, aulas tidas há décadas, elas aconteceram e foram fundamentais para quem somos hoje. O mundo é, as coisas são, hoje e ontem, independentes do amém da memória.

O mundo nega-nos a memória total. É impossível. Não podemos nem compreender a totalidade de um segundo quanto mais de um dia ou ano. Mas a totalidade não é impossibilidade apenas mnemônica, é da vida em si. Por isso, há momentos especiais ou ricos que nos marcam e que o esquecimento não logra colonizar: são momentos que “fazem um corte tão profundo que não podem ser esquecidos. Eles cicatrizam (para o bem e para o mal).

Normalmente tocam a própria vida ou algum vislumbre do que a vida poderia e deveria ser. Ou o oposto” (p.106-7). A nossa vida corre sobre as rodas do tempo. E se esconde. A memória dribla-nos. A amnésia ataca. Mas isso tudo é parte do que somos: mortais. O tempo leva tudo que amamos consigo: “Não importa quantas fotos eu tire, não importa quantos scrapbooks eu faça, não importa quantos momentos invadamos com uma câmera rodando, nós morreremos. Desapareceremos. Não podemos segurar e guardar. Não podemos contrabandear coisas conosco ao passar pela morte” (p.111). Os mortos nada recordam. Não é mais importante, diz Wilson, lembrarmos, porque nossa mente é finita mesmo e fraca, o mais importante é vivermos os nossos instantes com intensidade e, lembrados depois ou não, eles terão valido a pena. Viver ao máximo.

Somos passageiros dum ônibus espacial como aquele do Grande Abismo de C. S. Lewis. Contudo, essa realidade não deve melancolizar ou amargurar-nos, pois dá-nos a própria medida da realidade, o fim não é o Fim: “aqueles que têm fé (outro dom) alegram-se mesmo no fim e depois. Eles secam as lágrimas, sentindo com maior profundidade toda a riqueza de receber a vida quando a mesma vida é perdida” (p.112). A passagem do tempo fecunda a importância do tempo, da vida, da morte. Sim, porque a morte também passará. Wilson explode: “No solo, todos nós temos mãos vazias. Aproveite a vida agora. E agora. E agora.

Antes que os agoras se acabem. Veja os presentes. Saboreie a comida, sabendo que você terá de engolir” (p.113). Caminhos entre perdas, carregamos as nossas nas costas pela inteira jornada da vida, mas dentro sempre dentro das promessas de Deus também, e várias delas se cumprem ao nosso redor.

Poupar a vida é contrariar a Cristo, não vivemos para viver, mas para morrer, como Cristo. Wilson diz: “Viva para morrer. Se o fizer, sucesso inevitável o aguardará” (p.114). Viver como Cristo, porém, não termina na sepultura, mas segue para a ressureição e depois para a ascensão. A eternidade é a última paragem do autocarro do tempo de cada um de nós: “Não há fim para essa corrida. Não há linha de chegada. Não há assalto final para essa luta. Não há cronometro” (p.115).

Esse sem-fim da vida, que fica do outro lado da morte, não suspende a vigência da morte na nossa carne, mas puxa a nossa vida por entre o labirinto da morte. A nossa vida consiste em morrer e correr atrás da morte – vivemos para morrer ou não vivemos, vivemos para morrer na vida. Wilson dá a medida da coisa: Sem a morte, sem o tempo mortal, essa terra seria o tártaro. A mortalidade é consequência do pecado, mas também é um dom. Uma misericórdia. Uma gentileza. Morte é graça. Uma raça decaída e corrupta sem fim? Fardos sombrios sem final? Por causa da morte, podemos correr a boa carreira. Podemos combater o bom combate. Existe conclusão (p.116). A meta é uma benção. E atrás da morte e do túmulo está Cristo para chamar os seus Lázaros. David poetou essa realidade espiritual: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16.10). Jó também, antes dele: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior (Jó 19.25-27).

Wilson vê essa travessia pelo vermelho mar da morte como que uma passagem pelo rasgado, necessária páscoa: nossa nova criação. Mortalidade: “um caminho para a ressureição” (p.117). Nessa certeza, o autor exorta-nos a gastar a vida que temos, em prol dos outros, gastar nossos bens e tempo, força e inteligência. Por que acumularíamos para as traças? Existir é ofertar, doar, entregar tudo, como diz um velho salmo: “Tudo, ó Cristo, a Ti entrego”. Viver é viver ao máximo possível até seres semeado na terra para nasceres no Paraíso, tendo deixado árvores plantadas frutificando no tempo: “Beba seu vinho”, diz o autor, “Chore de rir. Acumule os momentos de gratidão. Esteja tão vazio quanto puder quando o relógio parar. Gaste sua vida. E, se o tempo é um rio, que você deixe um rastro” (p.119).

