O conceito bíblico de amor

É interessante ver como os filmes e livros da atualidade demonstram seu conceito sobre amor. Não é raro ver um casal jovem, por exemplo, expressando primeiramente toda a intensidade do seu amor, o quão apaixonados eles estão um pelo outro, e, muitas vezes, os filmes demonstram todo esse amor através de fortes sentimentos, e principalmente através de uma ousadia e coragem tal, que desafiam as mais adversas circunstâncias para ficarem juntos. Antes que você pense que isso é algo recente, lembre-se do famoso casal do romance escrito por William Shakespeare no século XVI, Romeu e Julieta, que em nome do amor que sentiam, chegam literalmente às últimas circunstâncias e morrem, temendo um viver sem o outro.

Não é preciso muito esforço para perceber que o conceito atual de amor está baseado nos sentimentos. Como descrevemos, as fontes de informações a que temos acesso hoje, qualificam o amor dando nome aos sentimentos que os nutre ou o confronta, como coragem, ousadia, paixão, sensibilidade, firmeza, intrepidez e etc. O casal será belo, se demonstrarem através dos sentimentos o quão são belos, e a demonstração deve ser feita com base naquilo que o próprio mundo afirma ser o amor.

O problema é que os sentimentos estão muito ligados ao momento em que explodem no coração. Às vezes realmente podem ter muito impacto inicial e levar uma pessoa a cometer coisas que, caso se encontrasse numa situação na qual não possuísse aquele sentimento, ela não faria; porém, se a circunstância muda, o sentimento também corre o risco de mudar, pois não contava com o transtorno das situações. Um dos sentimentos mais poderosos contra o conceito mundano de amor é a decepção.

Grande expectativa é lançada sobre o outro, como já falamos, e assim sendo, enfrenta-se o mundo e todos quantos se levantarem contra o “nosso amor”, porém, diante da decepção de não ser correspondido da mesma forma, ou diante da quebra de um juramento, ou, ainda, de uma traição, toda aquela grandiosa fortaleza parece não ter passado de um castelo de cartas facilmente quebrável. Pessoas que antes devotavam a vida pela outra, agora usam toda a dor que sentem para afirmar que jamais perdoarão a traição do outro.

Quando olhamos para a Bíblia, não encontramos uma descrição sobre o amor conforme essas que acabamos de analisar. E antes que se pense que não existe ou que não foi a preocupação do Espírito Santo escrever ou descrever o amor entre um casal, devemos lembrar do livro de Cantares, ou Cântico do Cânticos, no qual é narrado o enlace matrimonial de Salomão com sua noiva/esposa, a sulamita. O texto aborda a descrição que o noivo faz da sua noiva, e ela, dele. Nesse poema, o que se ressalta, são exatamente essas descrições de admiração dos cônjuges, que também prefiguram Cristo e sua noiva: a igreja. Não há episódios nos quais os sentimentos são explorados como sendo o pilar do amor dos dois, mas sim, a fala maravilhada do modo como um vê a beleza do outro, e espera regozijar-se com a sua presença.

Com base nisso, olhamos para a história da redenção e notamos que esta se inicia com um casamento. O Deus Triuno cria o homem e a mulher para serem sua noiva (sua igreja), e a cria num cenário de pura perfeição. O SENHOR cria a igreja para seu próprio deleite, para servi-lo e amá-lo, e o próprio Deus também amará e cuidará muito bem de sua noiva. Porém, no desenrolar da trama, um fato acontece: a noiva trai o noivo. O homem e a mulher, de repente, olharam para algo além da perfeição que o próprio Criador era para eles. A noiva de Deus o trai, volta seu amor para si mesma e dá ouvidos à tentação.

Se parássemos por aqui, nada haveria de novo ou de diferente entre o amor bíblico e o mundano do ser humano para com Deus, porém, a reação de Deus chama a atenção para a antítese entre os conceitos de amor: tendo sido traído, o SENHOR não vira as costas para sua noiva, não a abandona, não se ressente em mágoa, mas a perdoa, e, embora a castigue por ter quebrado a aliança, providencia o modo pelo qual ela será redimida e purificada.

Enquanto os sentimentos formam os frágeis apoios para o que o mundo pensa ser o amor, a Bíblia demonstra que o verdadeiro amor, está ligado ao compromisso. Deus não abandona sua noiva simplesmente porque a amava, como se o amor de Deus o levasse a se desequilibrar em seus atributos, e o levasse a tratá-la com impunidade diante do seu pecado, mas porque ele havia feito um pacto com ela, e, sendo fiel, o SENHOR jamais quebra o pacto.

