Providência divina em Rute: graça, redenção e vida eterna (parte 1: soberania de Deus)

 

Engana-se quem pensa que o livro de Rute limita-se a narrar um belo ou, talvez, despretensioso romance: a história de uma jovem viúva estrangeira, mas que, por amor à sua sogra, senhora de idade, igualmente viúva e sem descendência, fora alcançada pela graça de Deus e obteve a chance de casar-se novamente. Ter tal concepção é não atentar à mensagem principal da história: o plano redentivo de Deus e a preparação do caminho para o Redentor, Jesus Cristo. Esse é o macro contexto! Ocorre que certamente nos debruçaremos sobre uma história de amor pura e singela entre homem e mulher, bem como nora e sogra, mas que, além disso, evidencia verdades profundas acerca do trabalhar de Deus e de como Ele, ao mesmo tempo, trata o coração de cada pessoa individualmente e move a história da redenção. Nesse sentido, o Pr. Emilio Garofalo Neto, ao escrever com delicadeza e facilidade de compreensão o livro ‘As Boas Novas em Rute: redenção nos campos do Senhor’, afirmou:

 

“Yahweh microgerencia o universo. Não é um Deus distante que cuida apenas das coisas grandes. Às vezes vemos pessoas serem reprimidas por orar acerca de coisas aparentemente pequenas, como se Deus estivesse ocupado com coisas mais importantes. Deus cuida de gente simples buscando espigas nos campos de plantação perto de cidadezinhas bem como mantém o planeta em órbita. Direciona eventos que deslumbram os astrônomos e mantém as partículas atômicas da pele de Boaz no lugar. Ele cuida de coisas pequenas como uma simples viúva de coração amargo, assim como vigia aves e flores. O Senhor vai atrás do seu povo. No caso de Noemi, literalmente e fisicamente. Ele trouxe de volta e colocou seu coração no eixo.” (NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. p. 152)

 

Assim, compreendido isso, ante as inúmeras lições que o livro de Rute tem a nos ensinar (feminilidade e masculinidade bíblicas, diversidade e harmonia racial e étnica são exemplos de temas riquíssimos e de grande valia para nossos dias), aqui iniciamos uma série de 3 textos mediante os quais nos debruçaremos sob três temas de grande importância em nossa caminhada cristã: a soberania de Deus, o amor que se arrisca e a glória de Cristo[1].

Pois bem, analisemos.

 

  1. A soberania de Deus

 

O início do livro se dá com a narrativa de uma delicada e difícil situação. Vejamos:

 

“1 Nos dias em que julgavam os juízes, houve fome na terra; e um homem de Belém de Judá saiu a habitar na terra de Moabe, com sua  mulher e seus dois filhos. 2 Este homem se chamava Elimeleque, e sua mulher, Noemi; os filhos se chamavam Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; vieram à terra de Moabe e ficaram ali. 3 Morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos, 4 os quais casaram com mulheres moabitas; era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase dez anos. 5 Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando, assim, a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido.”

Rute: 1.1-5

 

A partir de tais versículos, percebemos que em Belém de Judá, cidade que habitava Noemi e sua família, o contexto era de grande instabilidade política e social, o mencionado período dos juízes. O último versículo do livro de Juízes (Juízes 21. 25) retrata a realidade vivida pelo povo de Israel em tal período: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto.” Nesse tempo, o povo israelita, por não ter governo centralizado, enfrentava diversas guerras internas e externas. A idolatria pairava nos corações e no cotidiano das pessoas, fator provocador da Ira do Senhor. Em razão disso, Deus mandava inimigos contra eles, mas, ainda assim, sendo assaz bondoso e pai misericordioso, ouvindo o povo clamar por socorro, levantava juízes para alertar o povo dos seus pecados e trazê-los ao arrependimento, bem como livrar-lhes das mãos dos inimigos, conquanto estivessem oprimidos[2] (Juízes 2.16-19). Contudo, falecendo o juiz, “reincidiam e se tornavam piores do que seus pais, seguindo após outros deuses, servindo-os e adorando a eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus pecados.” (Juízes 2.19)