A imutabilidade do passado assusta, o presente é o que temos e, infelizmente, é veloz e não o acompanhamos em tempo real. Parece-me que quase sempre chegamos atrasados ao presente, como os polícias nos filmes de Hollywood. O passado passou e dele conseguimos apenas gotículas, o futuro parece chegar antes do tempo e cai sobre nós. O tempo esmaga-nos, mas é o que temos. Tempo nosso: pedaços de cronologia que tentamos sincronizar.

A nossa história é um conjunto de “respingos acumulados das nossas trilhas.” E no meio de tudo isso, a consciência da nossa mortalidade. No tempo, esmagados. Só Deus é nossa esperança, porque somos fracos. A eternidade é a nossa única possibilidade de vencer. E uma de suas obras é gastar-nos, pescar-nos com a rede da morte. Sempre acharemos que a vida foi pouca, que devia durar mais e melhor. Mas isso é impossível. Wilson arremata: “Mas a linha de chegada nos dá foco.” Wilson quer que vivamos ao máximo. Mas também que ao morrer morramos ao máximo que pudermos. A morte ingressa em nós, desde a nascença, vestida de tempo. O crescimento é crescer para a morte. O que restará é o quanto fomos árvore frutífera em vida, as duas regras dos mortais: amar a Deus e ao próximo. O que vence a morte é morrermos na Vida, i.e., em Cristo, assim como o que dá sentido à vida é vivermos Cristo. A graça da eternidade arrebata-nos para si, nenhuma sepultura pode segurar-nos. Sem o ampliação da percepção, é impossível ter esse vislumbre da operação do Eterno em nós, no tempo.

IX

Uma das sabedorias salomônicas consiste em que visitemos a morada dos mortos, pois nos ensina o nosso fim e mata as ilusões, e que isso é melhor que a casa de festa. O autor está em Jerusalém, a trabalho: vai visitar o Geena, o campo de Sangue de Judas, vai ver túmulos e histórias. A narrativa de povos antigos tem páginas repugnantes para não dizer satânicas: o assassinato de bebés em sacrifício a Moloque, por exemplo. O que esse americano busca entre os mortos? História: “Estou acostumado a estar em locais ricos em história. Eu os caço” (p.122). Mas essa história de mortes cruéis, repugna, nauseia. Diz do campo de sangue: “Este lugar parece amaldiçoado” (p.123). Em todo caso, vivermos significa que também manteremos ligação com essas épocas tenebrosas da história humana, como a escravidão, como o holocausto, como os genocídios de Ruanda e de Roménia, etc.: “o mundo é um campo de sangue” (p.130). Mas, então, o que fazer? Não fugir deles, mas permitir que repugnem, irritem, chateiem-nos, sem atalhos ideológicos, sem vitimizações. Ficar de pé como o Wilson na terra em que Judas enforcou a vida com a corda da traição e do remorso. De pé e indignar-se, e avançar no conhecimento do lugar e da sua história, para agradecer a

Deus, sem esquecer que esses homens maus portavam como nós a imagem de Deus.

Jerusalém foi construída sobre os seus mortos, suas entranhas são habitadas por ossos, ossos secos. Mas o que devemos fazer aqui é lembrar a Narrativa principal da humanidade: nessa cidade de Jerusalém, Deus obrou “o nascimento da nova humanidade” (p.126), vencendo o mal. É isso que dá importância a essa cidade. O que os túmulos dizem-nos? Que serão nossa habitação a qualquer momento, que nossa parte no teatro de Deus terminará neles.

Mas a prática judaica de cada família sepultar numa mesma sepultura os seus mortos, mantendo os ossos dos precedentes no mesmo recinto, atinge o autor com uma poesia interessante, ele anota que essa práxis é saudável para a lembrança de quem somos ao observarmos os crânios dos nossos antepassados, perceber que somos “uma sequência e não uma história avulsa” (p.129). Visitar os túmulos judaicos, verdadeiras “bibliotecas de vidas”, possibilita-nos “sentir a magnitude da história em que vivemos e morremos” (p.130). Os túmulos são outro tipo de olhar para trás.

Nós somos como Jerusalém compostos por passados tenebrosos e sujos moralmente, mas também como Londres, edificados sobre muitos mortos. Estamos vivos. Londres segue viva. Mas o quanto viverá ainda? Bem, viverá, florescerá, nota Wilson, e sua história caminha para a sua origem. Como todos os homens. Wilson vê Londres, seus cidadãos e seus turistas. Foi lá a trabalho. Mas não poderia somente trabalhar, a sua filosofia não lhe permite: tinha de ampliar a estada, com reflexões e atenção ao que passou e o que está aí. Não há alternativas à vida.