Poderíamos pensar que o amor que Deus sente por sua igreja então é mórbido, ou seja, ele ama sua noiva por obrigação: tendo feito um pacto com ela antes, agora se vê obrigado a permanecer fiel a sua noiva, mas não é assim que as coisas funcionam diante da perspectiva bíblica. Amor e compromisso não são coisas distintas, mas sim complementares e fazem parte do mesmo universo, e isso é percebido por meio das Escrituras.

Em Gênesis, quando traído por sua igreja, o SENHOR demonstra seu compromisso, agindo como aquele que é o provedor da sua esposa; ele promete a redenção na segunda pessoa da trindade, seu próprio Filho, e como prova disso, confeccionou roupas da pele de um cordeiro para o homem e sua mulher. Apesar do pecado de sua noiva, o SENHOR Deus a ama mantendo-se firme a sua aliança, ao seu pacto.

Durante toda a história de Israel, muitas vezes o povo incorreu no mesmo erro, abraçando-se ao pecado, dando as costas para Deus. O profeta Ezequiel explicita duramente o pecado do povo, quando afirma que como uma mulher a procura de prazeres, o povo havia traído o SENHOR com os outros povos. Mas também, não raras vezes, vemos que Deus estava prometendo que haveria um tempo de restauração, não somente por conta dos atos iníquos de Israel, mas uma restauração que abrangeria seu coração, tornando-o perfeito para Deus.

Quando chegamos ao Novo Testamento, as coisas se aclaram ainda mais, pois agora, a promessa de redenção se cumpre, e o noivo se apresenta na história. Cristo Jesus, agora, providencia que sua noiva seja redimida dos seus pecados, assumindo a culpa de todos os seus eleitos, e transfere para eles, seu título de justo.

Os autores do Novo Testamento usaram Cristo como sendo o parâmetro para como o amor deve ser, e como devemos amar.

Na descrição quanto ao lar cristão, que Paulo desenvolve quando escreve sua carta aos Efésios no capítulo 5 (Ef 5.22-33), o imperativo para as mulheres é que estejam submissas aos seus maridos, porém, essa informação está ligada ao fato de que, tanto quanto Cristo é o cabeça da igreja, assim também o homem é o cabeça da mulher, e como aquele é o salvador do corpo, este também é o salvador da mulher. A função de salvador está para o homem em relação a sua mulher, como Cristo o é para igreja. Não há uma consideração focada apenas em algum sentimento que a mulher deva ter para com seu marido, como se isso fosse a beleza do casamento, mas no fato de haver uma íntima relação de compromisso da igreja para com o seu SENHOR.

Mais uma vez, a perspectiva bíblica quanto ao amor, não é de que sentimentos ou demonstrações românticas devam estar envolvidos no lar como se fosse isso que o sustentasse, mas o próprio romance é apontado em termos de um compromisso.

Falando agora para o marido, o conceito bíblico de amor torna-se mais claro ainda. Se o demonstrativo do amor através da submissão aponta para a visão bíblica quanto ao que de fato é o amor para a mulher, para o homem é ordenado que ame sua esposa se sacrificando por ela. O compromisso do homem em amar sua esposa faz referencial direto ao que Cristo fez por sua noiva. É cobrado do homem que se sacrifique, assim como Jesus sacrificou-se para a restauração da sua noiva.

Mais uma vez, o pensamento bíblico é oposto ao mundano. Não há demonstrações mirabolantes de um sentimento excêntrico, mas a ênfase recai na fidelidade ao compromisso.

O sentimentalismo não poderá sustentar seu dito amor diante de uma circunstância de decepção. Os sentimentos não têm compromisso algum com a estabilidade do relacionamento, podem hoje pode ser, e amanhã não mais.

Não se engane, se você namora ou é casado, ou esse sentimento já bateu às portas do seu coração, ou está por bater, mas diante de algo que o outro fez, ou deixou de fazer, é inevitável que na hora da raiva se pense em acabar ou se separar. Isso possivelmente acontecerá, mesmo que você não perceba. Muitos, que basearam seu amor em sentimentos, mesmo que reprimam esse sentimento em seus corações, poderão pensar: “nossa, se eu pensei isso agora, será que não o(a) amo mais?”. A fragilidade de um conceito fraco sobre amor, o qual está restrito apenas a sentimentos ou demonstrações destes, pode observar um fim diante das circunstâncias, porque esperou-se viver de uma forma, mas na verdade não se levou em consideração que aquilo que mais se odeia poderia acontecer. Todos nós sabemos que o outro não é perfeito, mas não aventamos a possibilidade de essa imperfeição aparecer justamente na área que mais detestamos e, como não estávamos preparados para isso, ficamos a mercê de nosso coração, em querer investir mais tempo, suor e lágrimas naquela pessoa que nos decepcionou. Outro problema, é que, com o passar do tempo, tanto investimento parecerá inútil, e o sentimento de injustiça também será inevitável.

