O hedonismo utilitarista nas igrejas modernas

Nos dias atuais de constantes mudanças e de grande conflito existencial, o mundo clama por respostas rápidas e que satisfaçam suas aspirações, depositando suas necessidades em uma espécie de resposta mística e rápida que possam conduzir a uma solução para suas inquietações. Neste contexto de transformações e buscas rápidas, um tema talvez tenha sobressaído diante a esta busca, tema da qual pode ser resumido em uma palavra: felicidade.

A busca da felicidade tem sido um constante combustível do homem desde muito tempo atrás. A felicidade resume em si sentimentos como: bem-estar, alegria, confiança entre outros. Não ser feliz, hoje, tem sido um dos grandes problemas para a sociedade cada vez mais frenética em busca desse “sentimento”. Num primeiro momento, observemos alguns movimentos históricos que tratavam desta temática.

O tema acerca da felicidade trata-se sobre um tópico da filosofia ética, como também da história da Filosofia que sempre procurou responder sobre a questão: “O que significa ter uma vida feliz?”, proposto desde os tempos de Platão e Aristóteles (anterior a estes como na primeira aparição de tal tema proposto por Tales de Mileto), passando por Santo Agostinho, os utilitaristas até chegar aos dias de hoje.

Esse tema representa uma fundamentação importante para os estudos filosóficos sobre a ética, haja vista que o homem como o animal político (zoon pilitikon), necessita de uma organização moral e ética, tendo a felicidade como pressuposto a ser buscado. A felicidade tornou-se centro de pesquisa ao longo da história da filosofia por grandes filósofos que tentaram sempre entender o que é esta tal felicidade a qual todos os homens são tentados a buscar e a viver a vida em torno dela.

A relação de felicidade em nosso mundo contemporâneo é cada vez mais estreitada como uma forma mútua de união e até mesmo como sinônimo de prazer. A filosofia que apresenta o prazer sendo fonte básica da felicidade é originada na Grécia antiga cujo nome se dá pelo Hedonismo. O filósofo grego Aristipo, em sua doutrina hedonista afirmara que a vida teria como objetivo principal o prazer e que o significado de uma vida feliz estaria na relação de prazer e vida, onde tal conceito defendido por Aristipo, cairia em alguns excessos posteriormente combatidos por alguns filósofos. Para outro filósofo, chamado de Epicuro, o prazer consistiria em um sumo bem, onde tal prazer não seria o mero prazer carnal mas sim o prazer do sábio, onde este ato consistiria na harmonia e quietude da mente, sempre dominando as emoções, abstendo-se sempre dos excessos. Esse prazer era um ponto primordial da vida feliz, pois a Natureza sempre nos mostrava tal assertiva. Já para Platão e seu discípulo Aristóteles, a vida feliz estaria ligada pelo exercício das virtudes morais, como justiça, liberalidade e coragem, na qual compunha o conceito Eudaimônico (de uma vida feliz como um “Telos”, um fim), onde nunca os prazeres poderiam ser o significado de uma vida feliz, pois estes seriam passageiros.

Assim como Aristóteles e Platão, Santo Agostinho capta tal doutrina e a reformula, sobre uma visão cristã, para o Bispo de Hipona: a felicidade não deveria ser um fim, mas um porto, um estágio para o pleno gozo que está somente em Deus. Sendo a felicidade um alimento para a alma, cuja a necessidade se estabelece para a busca e o encontro de Deus. Tal problemática sobre a felicidade ainda perdura-se sobre toda a história da filosofia passando pelos utilitaristas que afirmavam que a melhor ação deve ser aquelas que atinjam o maior número de pessoas possíveis provocando nelas a felicidade, e são esses últimos, isto é, os utilitaristas, que sua filosofia tem se ramificado dentro do mundo “cristão moderno”.

A palavra “felicidade” de acordo com o dicionário possui como significados: 1. Satisfação, contentamento (…); 2. Boa fortuna; sorte (…); 3. Bom êxito; sucesso (…); 4 congratulações, felicitações. Pode-se observar que geralmente a palavra felicidade, é ligada a algo tangível ou a um sucesso, que se põe antagônico a sentimentos como dor, sofrimento, pobreza, doenças e etc., talvez esta seja a melhor definição de felicidade, sendo tudo aquilo que se mostra contra a dor, sofrimento, pobreza e doenças, o que significa, que ter estes sentimentos é fracassar na busca da felicidade e isto pode gerar consequências e até patologias modernas, como a depressão, que ataca cerca de 5,8% dos brasileiros.

No mundo cristão não é diferente. Podemos observar que nos movimentos das igrejas modernas, que geralmente aceitam a teologia da prosperidade como pressuposto de uma base teológica, o “triunfalismo”, tem sido o carro-chefe para as pregações que constantemente incentivam vitórias, conquistas de carros, casas próprias, a saúde plena, o gozar do melhor desta terra e etc. Músicas triunfalistas, que sempre enaltecem o homem, colocando objetos e bens, acima de uma vida espiritual sadia são constantemente entoadas em púlpitos, que são comprometidos com o bem-estar e a busca daquilo que os receptores “quererem” ouvir, ou seja, de uma vida de triunfo, de uma vida de prazeres, de uma vida hedonista. Este utilitarismo “cristão”, não apenas se mistura a busca de prazeres em músicas e “pregações” triunfantes, mas cada estrutura “gospel” é firmada para que todos aqueles que estejam ali participando sintam-se regozijados e motivados a conquistar a felicidade, que é o resumo dos bens terrenos, afinal, “somos cabeças e não cauda, sou filho de Deus e mereço comer o melhor desta terra, eu exijo viver uma vida abundante, eu determino prosperidade em minha vida (…)”.