X

Desse lado da eternidade, estamos no tempo e no espaço, condenados, desde o julgamento edênico, como malditos proscritos. Por isso, a vida aqui é viver e viver é paradoxalmente estar morrendo. O meu abajur está agora a iluminar, mas esse alumiar no fundo é igualmente um agastamento desse farol, em breve, fundirá, expirará. Wilson quer que ao alumiar, o farol ou a vela que somos alumiem ao seu máximo e com alegria e com gratidão a Deus, sem medo de extinguirem-se, pois essa extinção não só faz parte, mas é mesmo um revelador da grandeza, da nobreza da sua vida, da sua eternidade. Devemos aceitar gastar a vida e não retê-la para nós, perdê-la e não ganhá-la. E é óbvio que o viver morrendo que Wilson advoga difere do carpe diem dos epicuristas e dos pós-modernos, esse gastar a vida que ele prega centra-se no próprio Cristo, o nosso Deus – morrer é que é viver, gastar a vida até a sua última gota, beber o cálice até a última gota, esvaziá-lo mesmo.

A cada história que Wilson conta-nos, ele está a argumentar, do seu modo não linear e poético, que a vida é mais ampla do que sentimos e pensamos e que viver significa tentar capturar e reconciliar ou casar nosso espírito e consciência a essa imensidão da existência o quanto nos for possível. Wilson está dizendo que a vida é muito ampla, muito vasta, muito complexa, que nós mesmos somos povoados pela bondade de pessoas que nem conhecemos e nem conheceremos a vida inteira, e que cada instante acontecimento é maior do que parece, e por isso, não podemos enfocar apenas uma parte da história, mas há outros elementos a considerar para não cairmos no erro de “sufocar a realidade”, de perder o fio da verdade na história. Cada instante é povoado por mil e uma maravilha acontecendo que não damos conta de todo. Tudo está ligado, tudo tem a ver, e cada parte e pessoa compõe a vastidão da existência e (por que não?), a sua eternidade. É preciso viver tudo isso, viver com essa amplitude, plenitude, com essa profundidade a nossa vida, a nossa história cujos rizomas escondem-se de nós, é verdade, mas nunca totalmente. A consciência, a memória, usando os recursos que o nosso tempo nos fornece, precisa viver, abarcar na alma como que em alforje esses rizomas. Isto é que é gastar a vida. Os alienados e iludidos gastam de forma negativa a vida e gastam apenas uma parte dela, ignoram a sua vastidão, imensidão. O que fazemos no tempo cola-se à eternidade, foi isso que Lázaro descobriu quando atravessou a vida. O nosso autor explica melhor: “É uma ideia gloriosa e aterradora.

Nós interferimos em muitas histórias. Também muitas das nossas histórias sofrem interferências”. É Deus quem lança-nos ao mar da existência e quem, de nós, desenterrará os milhares de advirão daqueles que de nós surgirem. Somos criados todos pela Eternidade, não conhecemos o nosso princípio e nem o nosso término, vivemos em Deus, e ele é eterno e infinito.

XI

E a nossa pequenez pulsa: a mortalidade é seu emblema. Chegamos ao mundo para segurar a existência nos nossos braços, mas somos fracos e nossas mãos não seguram, a vida cai, cansamos, expiramos. Mas Jesus conseguiu segurar o universo inteiro em suas mãos para toda a eternidade. Sem auxílio. E ainda conseguiu a vitória. A glória da sua vida é a cruz, o seu sacrifício, o seu cansaço, a sua vida vivida até a última gota. Wilson arremata: “Glória é sacrifício, glória é exaustão, glória é ter nada sobrando para dar. Quase. É morrer de tanto viver”: que é “escrever um passado do qual não terei remorso”, ou “alcançar as últimas gotas da vida que recebi e, então, lamber até o fundo da caneca”, sim, “viver arduamente e morrer grato”.

XII

Essa maneira de viver convive com a dor de maneira extraordinariamente louca e bela. Comunga com o desastre, a dor, a morte. Não reclama, não resmunga de Deus. Considera todas as dores partes da história, ingredientes da narrativa, assim como considera cada grão de poeira parte da mesma. Os ingredientes da nossa existência são inumeráveis, criados por Deus para possibilitarem-nos ter as nossas feições, limites e até cicatrizes. No lar nosso de cada dia, todo o mundo habita conosco, amigos mortos ou vivos, o mapa é nosso: “Sou levado a todos os lugares de uma vez.” Todos eles estão em nós e conosco na peregrinação do tempo. Lutamos a poeira de que somos, mas se o fizéssemos “dançando ao sol” seria viver mesmo. A existência termina logo, não temos alternativa a não ser o momento, o agora é o nosso lar: “A vida é aqui. A vida é agora.” Se é para vivermos, que vivamos amplamente, até o último segundo da vida. Se a morte chegar, que morramos como o velho que completou a carreira, guardou a fé.

Correr até a meta, é isso; viver até a eternidade chegar ou nela entrarmos por portões que ouvem a voz do Rei da Glória. A Glória da Vida é Viver para Morrer e a da Morte é Morrer para Reviver, a glória da nossa vida é morrermos na vida e não morrermos quando já há muito estávamos mortos porque não crer e não viver o que cremos.


Revisão: Laísa Caroline | Publicação: Alicia Catarina

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