A prudente influência cristã na cultura

Recentemente, em uma sessão de cinema organizada no trabalho, seguida de um debate (um evento nada despretensioso), tive a oportunidade de assistir a um filme que suscitou muitas reflexões relevantes para nós, jovens reformados. O fato desse filme ter sido escolhido para a exibição e posterior discussão, bem como o seu conteúdo – as falas, as músicas, a construção dos personagens, enfim, todo o roteiro, foram para mim como uma evidência assustadoramente próxima da batalha de cosmovisões que vivemos, não apenas, mas especialmente, nesses tempos pós-modernos. Todo dia as pessoas que não temem a Deus trabalham, nas relações sociais, nos projetos de lei discutidos e apresentados, nos tribunais, nos filmes gravados e lançados, nos textos literários, enfim, nas mais diversas instâncias, para deter e suprimir a verdade, dando lugar à injustiça (Rm 1.18).

“O vento será tua herança”, longa-metragem de 1960, dirigido por Stanley Kramer, foi adaptado da peça “Inherit the wind”, de Jerome Lawrence e Robert Edwin Lee, e conta a história do julgamento de um professor processado por ensinar evolucionismo em uma escola pública do Tennessee. O filme é baseado nos eventos verídicos do “Julgamento do Macaco” (Scopes Monkey Trial), na cidade de Dayton, no Tennessee, em 1925.

Percebemos o tom da obra cinematográfica já nas primeiras cenas, em que algumas autoridades da cidade caminham juntas em direção à escola pública para dar voz de prisão a Bertram T. Cates, personagem baseado no professor John Thomas Scopes (daí “Scopes Monkey Trial”), tendo como trilha sonora uma canção evangélica do século XIX, cantada por um coro, com a seguinte letra: “Dê-me aquela religião antiga, dê-me aquela religião antiga, dê-me aquela religião antiga, ela é boa o suficiente para mim. Ela foi boa para as crianças hebreias, é boa o suficiente para mim […] Ela foi boa para o pequeno Davi, é boa o suficiente para mim…”.

O inocente e despretensioso professor ensinava, em mais um dia comum, na escola os alunos interessados, quando repentinamente teve sua aula de biologia interrompida! Ele foi preso com base numa lei que proibia o ensino da Teoria da evolução em escolas públicas. A partir desse evento, a pequena cidade de Hillsboro (representando a cidade real em que ocorreram os fatos, Dayton) entra em polvorosa. O promotor no caso é Matthew Harrison Brady (personagem inspirado em William Jennings Bryan), visto como um homem de Deus, que luta para promover a verdade e a fidelidade às Escrituras. Sua chegada é celebrada como a de um herói, quase como em um comício, no qual ele discursa e a população responde, cada vez mais inflamada com fascinação por ele e ódio ao professor que ensinou o evolucionismo às suas crianças. Já o advogado de defesa é visto como um herege que deve ir para o inferno, juntamente com o professor, conforme se lê em cartazes que as pessoas carregam. São pessoas normais (donas de casa, crianças, idosos, pais de família), unidas, amantes da comunidade e bem vestidas, que transitam pelas ruas em grande agitação e brados a favor do promotor e da verdade e contra “os malditos evolucionistas”.

Ao longo do filme essa é a visão transmitida acerca dos habitantes de Hillsboro, que, em sua maioria, eram contra o evolucionismo: religiosos-fanáticos-fundamentalistas. Essa perspectiva é construída através:

  1. Da presença marcante e agressiva da população na entrada do tribunal no dia do julgamento e dentro dele, principalmente por meio das frases de efeito que alguns gritavam e da interação quase devota em relação ao promotor em suas manifestações;
  2. Das passeatas após os dias de julgamento, em que um boneco em chamas, representando o professor, é erguido e carregado pelas ruas da cidade, ao som de uma paródia macabra cantada na melodia de um hino cristão antigo;
  3. Da trama envolvendo o pastor da cidade e sua filha, Rachel. A moça é comprometida com o professor evolucionista, e, portanto, deseja permanecer ao seu lado, porém o pai intensamente a implora para que fique do lado certo, sequer ouvindo seus argumentos e dilemas.