Se você está solteiro, há armadilhas aguardando você também. Todos nós criamos expectativas. Como será nosso cônjuge? Como será o coração da pessoa a quem amarei e me casarei? Essas perguntas apontam para uma expectativa criada com base naquilo que esperamos ou não da pessoa que gostaríamos de estar juntos, e não há problemas com isso. Contudo, a dificuldade está em não olharmos para dentro de nosso coração, com vistas a perceber quem nós somos, e qual é a expectativa de Deus para o nosso relacionamento. O que Deus espera de mim quando eu estiver casado? Onde está o meu coração? Estou pronto para abraçar o ideal bíblico de casamento, sabendo e entendendo que o meu desejo, ou minha vontade muitas vezes deverão dar lugar a servir ao meu cônjuge?

Se nossos olhos estão fitos no conceito bíblico de amor, suportaremos as mais terríveis decepções, pois Cristo suporta diariamente nossa traição. Você já parou para pensar sobre isso? Que todos os dias você trai a Jesus, pecando e dando vazão ao pecado? Convivemos num mundo repleto de situações que flertam conosco, tentando fazer com que amemos mais as coisas do mundo do que a Cristo. Pergunte a si mesmo: você descansaria tranquilo sabendo que sua esposa/esposo, namorada/namorado está num ambiente onde várias pessoas a/o estão assediando, tentando fazer com que ela/ele o traia? É exatamente isso que acontece com Cristo e, ainda assim, ele se mantém fiel a sua noiva. Por quê? Porque o amor que ele sente por ela está diretamente ligado ao compromisso que ele tem para com ela.

Ser fiel precede o relacionamento e está ligado ao amor. Se você diz amar a pessoa que está ao seu lado, se esse amor é bíblico, ele não está sujeito às intempéries da vida, ele não afundará no mar da decepção, ou não se perderá nas tempestades por vir, por um motivo muito simples: o amor segundo Deus não é o mesmo amor segundo o mundo.

Se estou solteiro, namorando ou casado, meu pensamento quanto ao futuro está baseado em olhar para Cristo e sua noiva e extrair da história da redenção o parâmetro para aquilo que eu quero para o relacionamento que desejo viver. Diferentemente dos filmes e dos livros, os quais fantasiam uma história que não tem qualquer compromisso de proporcionar uma esperança de vivermos algo parecido, a Bíblia não somente mostra isso, como nos diz que esse é o verdadeiro amor, e como ele deve ser vivido. O SENHOR não nos promete um casamento, não há texto na Escritura que diga que todos os filhos de Deus casarão, mas se ele lhe der a oportunidade de se casar, você será agraciado com um casamento segundo Deus: planejado para ir até o fim da vida, com fidelidade e compromisso. É isso que você deve esperar e crer.

Contrastando com o pensamento mundano, a história da redenção, a história do amor de Deus, começa com um casamento e termina com um casamento.  Não houveram mudanças, não houve um plano B, ou uma alternativa no relacionamento de Deus com seu povo; Ele se manteve fiel ao compromisso, ele esteve junto a sua noiva o tempo todo, cuidando, amando e preservando, sacrificando-se por ela, para que estivessem juntos por toda eternidade. Daqui extraímos o nosso amor, daqui podemos usufruir a segurança necessária para nossa vida.

Cristo triunfa!

Revisão: Nathália Soares | Publicação: Alicia Catarina

2 comentários em “O conceito bíblico de amor

  1. Pelos diversos costumes hoje secularizados na nossa sociedade, e fora de um contexto daquilo que é bíblico, tendemos a crer que Deus não tem nada a nos ensinar sobre relacionamentos e que, o devemos aprender nesse sentido, apenas aprenderemos na nossa vivência, o que poder ser perigoso e muitas de vezes danoso e desastroso. Tudo o que Jesus quer é nos ensinar o valor de tudo isso. Valores que foram desprezados no decorrer do tempo pela promiscuidade social hoje vigente. Os princípios de Jesus ainda são apregoáveis para os nosso dias e felizes são aqueles que ainda consideram os seus ensinamentos em todas as áreas da vida.

    Soli Deo glória!!!

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