Capitã Marvel, narrativa messiânica e a celebração da redenção

À tarde de mais um dia quente em Recife, fui com Jamille assistir ao tão esperado filme da Capitã Marvel. Seria meio redundante, embora não menos oportuno, dizer que foi uma tarde agradável. Agrado-me de sua companhia em coisas simples, as quais são simplesmente gratificantes com ela.

Pois bem, assistimos-lhe e, enquanto caminhávamos pelo shopping, pudemos conversar sobre algumas das nossas impressões a respeito do filme. De antemão, quanto a esse texto, torno expresso que não entrarei afundo nas questões relativas ao filme. Portanto, fica tranquilo, não há spoilers. Outro ponto a ser preliminarmente expresso, é que não entrarei no mérito da mensagem feminista ou não do filme. De certa forma, o filme só servirá de ocasião fática, um pretexto narrativo, para falar de questões as quais podem ser observadas não só nele, mas em outros filmes, especialmente de super-heróis e de literatura fantástica, e a partir das quais abordarei proposições mais teológicas. Não são insights nunca vistos, mas colocações nada novas debaixo do sol. Especialmente no tocante à teologia, isso significa segurança para a igreja e ortodoxia perante o Sol da Justiça.

Não é de hoje que percebo que a figura do protagonista, o super-herói, é revestida de caráter e atributos messiânicos. Alguém separado dos demais em vista dos seus poderes e dons, capaz de defender a humanidade. Alguém participante de dois mundos, um escolhido para fazer a paz e a reconciliação cósmicas. Poderoso demais para ser só humano e humano demais para não o ser. Além disso, de modo geral, a narrativa se desdobra em uma estrutura de Criação-Queda-Redenção-Consumação, à semelhança do Livro de Deus, refletindo ontologicamente a condição do homem como Imago Dei. Logo, o homem, ao escrever suas histórias e contos, assim o faz de modo imperfeito, como o Criador, Sumo Escritor, o fez de modo perfeito e superior, como os céus estão acima da terra.¹

Observando sob esse espectro o homem do lado de cá do paraíso e seu anseio por redenção em um mundo pós-moderno ou ultramoderno, como ser religioso que é e em vista da disformidade da imagem de Deus pelo pecado, a figura dos super-heróis, bem como da narrativa em sua totalidade, não só refletem a religiosidade do homem, mas também comunicam essa religiosidade comum, não em termos reais, porém fantásticos. A função disso consiste em comunicar algo “redentivo” sem que o seja, real e ultimamente. Uma comparação decerto elucidativa nesse sentido, é quando Agostinho, na Cidade de Deus, em sua argumentação contra o culto a uma deusa romana chamada Felicidade, fala como esta, malgrado nome do bem universalmente desejado, não poderia conceder aos homens a felicidade assim como a imagem de um pão jamais saciará a fome do homem como o verdadeiro pão.²    

Destarte, apesar de com isso não querer dissuadir os irmãos quanto a assistirem aos filmes de super-herói, ficção científica, literatura fantástica etc., pois podemos fazer bom uso dessas artes, nos termos da graça comum, e a partir delas, perceber o espírito da época conforme nos diz o Francis A. Schaeffer³, é evidente como sob essa inquirição do espírito da época através da arte, de cujo gênero o cinema é espécie, os filmes de super-heróis demonstram como o homem ultramoderno se vê carecente de redenção e, conquanto não creia que ela de fato exista, precisa dar um salto de fé irracional para travestir o seu desespero em uma esperança irreal à procura de um sentido existencial. À semelhança dos teólogos liberais, esse homem se serve de estruturas narrativas de redenção, não porque elas de fato existam sob suas premissas humanistas, mas como uma forma de se agarrar ao valor simbólico disso, enraizado no seio da cidade dos homens, sua comunidade, seu éthos. À semelhança dos ídolos pagãos greco-romanos, os super-heróis são grandes demais, poderosos demais, mas ainda assim são finitos; são como homens portentosos e grandiosos, porém, ainda homens para dar sentido e pão real à fome do homem por restauração final.

Outro ponto em comento é como a música durante toda a narrativa possui um papel fundamental e integrante na comunicação da redenção. Como o clímax está indissoluvelmente unido à musicalidade em tons de triunfo e glória! Quão conduzidos somos às afeições pretendidas pelo autor em cada ato de sua narração através da música! Quão tocados! Quão participantes nos tornamos, sensibilizados no sentimento da personagem, nas alegrias, tristezas, dilemas morais, na expectativa de um desfecho de paz após a guerra.

De modo mais sublime e real, o Livro de Deus, a Escritura Sagrada, em seus 66 livros, narra a Criação de todas as coisas e do homem por Deus, a Queda do homem, a proclamação do Evangelho da boca do Criador na promessa do Redentor, a expectativa do povo da aliança sob a dispensação veterotestamentária no Messias que haveria de vir, a vinda do Messias e sua obra consumada, e a esperança do povo do pacto sob a dispensação neotestamentária nesse Messias que veio e virá novamente, para julgar os vivos e os mortos em seu reino de paz perpétua para o seu povo e flagelos infindos aos que, à semelhança da antiga serpente, se insurgem contra o seu reino eterno.

