O Deus que é Transcendente-Imanente

Quando eu comecei a me interessar pela fé reformada, um dos princípios que mais me fascinava era o da clareza das Escrituras. Segundo esse princípio, “as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação (…) são tão claramente expostas e explicadas”[1] que qualquer pessoa no devido uso dos meios da graça pode compreender as verdades Bíblicas. No entanto, os próprios teólogos que participaram da Assembleia de Westminster sabiam que existem coisas na Bíblia que não são claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; nesses casos, quando há qualquer controvérsia no meio do povo de Deus, sabe-se que o que deve ser feito é recorrer às línguas originais (O Velho Testamento em Hebraico e o Novo Testamento em Grego).

Antes de entrar no seminário e começar a estudar as línguas originais, eu já havia lido a Bíblia algumas vezes, especialmente os Capítulos 1 e 2 do livro de Gênesis. Até porque, quantas vezes nós tentamos começar um plano de leitura anual da Bíblia e lemos apenas até Levítico ou Números e nos desanimamos no caminho? Então, criamos outro plano de leitura e tentamos novamente. Nesse santo intento, nós acabamos nos tornando “doutores” nos livros de Gênesis e Êxodo, fazendo com que não seja difícil respondermos perguntas sobre a ordem da criação, as maldições após a queda, a história de Caim e Abel, Noé, Babel ou dos Patriarcas. Ter o conhecimento desses acontecimentos é essencial para o cristão; mas, quando nós começamos a estudar a Teologia Bíblica por trás dessas histórias e a entender o significado das palavras inspiradas pelo Espírito Santo e escritas por Moisés em Hebraico, um novo e inexplorado mundo se abre a nossa frente.

Hoje, nós veremos que Moisés, cuidadosamente, conta-nos, por exemplo, o mesmo evento da criação de duas maneiras diferentes – a primeira em Gênesis 1.1-2.3 e outra de Gênesis 2.4-3.24. Enquanto em Gênesis 1:1-2.3, Moisés nos apresenta uma visão panorâmica da criação; em Gênesis 2.4-3.24, ele aproxima seus leitores utilizando-se de uma linguagem poética e romântica da criação – em outras palavras, é como se ele desse um “zoom-in” na história, nos contando em detalhes sobre o relacionamento especial desfrutado por Adão e Eva com Deus, entre eles como casal e entre eles e as demais criações do Jardim. Essa mudança de estilo inspirada pelo Espírito Santo não é à toa e dela podemos tirar aplicações teológicas e práticas importantíssimas.

Primeiro, observem a drástica mudança de estilo literário entre Gênesis 1.1-2.3 e Gênesis 2.4-3.24. Na descrição panorâmica da criação em Gênesis 1.1-2.3, o estilo literário escolhido por Moisés é repetitivo, tabular e formal. O texto Bíblico nos provê uma versão harmoniosa da criação, na qual há uma alternância entre a voz do narrador e o comando divino. A criação é apresentada de maneira formal e repetitiva que se move através do discurso divino. O ritmo da história é ditado pela ação de Deus e o resultado produzido; assim, Deus “separou”, Deus “chamou”, Deus “viu” e Deus “fez”. Observe que nessa primeira descrição, nós temos um monólogo, no qual Deus é o único autor da criação, Ele fala e as coisas instantaneamente acontecem.

Agora, notem a diferença do estilo literário utilizado por Moisés para retratar a criação em Gênesis 2.4-3.24. Aqui, nós temos um relato vívido e pessoal da relação entre Deus e sua criação. O estilo repetitivo, tabular e formal é deixado de lado, e Moisés irrompe em uma poesia sem precedente sobre a criação. Iremos retornar a esse ponto mais a frente.

A mudança no estilo literário é acompanhada pela diferença do vocabulário utilizado por Moisés em ambas as descrições da criação, particularmente no tocante aos nomes para Deus. Nos versos de Gênesis 1.1-2.3, Moisés se refere ao Criador sempre pelo termo hebraico ‎אֱלֹהִ֑ים (Elohim[2],) que significa Deus. Contudo, nos versos de Gênesis 2.4-3.21, Moisés se refere ao Criador pelo termo hebraico ‎יְהוָ֥ה אֱלֹהִ֖ים (JHVH – nós traduziremos como JehováhElohim,) que é normalmente traduzido em nossa Bíblias como SENHOR Deus.

