Ensina-nos a contar os nossos dias: administrando o tempo para a glória de Deus

No salmo de número 90, o profeta Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, nos ensina acerca da majestade e soberania de Deus, em contraste com a fraqueza e limitação do ser humano. Uma dessas limitações, que salta aos olhos a partir da leitura do cântico, é a transitoriedade da vida humana sobre terra. Ou seja, enquanto Deus é Eterno, Atemporal, Criador e Senhor do tempo ao qual estamos inseridos, nós somos efêmeros, passageiros e momentâneos.

Diante dessa constatação, Moisés fez uma belíssima petição, contida no verso doze: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12).

Nesse texto, podemos extrair um princípio para a nossa vida: reconhecendo a nossa transitoriedade, devemos viver de forma sábia e equilibrada, o que certamente inclui a boa administração do nosso tempo.

Calvino, ao comentar esse texto, afirma

ninguém pode regular a sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial[i].

Em outras palavras, cientes da nossa brevidade na terra e do nosso fim principal que é glorificar a Deus, precisamos “remir o tempo” porque os dias são maus (Ef 5.16).

Na vida cotidiana, não raras vezes somos tentados a negligenciar a administração do nosso tempo. Ora dedicamos tempo excessivo a determinada atividade, ora assumimos mais obrigações do que podemos, ou ainda nos acomodamos em nossa zona de conforto, procrastinando em atividades que deveriam ser tratadas como prioridades.

A vida do puritano Jonathan Edwards sempre me chamou atenção, e uma de suas resoluções me fez refletir sobre a minha vida e o que eu tenho com o tempo que me foi dado por Deus. Trata-se da resolução de nº 5, em que afirmava: “Resolvi jamais desperdiçar um só momento do meu tempo; pelo contrário, sempre buscarei formas de torná-lo o mais proveitoso possível.” A partir da leitura das Escrituras Sagradas, penso que essa deve ser uma resolução de todo crente, já que em diversas passagens o Senhor nos alerta a respeito da finitude da vida humana e de como devemos conduzir a questão do tempo de forma proveitosa.

Nesse sentido, podemos destacar a oração de Davi no Salmo de número 39 e o texto do apóstolo Tiago em sua epístola:

Dá-me a conhecer, Senhor, o meu fim e qual a soma dos meus dias, para que eu reconheça a minha fragilidade

Eia agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. No entanto, não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece”. (Tg 4.13,14)

Já no primeiro capítulo de Gênesis, o próprio Deus nos traz uma lição a respeito do tempo, tendo criado o mundo em seis dias e descansado no sétimo. Ou seja, deve haver tempo para trabalhar e tempo para descansar. No mesmo capítulo, vemos que o Senhor criou o homem à sua imagem e semelhança e lhe deu a incumbência de cuidar e gerir toda a criação, o que certamente exige a correta administração do tempo.  Assim, vemos que a utilização do tempo deve ser feita de forma proveitosa.

Diante disso, surge o seguinte questionamento: Como podemos fazer isso?  Como otimizar o tempo que temos?

Não vamos aqui dar uma fórmula pronta de como administrar o tempo, mas com o auxílio de um devocional elabora por Jordan Raynor, destacamos alguns princípios bíblicos que ajudam nesse processo.

Em primeiro lugar, devemos seguir o exemplo do único ser humano perfeito que já viveu sobre a terra: Jesus Cristo. Em diversas passagens das escrituras, vemos o Mestre Jesus sempre separando um tempo sozinho para orar:

“Ele, porém, se retirava para lugares solitários e orava.” (Lc 5.16)

“Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava”. (Mc 1.35)

Assim como Cristo, devemos exercer os meios de graça, separando tempo diário para a oração e para leitura da Bíblia. Isso não pode ser algo que fazemos quando sobra algum tempo, mas pelo contrário, deve ocupar o primeiro lugar em nossa lista de prioridades. As escrituras nos deixam claro que devemos buscar em primeiro lugar as coisas que são do alto, e assim todos as demais coisas nos serão acrescentadas (Mt 6.33).

Jhonatan Edwards entendeu essa necessidade, e a sua biografia mostra como ele se controlava rigorosamente nas disciplinas espirituais, tais como estudo bíblico, leituras sobre teologia, meditação, oração e canto. Nessa perspectiva, o puritano escreveu a resolução de número 28, onde ele se propunha a estudar as escrituras do modo mais firme, constante e frequente do seu poder.[ii]

Tendo separado tempo para as disciplinas espirituais, estabelecendo limites na nossa agenda, devemos reunir todos os nossos compromissos, para que possamos cumpri-los. Com isso, podemos observar também se não estamos dizendo “sim” para coisas demais, e se estamos cumprindo com a nossa palavra ou se temos falhado nesse sentido, lembrando que a palavra do cristão deve ser Sim, sim; não, não.

Reunidos os compromissos, devemos ainda definir aquilo que é essencial, listando as obrigações em ordem de prioridade. No texto de Lucas 10, vemos Marta extremamente preocupada com os muitos serviços da casa, pois estava preocupada em hospedar Jesus da melhor forma possível. Evidentemente que os serviços da casa eram necessários, porém Cristo deixou claro que aquilo não era a coisa mais importante no momento. Não raras vezes invertemos a ordem de prioridades, e ocupamos parte considerável do nosso tempo com coisas que nem sempre são essenciais.

Finalmente, considerando que nosso tempo e recurso são limitados, devemos dizer “não” a atividades e compromissos triviais, sobretudo àquelas que nos afastam da missão essencial de nossas vidas.

Que o Senhor nos ajude a contar os nossos dias, a fim de que alcancemos coração sábio e que venhamos a resolver, assim como Edwards, tornar o nosso tempo mais proveitoso e a não o desperdiçar.


Revisão e Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

[i] CALVINO, João.  Comentário de Salmos: Vol 3, versão kindle. São Paulo: Editora fiel, 2011, posição 6455 de 14273.

[ii] LAWSON, Steve J. As Firmes Resoluções de Jonathan Edwards: Um Perfil de Homens Piedosos. São Paulo: Editora Fiel, 2008, p. 110

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