A “psicologização” do aconselhamento cristão

Hoje o mundo vive uma época difícil em relação ao modo de como busca resolver seus problemas, aliás, a própria significação do termo “problema” e da maneira de lidar com eles têm sido remodeladas. Isso porque qualquer fragilidade emocional pode ser rapidamente resolvida ou, pelo menos, acompanhada por um psicólogo. Se o problema for algum trauma vivido na infância ou algum problema comportamental, somos rapidamente aconselhados por diversas pessoas a procurar um psicólogo. Contudo, um fator tem ocorrido: o número de distúrbios e disfunções psicológicas têm aumentado assustadoramente.

Segundo um artigo publicado em fevereiro de 2017 no jornal Estadão:

O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgadas nesta quinta-feira, 23, 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta 5,8% da população. Pesam nesse cenário, dizem especialistas, fatores socioeconômicos, como pobreza e desemprego, e ambientais, como o estilo de vida em grandes cidades.[1]

De fato, é inegável que esse aumento decorre de diversos fatores, porém o modo como é tratado foi o que nos chamou a atenção para a escrita deste texto, principalmente quando o locus é o meio cristão. Pastores e membros de igrejas são encaminhados aos profissionais da área de psicologia para resolverem suas frustrações, distúrbios e traumas. A questão é que nem sempre a psicologia existiu, e sendo mais preciso, a psicologia é uma ciência ainda muito jovem, se é que pode ser chamada de ciência, devido aos questionamentos realizados pela própria comunidade científica.

Quem então resolvia esses problemas?

Se pararmos para refletir, veremos que depressão, ansiedade e outros transtornos não são necessariamente doenças que surgiram no mundo dos últimos 50 anos. Quem então era responsável por desenvolver um acompanhamento aos crentes (este será nosso foco), com vistas a resolver ou direcioná-los para a solução destes problemas? A resposta é as Escrituras.

Os puritanos que viveram entre os séculos XVI a XVIII, tratavam da alma do homem com o que foi chamado de “casuística puritana”. Para os puritanos:

A casuística era a arte da teologia moral aplicada com integridade bíblica a vários casos com que alguém é confrontado em sua consciência ou vida. […] É possível entender [a casuística] de forma mais adequada como um método de demarcar trilhas de uma extremidade a outra da selva ética, a qual com demasiada frequência estabelece separação entre teoria e prática, entre código e conduta e entre religião e moralidade. A casuística é teologia prática, instruindo os cristãos a viverem com integridade, humildade e alegria na presença de Deus em cada dia de sua vida.

Trabalhando o conceito de forma ainda mais simplificada, os cristãos na época dos puritanos se dirigiam a eles, com vistas, não a serem ouvidos ou terem seus medos e transtornos resolvidos, mas sim, se se tratava de alguma falha moral, eles eram biblicamente confrontados, chamados ao arrependimento, e então direcionados e lembrados da graça de Deus em suas vidas.

Esta visão puritana é algo que fere contundentemente o movimento “psicologizante” atual. Todos os nossos medos, anseios, frustrações podem ser rapidamente transformados não em manchas do pecado em nossas vidas, que muitas vezes nos impelem a acovardar-nos de encarar o problema como deve ser tratado, mas, pode ser tratado como sendo um problema psicológico, o que, neguem os psicólogos ou não, suaviza e alivia nossa mente, pois não se trata necessariamente de uma falha causada pelo pecado, mas sim, de um problema de saúde mental.

Talvez estejamos sendo até aqui imprecisos quanto ao problema que desejamos expor, por isso façamos uma análise de caso. Como o dado exposto no início do artigo aponta, o número de casos de pessoas que sofrem com ansiedade ou depressão é muito elevado no Brasil e algo cada vez mais comum nas igrejas hoje são pessoas que sofrem com esses males por diversos motivos: jovens que estão demasiadamente preocupados com os resultados dos vestibulares, ou muitas vezes não sabem qual curso gostariam de fazer, e assustadoramente as datas dos exames se aproximam e esses precisam decidir o quanto antes. Ou ainda, pessoas que estão desempregadas e precisam sustentar suas casas, pagar suas dívidas, e tornam-se ansiosas por um emprego; ou quem sabe pessoas que já tem um emprego, mas sempre estão ansiosos por quererem uma mudança de vida, uma melhoria no salário, então acabam empreendendo um esforço hercúleo para conseguir uma promoção, com vistas a alcançarem o pretendido.

Todos esses casos e muitos outros que poderiam ser exemplificados mostram situações de pessoas que poderiam receber um aconselhamento bíblico, trabalhando em seus corações uma verdade da Escritura muito simples, mas que frequentemente esquecemos: DEUS É PROVIDENTE. Os jovens crentes que estão decidindo que curso farão ou que estão aguardando o resultado dos exames que fizeram devem crer que Deus, a Trindade Santíssima, tendo decretado todas as coisas na eternidade, se encarregou de também decidir o futuro de cada um deles, em todos os detalhes que o compõe. Desde o curso que farão, a pessoa com quem constituirão família, até ao emprego que terão e quanto ganharão, tudo isso já foi determinado pelo SENHOR, e, portanto, tudo o que se deve fazer é se esforçar, sendo laborioso nos estudos, porém, descansando nas mãos providentes do Criador. Da mesma forma, as pessoas que buscam emprego também devem confiar nas mãos cuidadosas do SENHOR, pois, como é dito por nosso SENHOR Jesus Cristo, valemos mais do que as aves do campo, e nosso Pai celeste cuidará de nós (Mt 6. 26). E ainda, os que procuram melhorias na situação financeira em seus empregos não podem permitir que esse desejo chegue a níveis alarmantes como a mudança para um coração ansioso, pois, devemos estar contentes com aquilo que nosso SENHOR nos dá. Temos exatamente o que precisamos para viver, e isso sendo diariamente fornecido pelo próprio Pai que cuida de seus filhos.