Essa mudança feita por Moisés, inspirada pelo Espírito Santo, não foi desproposital. Leia, releia e observe como Moisés retrata Deus em Gênesis 1.1-2.3 e Gênesis 2.4-3.24. Em Gênesis 1, Moisés descreve Deus como um ser TRANSCENDENTE [3], majestoso, imponente, grandioso, totalmente diferente das coisas criadas, um poderoso organizador cósmico. Nesse passo, Elohim criou e ordenou todo o universo através de uma série de decretos. Ele comanda e seus comandos acontecem automaticamente. Deus é retratado como um ser que está fora do cosmos criado e controla todas as coisas por meio de sua poderosa Palavra. Por isso, Moisés fez uso de linguagem antropomórfica e estática em Gênesis 1 para preservar a TRANSCENDÊNCIA de Deus –  e. g., “Deus disse”, “Deus viu”, e “Deus descansou”.

Por outro lado, a descrição feita por Moisés em Gênesis 2 e 3 é bem diferente. Aqui, nota-se a IMANÊNCIA [4], a proximidade pessoal e o envolvimento do Jehováh Elohim (SENHOR Deus) com sua criação. Deus é retratado como um mestre íntimo de sua criação. O relato poético feito por Moisés em Gênesis 2 e 3 e o antropomorfismo utilizado é algo tremendo. Ele molda o homem do pó da terra como um oleiro, Ele sopra nas narinas desse modelo de argila, Ele planta no jardim, Ele procura pelo homem na viração da tarde, Ele tem conversas privadas com o homem, com a mulher e com a serpente. A única vez que Moisés não utilizou o termo Jehováh Elohim nesses dois capítulos foi para transcrever a fala da serpente para Eva em Gênesis 3.1-5. A serpente, nessa porção das Escrituras, sempre se refere a Deus como Elohim e nunca como Jehováh, pois como seu “arqui-inimigo” a serpente se recusa a usar o nome pessoal de Deus na presença de Adão e Eva.

Lembro-me de quando estávamos discutindo esse assunto em sala de aula e um colega perguntou se essa diferença no relato da criação não implicaria uma contradição. Será que Moisés se contradisse? A resposta é não! Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, sabia exatamente o que estava fazendo. Essas duas descrições da criação, uma panorâmica e outra mais aproximada, devem ser entendidas como complementares. De fato, elas se complementam de maneira extraordinária. Mas, como? Ora, em Gênesis 1.1-2.3, Deus revela-se a si mesmo como aquele separado e distante de sua criação. Elohim é o todo-poderoso ser que é totalmente diferente das coisas criadas por Ele. Em termos teológicos, Ele é TRANSCENDENTE. Todavia, Gênesis 2.4-3.24 descreve Jehováh Elohim como um Deus que está bem perto de sua criação, especialmente da humanidade, andando e falando com Adão e Eva no jardim. Em termos teológicos, Ele é IMANENTE. Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, ao colocar essas duas descrições da criação lado a lado no início de seus cinco livros, presentea-nos com uma dupla, porém complementar, visão de Deus. O Deus da Bíblia desde os primeiros capítulos do livro de Gênesis até o último capítulo de Apocalipse se revela como um Deus TRANSCENDENTE-IMANENTE.