Em minha opinião, o ápice da demonização dos cristãos que buscam fidelidade total à Bíblia acontece posteriormente em uma reunião da igreja ao ar livre, quando o pastor faz uma oração imprecatória, pedindo o castigo para os que se levantassem contra as Escrituras Sagradas. Sua filha implora a ele, chorando, que não ore pela condenação de Bert (o professor e seu noivo); ele, no entanto, ora pela condenação de todos os que são condizentes com aquela rebeldia – inclusive a própria filha. Diante da angústia e do choro da moça, até mesmo o promotor, Sr. Brady, ardente defensor da verdade e referência na luta contra o evolucionismo, busca uma amenização daquele discurso. Fica evidente na cena o fanatismo cruel do ministro, sem qualquer compaixão. Todos esses comportamentos já mencionados no texto são sempre associados aos cristãos que buscam defender a verdade das Escrituras.

Uma história reescrita

A essas alturas talvez o leitor já esteja se perguntando o que eu vi de tão relevante em um filme que traz uma visão pejorativa e caricatural dos cristãos. Bem, em primeiro lugar, chama a atenção o fato de que a maioria das pessoas, tanto jovens quanto idosos, tiveram suas opiniões sobre o julgamento real e sobre toda a controvérsia criacionismo/evolucionismo moldada pela peça e pelo filme de ficção. Só que o diálogo no filme não é baseado no que aconteceu de fato no julgamento. Na verdade, houve uma verdadeira descaracterização dos acontecimentos e dos principais personagens.[1] Para início de conversa, a peça adaptada em filme foi escrita como uma resposta ao contexto anticomunista na era McCarthy, nos Estados Unidos. Portanto, nunca foi a intenção dos autores a apresentação de um relato historicamente preciso do julgamento.

Além disso, o próprio processo em desfavor do professor foi uma armação publicitária. A ACLU – União Americana pelas Liberdades Civis – descobriu sobre a lei recentemente aprovada para combater o ensino do evolucionismo nas escolas públicas do Tennessee, o “Butler Act”, e enviou uma nota de imprensa afirmando que gostaria de questionar a lei na Justiça. Um habitante de Dayton chamado George Rappelyea, tanto frequentador de uma igreja quanto adepto da teoria da evolução, enxergou na situação uma oportunidade para atrair atenção para a pequena cidade e enviou um telegrama em resposta, garantindo que eles conseguiriam arranjar um caso real para contestar a lei. Ele então conversou com John Thomas Scopes, um treinador de futebol que estava como professor substituto de Biologia. Ele concordou em ser o “cordeiro sacrificial” no caso, de modo que os promotores locais, também envolvidos no plano, expediram um mandado de prisão (que não durou muito, pois o professor foi imediatamente libertado sob fiança, aguardando julgamento).[2]

Podemos ver, apenas com a desmistificação de alguns aspectos da narrativa que a peça e o filme trazem, que o relato histórico foi distorcido quase além da possibilidade de reparo. Nas palavras do autor Donald J. Larson: “Pode não ter sido um relato preciso, mas a encenação foi brilhante e substituiu por completo o julgamento real na memória da nação.”[3] E, pior, o filme é uma ferramenta pedagógica popular para ensinar aos alunos sobre a década de 1920. Ao invés de se tomar como referência os acontecimentos reais do julgamento, são utilizados os trechos da obra para ensinar aos alunos do Ensino Médio como os valores mudaram nos Estados Unidos na década de 1920, e para se estudar os principais pontos do debate criacionismo/evolucionismo.[4] No entanto, são fatos e acontecimentos manipulados e propositadamente alterados, para lançar em descrédito os que lutam pela validade científica do criacionismo e, em última análise, a verdade da Palavra de Deus.