Agora, adicione a tal contexto, a fome que assolou Belém, o que, aparentemente, tratava-se de mais uma forma de Deus pesar a mão sobre Seu povo, a fim de que se voltasse para ele.[3] Em virtude disso, Elimeleque, esposo de Noemi, decide migrar para a terra de Moabe, cidade pagã, e lá habitar. Ora, Elimeleque e sua família estavam deixando a terra prometida! Sem dúvidas, ele estava brincando com fogo! Deus tinha chamado seu povo para ser separado das terras vizinhas! Como poderia se esquecer disso?[4] E ainda: tal decisão revelava falta de confiança no Senhor e na Sua providência. Sobre isso, o Rev. Emílio atenta:

 

“Para começar, a reação apropriada do povo judeu diante de Deus pesando a mão sobre eles em Belém deveria ser a de voltarem, como povo, para Deus em arrependimento. Mas eles são tentados a seguir o caminho mais fácil, ir para Moabe. Na cabeça deles, talvez seja melhor estar nos campos verdejantes e sem o bom pastor, do que no vale da sombra e da morte com o bom pastor.” (NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P. 34)

 

Inicialmente, talvez a ideia fosse viver temporariamente em Moabe até que a fome passasse. Ocorre que tal medida era fruto da incredulidade de Elimeleque, a qual, aos poucos, fora tomando proporções maiores (por exemplo, os dois filhos de Noemi e Elimeleque tomaram como esposas mulheres moabitas). Percebe que as coisas iam ficando cada vez mais arriscadas?[5] Os filhos de Noemi se casaram com mulheres fora do pacto de Deus com Seu povo! Mulheres as quais serviam a deuses estranhos! Até que a situação se agrava e o pecado de Elimeleque o leva à morte. Os versículos 3 a 5 narram a morte do esposo de Noemi e de seus dois filhos, Malom e Quiliom. Noemi, então, se vê viúva, sem filhos, com noras que não são do seu povo, longe de sua terra, do seu povo e sem amparo.[6]

Pode ser que pensemos: onde estaria a soberania de Deus aqui? Onde estaria a providência divina em tal situação dolorosa na vida de Noemi? De fato, Elimeleque pecou com a sua incredulidade e as consequências, de certa forma, eram inevitáveis. Contudo, por mais que tudo estivesse falhando, o livro de Rute nos dá um vislumbre de que o Senhor opera mesmo nos piores tempos. John Piper ressalta que quando nos atentamos a Deus, percebemos que é Ele que está colocando as pedras de fundação para maior alegria em nossa vida.[7] Era Ele quem estava governando a história e a vida de Noemi. Ele estava preparando o caminho para o Rei da Glória!

Sim, de fato o Senhor não se esquece do Seu povo. É Ele quem nos conduz ao arrependimento quando estamos em rebelião contra Ele (Salmo 32.5). Isso fica evidente no versículo 6 quando Noemi toma conhecimento de que o tempo de fome em Belém de Judá tivera passado. Quando decide voltar, Noemi reconhece que fora a mão do Senhor que tivera se voltado contra ela em razão da sua incredulidade (Rute 1.13), mas estava certa de que no povo de Deus encontraria refúgio. Contudo, enquanto ser humano, limitada em sua natureza, Noemi não tinha a capacidade de enxergar além da árdua situação que estava vivendo. Tornou-se, então, amarga (Rute 1.20).

Nos versículos 7 a 13, vemos Noemi persuadindo suas duas noras, Orfa e Rute, a deixá-la e seguir com suas vidas, ainda que reconheça o quanto estavam usando de benevolência com ela. Insiste, portanto, que elas permaneçam em Moabe na expectativa de que o Senhor lhe desse felicidade (Rute 1.9). Enquanto Orfa decide voltar ao seu povo e aos seus deuses (v.15), Rute “escolhe o amor pactual por Noemi e pelo Senhor Deus de Israel”[8]. Assim, então, responde:

“16 Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 17 Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.”