O fato de nosso Deus ser TRANSCENDENTE-IMANENTE é essencial para a Teologia Reformada e tem muitas aplicações práticas. A doutrina do Pacto, por exemplo, expressa bem como essa verdade permeia toda nossa teologia – apesar de a distância entre Deus e a criatura ser tão grande (Transcendência), Ele voluntariamente condescende por meio de pactos (Imanência). Dentre as aplicações práticas de nosso relacionamento com um Deus TRANSCENDENTE-IMANENTE, nós podemos citar, por exemplo, como tal relacionamento deve moldar nosso culto e nossas orações. Nós prestamos culto ao nosso Deus TRANSCENDENTE-IMANENTE de maneira solene, da maneira instituída por Ele mesmo e não de acordo com nossa imaginação, somente por intermédio de Jesus Cristo. Definitivamente, não podemos nos aproximar desse Deus TRANSCENDENTE de qualquer maneira, vide o fim que levou os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, ao oferecerem fogo estranho perante a face do Senhor, o que Ele não lhes ordenara (Levítico 10.1). Nosso culto deve levar em consideração que estamos diante de um Deus TRANSCENDENTE. Ao mesmo tempo, nosso culto deve levar em consideração que estamos diante de um Deus IMANENTE, que deseja ser temido, amado, louvado, crido e servido de todo coração, de toda alma e de toda força, por meio de nossas orações, leitura das Escrituras, pregação da Palavra, cânticos com graça no coração e pela administração e recepção dos sacramentos. Na Ceia do Senhor, e. g., nosso Senhor Jesus Cristo está espiritualmente presente na sua Igreja, nutrindo-nos espiritualmente e nos fazendo crescer espiritualmente nEle e uns com os outros como corpo místico dEle. Por isso, nosso culto deve levar em consideração também que estamos diante de um Deus IMANENTE.

Em nossas orações não é diferente. Nós devemos orar com solene apreensão da majestade de Deus, sabendo que só temos acesso ao Pai por intermédio de Cristo, pois estamos tão afastados de Deus que só pela mediação de Jesus e com auxílio do Espírito nós podemos dizer Abba, Pai. Nós não devemos orar de maneira “irreverente” a Deus Pai. Não confundamos o acesso que temos ao Pai, por meio de Cristo, com licenciosidade! O Salmista reconhece essa verdade em vários Salmos, e. g. “Nosso Senhor é Soberano e tremendo o seu poder; é infinita sua sabedoria” (Salmo 147.5). Nossas orações devem levar em consideração que estamos diante de um Deus TRANSCENDENTE. Todavia, nós oramos na certeza de que Deus Pai, em Cristo, pelo Espírito, quer ouvir nossos desejos, louvores e confissões. Observe como o Salmista expressa muito bem essa verdade em sua oração, ao escrever: “Eu te invoco, ó Deus, pois tu me respondes; inclina-me os ouvidos e acode às minhas palavras.” (Salmo 17.6). Nossas orações devem levar em consideração que estamos diante de um Deus IMANENTE.

Moisés não escreveu duas versões para retratar a criação por acaso. Ele queria enfatizar, dentre outras coisas, que Deus é um ser TRANSCENDENTE-IMANENTE. A história do povo de Deus prova que toda vez que o povo se esquece dessa realidade e passa a enfatizar só uma dessas características, eles caem em pecado. Seja por só enxergarem Deus como um ser transcendente, distante, que não interfere no universo, que não deseja ter um relacionamento pessoal com seus eleitos; seja por só enxergarem Deus como um ser imanente, como um bom companheiro ou quiçá um empregado que está lá para servi-los quando e como determinarem. Que nunca caiamos nesse erro.

Glórias sejam dadas ao nosso TRANSCENDENTE-IMANENTE Deus!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

¹- Esse artigo é fruto de um conjunto de fatores, dentre eles a leitura da Palavra, oração e da leitura de bons livros sobre o assunto. Caso você deseje se aprofundar mais sobre o assunto, leia: From Paradise to the Promised Land (T. Desmond Alexander) e Who Shall Ascend the Mountain of the Lord? (L. Michael Morales).

[1] Confissão de Fé de Westminster, Capítulo I, Seção VII.

[2] A palavra hebraica Elohim é plural, por isso muitos teólogos concluem que essa já seria uma referência à Trindade no Antigo Testamento.

[3] Quando nós afirmarmos que Deus é TRANSCENDENTE, nós queremos dizer que Ele é um ser único, totalmente separado de sua criação e não dependente dela em nenhum sentido.

[4] Ao nós afirmarmos que Deus é IMANENTE, nós queremos dizer que ele está perto de sua criação.

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