Relacionada a isso, toda a História Sagrada está permeada de canções, não como um apêndice ou enxerto acidentalmente pós-posto aos fatos narrados, mas como parte integrante da natureza da redenção. A celebração dos atos poderosos e salvadores de Deus na História é como filha gerada das entranhas da salvação, inseparavelmente unida a esta, como um ornamento e finalidade da revelação bíblica, sendo ela mesma, no tocante aos textos inspirados, parte dessa unidade revelacional. A exemplo disso, poderíamos ver o cântico de Moisés após a libertação do povo de Israel do cativeiro egípcio, celebrando a vitória do SENHOR sobre Faraó e todo o seu exército, pelejando em prol de Israel, com mão poderosa e braço estendido (Êx. 15.1-19); o cântico de Ana, celebrando o Deus da aliança que lhe deu um filho, o qual seria separado ao SENHOR, o qual era o profeta Samuel, um tipo de Cristo (1Sm. 2.1-10); o cântico de Habacuque, exaltando o Deus da sua salvação de forma incondicionada, satisfeito na vontade e providência de Deus, o qual, ainda que temporariamente estivesse disciplinando o seu povo, é rico em misericórdia e haveria de restaurar o Israel de Deus, cabendo ao profeta, pela fé, contemplar o invisível sob o prisma da promessa; o cântico de Maria, em alegria ao Deus da sua salvação, que a escolheu para dela nascer o Messias, o Evangelho encarnado (Lc. 1.46-55); o Cântico de Zacarias por saber que seu filho, João Batista, seria o profeta que prepararia o caminho do SENHOR (Lc. 1.67-79); os cânticos finais em Apocalipse ao Cordeiro vitorioso e ao que está assentado no trono, trazendo a graça e a paz para os filhos de Sião, bem como ira e juízo sobre os filhos da Babilônia (Ap. 4; 5; 7.9-17; 11.15-19; 12.7-12; 15.2-4; 16.4-7; 19.1-10).

Além disso, de um modo bem específico, há um livro dos 66 da Bíblia que é o Livro de oração e cântico do povo de Deus, isto é, o Saltério. Toda a estrutura narrativa da Escritura Sagrada se encontra poética e sumariamente expressa nos Salmos. A humanidade em seus mais variados aspectos é encontrada nos louvores de Deus. A alegria, tristeza, esperança, confissão de pecados, as angústias, os lamentos, os desapontamentos, a solitude, a paz, o amor e a consolação se encontram dirigidos ao Criador no cântico e oração dos salmistas. Ao mesmo tempo em que no Saltério há a recordação das obras redentivas pretéritas, há um vaticínio a respeito do porvir no tocante ao Messias prometido e sua obra. Em suma, o Saltério é a celebração da redenção na totalidade da revelação bíblica, constituindo ela mesma parte dessa unidade. Fascinantemente, no Saltério (entre outros textos de oração e cântico na Escritura) a palavra a Deus é a palavra de Deus!4

Ainda pensando no lugar da celebração da redenção, devemos ter em mente que o homem é um ser religioso e religiosamente teleológico, isto é, o homem foi feito para Deus, para a sua glória. Nesse sentido, tanto no Catecismo Maior como no Menor de Westminster, vemos que seu fim precípuo consiste em glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre.5 Em alusão a isso, Agostinho, na introdução às suas Confissões, assim diz:

“Sois grande, Senhor, e infinitamente digno de ser louvado”. “É grande o vosso poder e incomensurável a vossa sabedoria”. O homem, fragmentozinho da criação, quer louvar-Vos; o homem que publica a sua mortalidade, arrastando o testemunho do seu pecado e a prova de que Vós resistis aos soberbos. Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e nosso coração vive inquieto, enquanto não repousar em Vós.6

Em virtude de tudo o que fora brevemente exposto, pudemos ver como a narrativa messiânica permeia a narrativa de super-heróis, não só da Capitã Marvel, e como esta narrativa, além de refletir a imagem de Deus e a graça comum na arte, também revela o espírito da época e sua mensagem religiosamente incutida e pressuposta, em maior ou menor oposição aos pressupostos das Escrituras. Também fica evidente que não há como separar a redenção da celebração e como esta revela, comunica e integra aquela. Portanto, toda redenção, por sua majestade, beleza e fulgor exige intrinsecamente o dever constante, diuturno, incondicionado e fervoroso de sua expressão, adoração e lembrança afeiçoada por parte dos seus redimidos, pois foram feitos para esse glorioso fim. Uma redenção que exige e existe com menos do que isso, não é digna do nome. Celebremos, pois, o Deus da aliança, o Sumo Autor das Escrituras, o Supremo Escritor e Redentor da História, pela inaudita obra salvadora em nossas vidas, pois ele é digno, assim hoje, como no dia eterno! Cantemos a revelação da redenção em face da redenção revelada!

Revisão: Nathália Soares | Publicação: Ingrid Iasmin

REFERÊNCIAS 

¹Lembro-me sempre da Doutora Norma Braga Venâncio em uma de suas palestras na Consciência Cristã de 2016 falando sobre este ponto.

²Agostinho, A Cidade de Deus, Livro IV, Cap. XXIII, §7º.

³Nesse sentido, penso que a ideia possa ser analisada através das seguintes obras do Francis A. Schaeffer: “O Deus que Intervém”, “A Morte da Razão”, “O Deus que se revela” e “Como Viveremos?”.

4 Vide “Orando com os Salmos” do Dietrich Bonhoeffer.

5 O Catecismo Maior e o Menor de Westminster, Pergunta e Resposta 1.

6 Agostinho, Confissões, Livro I, Cap. I, §1º.

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