            Sem dúvidas, a atitude de Rute é mais uma expressão da providência divina, do plano soberano de Deus com vistas à preparação do caminho de Jesus Cristo. John Piper afirma que:

“No caso da presente história, Deus está operando, preparando o caminho para a vinda de Cristo de um modo que ninguém consegue ver. Sabemos disso porque o livro termina ligando Rute e Boaz ao Rei Davi. As últimas palavras são: ‘Salmon gerou Boaz, Boaz gerou Obede, Obede gerou Jessé, e Jessé gerou Davi’ (4.21,22). Jesus, identificando-se como ‘filho de Deus’ (Mt. 22.41-46), formou uma ligação direta de si mesmo, ao longo de todas as gerações intercaladas, até Davi, Jessé, Obede e Rute. Saber como esse livro termina nos dá um senso, quando começamos, de que aqui nada será insignificante. Coisas imensas estão em jogo. Deus está colocando em pauta a ascendência de Jesus, o Messias, cujo reino será eterno (Is. 9.7)”.

            Ressalte-se que não é por amor a Noemi, apenas, que Rute está indo à Belém de Judá. O Senhor, na soberana teia da sua providência, escolheu Rute, mulher que não fazia parte do Seu povo, para ser integrante da genealogia do Seu filho! Particularmente, a história de Rute me enche o coração de alegria, uma vez que podemos ver a poderosa e soberana mão do Senhor tecendo os mínimos detalhes!

Em sua música, “O Tapeceiro”, o autor e compositor Stênio Marcius bem descreve a misteriosa providência do Pai. Em tal canção, Stênio explicita que, embora a obra de tapeçaria seja, ao decorrer do trabalho do artesão, de incompreensível e inimaginável desfecho, quando concluída, parece que todo o emaranhado de fios se encaixa perfeitamente e se torna uma bela obra de arte. E já pararam para pensar como o tapeceiro faz tantas tranças e voltas no tear (objeto usado para ‘costurar’, fazer os desenhos da obra de tapeçaria) e não perde o fio ou dá nó em nenhum deles? E quando olhamos pelo lado contrário do tear,  parece que nada faz sentido? Parece um bolo de linhas juntas que não se assemelham a uma obra de arte, não é? Pois bem, eis a questão: o artesão conhece o fim da obra desde o seu começo. Sabe que tais movimentos, ao término do trabalho, darão um belo resultado.

Algo semelhante acontece conosco. Digamos que a nossa vida seja a obra de tapeçaria e Deus seja o tapeceiro. Ele não se engana, não perde o controle do seu trabalhar, tampouco erra o tempo das coisas acontecerem. Tudo o que acontece com cada um de nós faz parte do plano providente do Pai, como já expressado nos Salmos 139, tal como a história de Rute. O Senhor tem a razão exata de cada ato seu. Engana-se quem pensa que “Ele escreve certo por linhas tortas”. A contrário senso, o Seu agir é minucioso e preciso, magnífico é o seu entendimento. Ele não só governa o mundo, como a vida de cada ser humano.

E sim, o final de todas coisas, assim como na história de Rute, é glorificar a Cristo!

“Quando se vê pelo lado certo
Muda-se logo a expressão do rosto
Obra de arte pra honra e glória
Do Tapeceiro

Quando se vê pelo lado certo
Todas as cores da minha vida
Dignificam a Jesus Cristo
O Tapeceiro”

 


 

[1] Tais temas estão contidos no livro “Doce e Amarga Providência: sexo, raça e soberania de Deus” de John Piper.

[2] PIPER, John. Doce e amarga providência: sexo, raça e soberania. São Paulo: Hagnos, 2012. P. 16

[3] NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P.27.

[4] PIPER, John. Doce e amarga providência: sexo, raça e soberania. São Paulo: Hagnos, 2012. P. 24.

[5] NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P.41.

[6] Idem. Ibidem. P.47

[7] PIPER, John. Doce e amarga providência: sexo, raça e soberania. São Paulo: Hagnos, 2012. P. 18.

[8] NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P.61

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