Porém, no tocante a todos esses exemplos de como as pessoas vivem e de como deveriam ser tratadas, a “psicologização” do aconselhamento cristão transforma tudo isso em transtornos psicológicos. Não estamos afirmando que esses problemas não possam ser reais, porém, é exatamente por serem reais e graves, em certos casos, que os cristãos devem buscar o auxílio devido nas Escrituras, que são Palavras suficientes para o tratamento do coração do homem. Na verdade, o que vemos é a criação de “novos jargões médicos” para tratar problemas que deveriam ser tratados com a confrontação bíblica, como faziam os puritanos.

O problema hoje, no meio cristão, é pressuposicional. Não acreditamos que a Palavra de Deus seja capaz de tratar desses nossos problemas, ou pior ainda, acreditamos que ela não seja relevante para estes contextos. Nosso ego é massageado, pois receber a notícia de um profissional de psicologia de que o que temos é um leve ou grave transtorno psicológico é muito melhor do que ouvirmos um irmão dizer que o que precisamos fazer é confrontar este sentimento com aquilo que a Palavra de Deus prescreve: se ansiedade, confiança em Deus; se medo, fé em Cristo; se perturbação nos relacionamentos, maturidade espiritual e sabedoria no Espírito Santo.

Além desses fatores, a própria psicologia está fundamentada em princípios que muitas vezes vão de encontro aos valores e princípios bíblicos. Alguns deles são apontados pelo teólogo John MacAthur:[2]

  • A natureza humana é essencialmente boa.
  • As pessoas encontram as respostas para os seus problemas dentro de si mesmas.
  • A chave para a compreensão e a correção das atitudes e ações de uma pessoa reside em algum ponto do seu passado.
  • Os problemas de uma pessoa são resultantes de algo que outra pessoa lhe fez.
  • Os problemas humanos podem ser puramente psicológicos em sua natureza – não estão relacionados a qualquer condição espiritual ou física.
  • Os problemas profundos só podem ser resolvidos por conselheiros profissionais e por meio de terapia.
  • As Escrituras, a oração, e o Espírito Santo são fontes inadequadas e simplistas para a resolução de certos tipos de problemas.

Mesmo que haja um cristão profissional da área de psicologia que negue ou busque trabalhar os princípios bíblicos para o tratamento de seus pacientes, ele, ainda assim, terá alguns de seus princípios metodológicos sendo direcionados pelas diretrizes da psicologia ou no mínimo terá um trabalho enorme pela frente para ignorar aquilo que a tese psicológica lhe apresenta e pôr em prática o que a Escritura aborda.

É necessário que nós, cristãos, nos voltemos para a Palavra de Deus, que é suficiente e inerrante, com vistas a tratar de nossas fragilidades emocionais, entendendo e sabendo que, em realidade, estes e outros problemas que afligem nossa alma, tem origem no pecado. Também é oportuno observar que não somos contra os avanços científicos que auxiliam aqueles que possuem algum tipo de alteração química no cérebro e precisam de alguma forma recorrer a tratamentos mais específicos para resolver problemas de saúde, nem que somos avessos ao tratamento médico, muito pelo contrário, entendemos que a medicina é um meio ordinário que o SENHOR decretou pelo qual o corpo do homem fosse tratado, porém, à luz da Escritura, sabemos que até mesmo esses problemas têm origem na condição pecaminosa em que caímos juntamente com nossos primeiros pais. Os problemas da alma devem ser tratados à luz da Escritura, não podemos e não devemos recorrer a “psicologização” com vistas a resolver nossas fragilidades emocionais ou comportamentais. O que precisamos é da mais que deliciosa disciplina bíblica e da santificação no Espírito Santo. Como aborda o Dr. César Miranda dos Santos:[3]

Não há outro caminho ou outra solução, se não Cristo, para solucionar os problemas da alma, da psique, que são inerentes à situação espiritual que vem desde o nascimento de todo homem. É inquestionável que a imensa maioria das situações que levam a alterações do comportamento, humor e dos pensamentos é originada no pecado, em todos os aspectos da vida que ainda não estão pautados na vontade revelada de Deus, a Bíblia.[4]

Cristo triunfa!


Revisão: Vanessa Lima | Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

[1] Disponível em: <https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-maior-taxa-de-transtorno-de-ansiedade-do-mundo-diz-oms,70001677247>.

[2] MACARTHUR, John F. – Introdução ao aconselhamento bíblico: Um guia básico dos princípios e prática do aconselhamento – São Paulo, SP: Hagnos, 2004., p.27.

[3] Médico formado pela UFMG em 1994, especialista em clínica médica. Presbítero da IPB desde 2000. Mestrando em Estudos Cristãos pelo International Reformed Theological College. Foi professor da FATE-BH (Faculdade de Teologia de BH) e do FEBAN_STEB (Faculdade de Educação Batista Nacional) no curso de Pós-Graduação Latu Sensu em Aconselhamento Pastoral.

[4] MIRANDA DOS SANTOS, César – A Enfermidade na Vida Cristã: Enfrentando as doenças com a Palavra de Deus – Recife, Editora Os Puritanos, 2018., p. 55.

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