Observamos cada vez mais, nesses movimentos, atrações como “rave gospel”, shows estilizados no lugar do culto, aparatos cada vez mais modernos para proporcionar maiores efeitos, teatros, danças, e tudo aquilo que são prazerosos e trazem “felicidade” e acalento aos olhos, mas eis que uma pergunta surge: como a Bíblia trata da felicidade?

A felicidade bíblica é apresentada por alguns conceitos que se formulam e incorporam a felicidade, entre tais conceitos, a palavra “bem-aventurado” se destaca. Já no antigo testamento quando Moisés pronuncia a sua benção antes de sua morte, ele afirma que Israel era feliz: “Feliz és tu, ó Israel!(…)” (Dt 33.29), esta felicidade ao qual Moisés se referia a Israel, não era uma felicidade voltada a conquistas, até porque a promessa da conquista da Terra prometida ainda não havia sido concretizada, mas a felicidade fora descrita pela continuação do versículo : “(…) Povo salvo pelo Senhor, escudo que te socorre, espada que te dá alteza. Assim, os teus inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás os seus altos”. A felicidade segundo Moisés, estaria na salvação que o Senhor concedera ao Povo de Israel, e esta salvação proporcionaria socorro diante dos inimigos. Nos Salmos 127, Salomão descreve o homem que tem filhos (Sl 127.5), como Feliz, porém nos versos anteriores (v. 3-4), Salomão mostra que os Filhos são heranças do Senhor, e é Deus que concede esta herança, sendo inútil ao homem querer edificar sua casa, ou guardar, ou trabalhar, se Deus não assim, providenciar tudo, por isto a felicidade também está atrelada ao contentamento em Deus. Salomão ainda atrela a felicidade a outro conceito, em Provérbios 3.13, Salomão mostra que a felicidade no homem, é quando este “acha sabedoria”, porém na sua introdução Salomão mostra que o “temor do Senhor é o princípio do saber”, isto quer dizer, que a sabedoria somente é encontrada quando se teme ao Senhor (Pv 1.7), mais uma vez a sabedoria está atrelada a Deus. Ainda em Provérbios 8, 32, Salomão descreve a felicidade como, a guarda e perseverança nos caminhos de Deus, em Provérbios 28,14, afirma que o homem constante no temor de Deus é feliz, sendo a felicidade sempre ligada não a conquistas de bens, mas a sabedoria e temor no Senhor.
Já no novo Testamento, Tiago esclarece: “Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes.(…)” (Tg 5.11), demonstrando que a felicidade estaria no contentamento em Deus, na perseverança e na firmeza, donde, nos versículos anteriores (Tg 5.1-6), Tiago condena as riquezas que são mal adquiridas e mal empregadas, fazendo um contraponto a necessidade da riqueza e do contentamento em Deus.

Desse modo, a felicidade bíblica sempre estará ligada ao contentamento em Deus, que, por sua vez, somente aqueles que verdadeiramente são salvos e têm em Cristo o seu prazer (Sl 1), podem desfrutar. É por isso que constantemente textos como descritos em Lucas 12, 13-34 repreendem o homem que coloca a sua vida nas preocupações da vida, como riquezas, bens, conquistas entre outras, e esquecem que o contentamento em Deus é o motivo da vida feliz. Por isso, entende-se que Paulo, ao afirmar o seu sofrimento, dores e perdas (II Co 11..16-33), seu contentamento ainda estava em Deus, afirmando que a glória dele era gloriar-se nas fraquezas, isto é, no contentamento em Deus.
Portanto, assim como diz o salmista ao falar do Louvor ao Criador e Preservador: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para a sua herança” (Sl 33.12), assim, devamos entender que o contentamento e a verdadeira felicidade está em Deus, mesmo que os prazeres nesse mundo passageiros sejam ínfimos, como foi o exemplo de Paulo, mas a nossa felicidade esteja apoiada em Deus. Desse modo, assim nos diz Calvino (Institutas, I, II, 1): “Ora, este senso dos poderes de Deus nos é mestre idôneo da piedade, da qual nasce a religião. Chamo piedade à reverência associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus benefícios. Pois, até que os homens sintam que tudo devem a Deus, que são assistidos por seu paternal cuidado, que é ele o autor de todas as coisas boas, daí nada se deve buscar fora dele, jamais se lhe sujeitarão em obediência voluntária. Mais ainda: a não ser que ponham nele sua plena felicidade, verdadeiramente e de coração nunca se lhe renderão por inteiro.”

Revisão: Laísa Caroline | Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 1014;

AGOSTINHO, Santo. Solilóquios e A Vida Feliz. In: FIOROTTI, Adaury;

FRANGIOTTI, Roque; OLIVEIRA, Nair de A. (Org.). Solilóquios e A Vida Feliz. São Paulo: Paulus, 1998. p. 157; 

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Edipro, São Paulo, 2007;           

Hilton Japiassú, Danilo Marcondes (1993). Dicionário básico de filosofia, Zahar. p. 273.

Deixe uma resposta