Militância pela Verdade

Nós, como cristãos, precisamos ficar atentos às versões dos fatos que nos são transmitidas, pois cada narrativa está imersa em um conjunto de pressupostos através dos quais se enxerga a realidade – uma cosmovisão. A maior parte das notícias, histórias e teorias veiculadas no contexto de pluralismo relativista da pós-modernidade têm subjacentes várias cosmovisões que se erguem contra a Verdade revelada nas Escrituras. O inimigo de nossas almas é mentiroso (Jo. 8.44). O apóstolo Paulo nos ensina que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2 Co 4.4). Assim, as pessoas que não temem ao Senhor vivem em trevas com uma visão do mundo de Deus e de si mesmas que é equivocada. Logo, são cegas e instrumentos do diabo para propagar todo tipo de falsidade e mentira.

Os servos de Deus, em cada instância de suas vidas, devem zelar pela verdade e não podem, de forma alguma, compactuar com a mentira! Nós, que somente pela graça de Deus tivemos nossos olhos abertos, precisamos orar por nós mesmos e por nossos irmãos em Cristo, para que tenhamos discernimento (saibamos distinguir o bem do mal) e estejamos firmes na sã doutrina, pelo poder do Espírito Santo que opera em nós,

“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4-5).

Invadir a cultura           

Além de nos firmarmos na sã doutrina e combatermos diariamente a mentira, precisamos despertar para ocuparmos os territórios de acordo com nossos dons e talentos concedidos por Deus. Existem mentes brilhantes como as dos roteiristas do filme, de tantos pintores, cantores, escritores e jornalistas que vemos diariamente, que usam seus talentos para promover uma cosmovisão resumida perfeitamente no Salmo 10.4: “que não há Deus são todas as suas cogitações”. Também conhecemos irmãos e irmãs em Cristo que têm talento e amor pela música, outros que são exímios desenhistas e/ou pintores, muitos escrevem com primor, outros são excelentes fotógrafos, alguns gostam de cinema, de filmagem, dentre tantos outros talentos. Isso porque o Senhor Deus pensou no Corpo de Cristo como um conjunto de pessoas remidas com diferentes habilidades, devendo todas serem usadas para a edificação da Igreja e para fazer o nome de Jesus conhecido!

Por que então nos damos por satisfeitos com produções cinematográficas que deixam a desejar em aspectos técnicos, caindo nos mesmos clichês, sem retratar a profundidade da Graça nas vidas dos servos de Deus? Por que deixamos a mídia entregue a pessoas comprometidas em propagar a mentira? Por que permitimos que se perpetue uma visão quase ascética de que os cristãos não têm muito a ver com a literatura, a música, a pintura, escultura, etc., perdendo a oportunidade de utilizar cada arte para a glória do Criador do qual veio a criatividade? Não é Cristo Senhor sobre todas as áreas da vida? Sim, como afirmou Abraham Kuyper “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano em tudo, não clame: é meu!”.

Verdade e amor

Nossa atuação nessas áreas é fundamental para combatermos os sofismas, os ventos de doutrina e as fábulas que aparecem, sedutores, disfarçados de verdade. Nessa defesa da fé que fizermos, no entanto, não podemos esquecer de falar a verdade em amor (essa foi uma grande ênfase no ministério de Francis Schaeffer). Não sei se o comportamento dos cidadãos da pequena Dayton, no Tennessee, foi semelhante ao retratado no filme, quanto aos cartazes agressivos, frases de ordem e passeatas hostis (por motivos óbvios, olho com desconfiança a visão que o filme transmite quanto a isso). Se a conduta dos moradores foi dessa forma, no entanto, consistiu em um péssimo testemunho para os incrédulos, pois foi demonstrada uma ferocidade e crueldade que não condizem com a vida de um seguidor de Cristo.

Precisamos, pois, ser firmes na defesa do Evangelho e da cosmovisão cristã, porém sempre com amor e sabedoria. Firmeza e convicção da verdade de forma alguma significam arrogância e altivez. Conforme nos ensina o Espírito Santo, por intermédio do apóstolo Pedro:

“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo” (1 Pe 3.15-16).

