Resenha: Cristianismo e cultura (Norma Braga)

Os desdobramentos da queda não apenas nos levaram a viver num estado de morte (Ef 2.1), mas também corrompeu nossa forma de enxergar o mundo e a cultura. É com essa premissa que a autora nos faz refletir em como a desobediência do primeiro Adão ocasionou, também, a morte de toda a sociedade; “uma decadência da cultura em todos os sentidos: seus valores, seus ideais, sua moralidade, sua beleza.” (BRAGA, 2015, p. 14).

No século XVI, as ideias humanistas do Renascimento se espalharam pela Europa e se tornaram o cerne da mentalidade ocidental. A partir desses princípios, o homem, que antes orientava-se pelos valores morais da cultura judaico-cristã, passa a rejeitar Deus em todos os âmbitos – desde a moralidade até às ideias filosóficas e científicas -, passando, então, a crer na razão como a solução para questões cruciais (a existência, a origem da vida e do mundo, a ciência etc). Com relação ao pensamento incrédulo, corrente na mente de muitas pessoas atualmente e em muitos meios produtores do saber, a autora o divide em racionalismo cientificista e irracionalismo humanista, sobre eles, explicita que o racionalismo está restrito ao mundo da matéria: ateus e cientistas em geral, assim como os profissionais das ciências exatas e biomédicas, costumam adorar o ídolo Ciência, que é um produto da razão humana tornada autônoma, sem Deus. No campo da moralidade, dos valores e das crenças religiosas, vigora o irracionalismo: as pessoas assumem o discurso de que “não há verdade universal, cada um decide o que é melhor para si”. Ou seja, no mundo de hoje, a “verdade” é apenas o conhecimento passível de prova científica, que só funciona para o que é material. Fora disso, o consenso é de que não existe verdade. Assim, o homem pós-moderno está dividido entre o socialmente obrigatório ateísmo dos cientistas e o hedonismo irracionalista das ciências humanas – dois lados incomunicáveis e aparentemente irreconciliáveis, fechados em seus sistemas.

É inegável que os avanços científicos concederam ao homem a ideia de controle e poder sobre a natureza, o que o fez, aos poucos, considerar-se seu próprio deus. A idolatria do eu é extremamente perigosa, visto que não podemos nos sustentar sem a graça de Deus; apenas nele encontramos nossa força.
Fechando o capítulo, Norma Braga nos traz, ainda, a diferença entre o cientificismo, o paganismo e o marxismo, afirmando que tais cosmovisões nos impedem de viver o evangelho de forma plena, pois sempre haverá um amálgama dessas ideologias com a cosmovisão cristã, em que uma cosmovisão sempre se anulará para que a outra apareça; é um movimento quase involuntário, tendo em vista que são visões de mundo opostas.
No que diz respeito à relação entre o cristão e o Estado, é preciso refletirmos com cuidado sobre as funções que estamos delegando a este último. Se acreditamos que o Estado deve, por exemplo, interferir nos valores que uma família acredita ser o correto para criar seus filhos, estamos dizendo que ele é soberano e que tem um poder padronizador da sociedade. Às vezes podemos não notar; é, de fato, uma linha muito tênue, mas sempre que esperamos que o Estado funcione como uma esfera redentora, estamos idolatrando-o e isso contraria nossa cosmovisão!

Diante de um mundo com ideais deturpados, muitas vezes o cristão cria um mecanismo de proteção: o isolamento. Entretanto, não é dessa forma que devemos lidar com as pessoas e com os elementos da cultura a nossa volta; Braga é enfática ao afirmar que essa atitude é perigosa, pois ela

“[…] alimenta uma ilusão de santidade que enfatiza poucos pecados mas impede perceber muitos outros, principalmente ligados à atitudes interiores (ira, inveja, desprezo, orgulho); deixa nossos jovens abandonados às tendências deste mundo, despreparados para os desafios da escola e da universidade; produz alienação do mundo e espírito de gueto na igreja.” (BRAGA, 2015, p. 63).

Em poucas páginas e com uma linguagem clara e sem rodeios, Norma Braga nos faz ponderar nossas atitudes com os elementos da cultura. João Calvino afirmou que nosso coração é uma fábrica de ídolos, de modo que, a todo momento, estamos fabricando pequenos ídolos que roubam a glória que devemos dar unicamente a Deus. Esta metáfora de Calvino, da qual particularmente gosto bastante, relaciona-se perfeitamente com o ponto central do presente livro: devemos constantemente nos auto-analisar para não estarmos concedendo a ideologias, ao Estado, ou a qualquer outro aspecto de nossa cultura a glória que é do Senhor. O livro nos alerta, ainda, para o choque de cosmovisões que podemos viver nesse mundo tão plural, e como devemos estar preparados para, estando no mundo, não pertencer a ele.

Por fim, outro ponto interessante que o livro ressalta e que também quero destacar é como estamos perdidos sem o Senhor! Desde a queda, o gênero humano busca, seja de forma consciente ou inconsciente, criar pequenos deuses nos quais põe sua confiança; essa atitude acaba nos trazendo decepção e angústia, pois não podemos achar confiança, conforto e contentamento nesses pequenos ídolos do nosso coração. Que o Senhor nos ajude a glorificá-lo e gozá-lo eternamente.

Revisão: Vanessa Lima | Publicação: Thamyris Milena

REFERÊNCIAS

BRAGA, Norma. Cristianismo e cultura. Campina Grande: Visão Cristã, 2015.

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