Prudentes como as serpentes 

Por último, mas não menos importante, mais alguns esclarecimentos sobre a verdade dos fatos, uma reflexão e um alerta. A defesa no Caso Scopes não buscava que se parasse de ensinar a visão bíblica da origem das coisas em escolas públicas do Tennessee. O objetivo era permitir a discussão sobre teorias alternativas e prestigiar a liberdade de ensinar e de aprender.[5]

A ironia da história é que, se na época existia aquela lei que não privilegiava a liberdade de ensino (se ela é legítima do ponto de vista bíblico, veremos em textos futuros) impedindo os professores de escolas públicas de ensinarem a teoria da evolução, hoje a situação está totalmente invertida! A escola, a universidade, as publicações científicas e a mídia estão dominadas pelos evolucionistas, que não querem permitir a teoria concorrente[6], e agem de todas as formas para relegá-la às sombras e ao descrédito. Impera na academia a visão errônea de que quem não crê na evolução não pode ser um cientista legítimo[7]. A teoria do design inteligente é alvo de ataques especialmente nos Estados Unidos, onde houve e há toda uma movimentação acadêmica e jurídica para que ela seja desacreditada e vista como uma pseudociência[8].

É natural o questionamento sincero: como as coisas chegaram a esse ponto? O que todos queriam não era a liberdade de discutir ideias diferentes? Porque agora a cada dia enfrenta-se uma batalha diferente, em que se deseja empurrar a cosmovisão cristã para a vida privada? Gary DeMar, em Quem controla a escola governa o mundo nos explica isso, quando aborda a maneira pela qual os cristãos perderam instituições inicialmente cristãs como Harvard, Yale e Princeton para os humanistas:

“Os conservadores acreditaram que ‘bancar o bonzinho’ e convidar a oposição para a festa em termos de ‘diálogo’ e ‘entendimento mútuo’ traria aceitação e boa vontade. Não acredite nisso; jamais acredite nisso! […] Eles (os darwinistas) defendem sua cosmovisão contra toda e qualquer oposição. Eles não cedem um centímetro. Quem dera os cristãos fossem tão valorosos e, atrevo-me a dizer, dogmáticos.”[9]

Isso quer dizer que podemos ser hostis e agressivos com as pessoas que discordam de nós? De forma alguma. Significa que estamos liberados para tretar nas postagens alheias nas redes sociais? Não! Significa que precisamos nos apegar mais à cosmovisão cristã, estudar a sã doutrina com afinco, aplicar a visão de mundo da Bíblia às mais diversas áreas do conhecimento, produzir em coerência com ela, aplicá-la em nosso trabalho. Precisamos nos manifestar com sabedoria diante dos diversos conflitos diários em nossa sociedade, demonstrando a mente de Cristo. Precisamos principalmente fincar estacas – trabalhar arduamente para retardar o máximo possível a modificação, nas leis e nas decisões dos tribunais, de certas questões fundamentais à fé cristã e à vida harmônica em sociedade.  Não deixaremos de ser tolerantes no sentido de sermos respeitosos e abertos ao diálogo e troca de ideias, mas jamais seremos complacentes ou lenientes! Que ouçamos a exortação do nosso Senhor:

“Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas.” (Mt 10.16)

Revisão: Laísa Caroline | Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

[1] DE MAR, Gary. Quem controla a escola governa o mundo. Tradução: Rosângela Oliveira. Brasília: Editora Monergismo, 2014, p. 160-163.

[2] Relato disponível em: <https://www.thegospelcoalition.org/article/9-things-you-should-know-about-the-scopes-monkey-trial/>, acesso em 17/03/2019.

[3] LARSON, Donald J. Summer of the Gods: The Scopes Trial and America’s Continuing Debate over Science and Religion. New York: Basic Books, 1997, p. 241.

[4] DE MAR, Gary. Quem controla a escola governa o mundo. Tradução: Rosângela Oliveira. Brasília: Editora Monergismo, 2014, p. 162.

[5]  DE MAR, Gary. Quem controla a escola governa o mundo. Tradução: Rosângela Oliveira. Brasília: Editora Monergismo, 2014, p. 162-163.

[6] Idem.

[7] Idem. Ibid., p. 108.

[8] Disponível em: <https://www.history.com/topics/roaring-twenties/scopes-trial>, acesso em 17/03/2019.

[9] DE MAR, Gary. Quem controla a escola governa o mundo. Tradução: Rosângela Oliveira. Brasília: Editora Monergismo, 2014, p. 116.

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