Dividir é multiplicar

Desde muito cedo aprendi a gostar de matemática. Os números, as operações, os problemas, tudo me cativava bastante. E eu me lembro muito bem que, quando criança, a operação matemática que mais me chamava atenção era a divisão. Em primeiro lugar, pela sua novidade, pois seu formato visual era bem diferente das contas de adição, subtração ou multiplicação. E, em segundo lugar, pela sua relação com a multiplicação. Elas eram diretamente opostas! Uma fazia exatamente o contrário da outra. Mas o que todo esse meu papo de “nerd” tem a ver com a interpretação das Escrituras? É que na leitura das Escrituras divisão e multiplicação andam não de lados opostos, mas juntas.

E como isso acontece? Para mostrar que, quando se fala de interpretação de trechos das Escrituras, dividir pode ser multiplicar, eu gostaria de falar sobre fraseamento. O termo fraseamento, que nada mais é do que a tradução simples do termo phrasing do inglês, se refere a um método de representação visual de um texto [1] . Esse método é especialmente utilizado na interpretação de textos bíblicos, e recebe diversos outros nomes [2], tais como “esquema estrutural” [3] , “phrase diagrams”, “sentence-flow”, “thought-flow” ou “argument diagrams” [4]. Como os nomes demonstram, o fraseamento é um método ou uma ferramenta exegética de representação visual do texto bíblico que busca apresentar o fluxo do pensamento, ou do argumento do autor. Em outras palavras, fazer o fraseamento de um texto bíblico é dividi-lo, seguindo seus argumentos, buscando enxergar (literalmente) o fluxo do pensamento do autor.

Mas, então, como faço o fraseamento de um texto bíblico? Para fazer o fraseamento de uma passagem das Escrituras precisamos entender um simples conceito: recuar para subordinar [5]. O leitor da Bíblia divide o texto em unidades [6] ou porções menores e então ele passa recuar e alinhar o texto com a intenção de elucidar a sua estrutura. O leitor não precisa dividir as sentenças minuciosamente, de acordo com cada elemento sintático [7]. O conceito é simples: não divida mais do que você precisa para entender o argumento do autor. Alguns princípios são úteis nesse processo de recuar para subordinar [8]:

a) As proposições principais devem estar mais à esquerda na página;
b) Os elementos dependentes devem estar recuados sob a(s) palavra(s) que modificam;
c) Elementos paralelos devem ter o mesmo recuo na página.

Exemplo:

1. Sentença:

Pedro jogou futebol com João e seus amigos durante a tarde de quinta-feira.

2. Divisão:

Pedro jogou futebol
com João e seus amigos,
durante a tarde de quinta-feira.

3. Recuo e alinhamento:

Pedro jogou futebol

com João e seus amigos,

durante a tarde de quinta-feira.

Simples, não é? No entanto, nada melhor do que um exemplo retirado da própria Escritura. Para isso, vou utilizar o versículo 1 de 1 Timóteo, onde Paulo descreve a sua apostolicidade.

1. Sentença:

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança

2. Divisão

Paulo,
apóstolo de Cristo Jesus,
pelo mandato de Deus,
nosso Salvador,
e de Cristo Jesus,
nossa esperança

3. Recuo e alinhamento

1Paulo,

2apóstolo de Cristo Jesus,

3pelo mandato de Deus,

4nosso Salvador,

3e de Cristo Jesus,

4nossa esperança

De maneira simples vou tentar explicar o raciocínio que foi aplicado. Primeiro nós dividimos a passagem em porções menores [9]. Logo em seguida, nós recuamos e alinhamos essas porções menores seguindo os princípios que foram ensinados anteriormente, ou seja, as sentenças principais à esquerda, e as subordinadas embaixo do(s) termo(s) que elas modificam. O resultado foi essa sequência:
1Paulo,

2apóstolo de Cristo Jesus,

3pelo mandato de Deus,

4nosso Salvador,

E aplicando o princípio de elementos paralelos abaixo, com o mesmo recuo, temos a segunda sequência:
1Paulo,

2apóstolo de Cristo Jesus,

3pelo mandato de Deus,

4nosso Salvador,

3e de Cristo Jesus,

4nossa esperança

Podemos ainda fazer um breve esboço desse versículo:

1. O autor: Paulo (v.1.1)

2. Ofício: apóstolo de Cristo (v.1.2)

a) Base: mandato de Deus (v.1.3a)

i. Qualificação do mandante: (Deus) nosso Salvador (v.1.4a)

b) Base: (mandato) de Cristo Jesus (v.1.3b)

ii. Qualificação do mandante: (Cristo Jesus) nossa esperança (v.1.4b)

O fraseamento do texto bíblico, sem sombra de dúvidas, pode ser muito útil a todo cristão. O seu princípio é simples e de fácil entendimento. Ele pode servir desde a um cristão que busca uma simples meditação na Palavra de Deus, até a um pastor ou teólogo que monta seu sermão ou estudo. Esse método é democrático e tem o poder de aproximar mais o leitor e o texto. Através dele o leitor se torna capaz de visualizar mais facilmente a estrutura do pensamento do autor.

Essa técnica de estruturação do texto bíblico pode ser muito útil no ensino, especialmente no das crianças. Através dela, os alunos começam a “enxergar” o desenvolvimento do texto e percebem rapidamente aonde o autor quer chegar, afinal de contas, basta descer a “escadinha” do texto e chegaremos à sua conclusão. Ao explicarmos passagens mais complexas das Escrituras toda forma de facilitar a vida do aluno é útil. Aquelas frases longas, cheias de vírgulas e que parecem sem fim, podem ser tornar um grande lance de degraus onde podemos descer e subir para entender melhor o que o texto está dizendo. Ver pode se unir ao ouvir para entendermos melhor a Palavra de Deus.

Entretanto, um alerta precisa ser dado. Esse não é, definitivamente, o único método ou ferramenta de divisão do texto bíblico, muito menos a única forma de estudar as Escrituras. Trata-se apenas de uma técnica, ou método que se baseia em um conceito simples (recuar para subordinar), que se bem aplicado pode gerar grandes frutos para a compreensão de trechos curtos da Bíblia. Portanto, não devemos eliminar outras formas de ler a Palavra de Deus. Leituras mais longas são bem-vindas. E quanto mais nós lermos porções maiores das Escrituras, intercaladas com porções menores, o sabor da leitura será cada vez mais doce!

Na leitura das Escrituras, divisão e multiplicação andam juntas. Ao contrário do que acontece na matemática, na interpretação da Bíblia uma não é o inverso da outra. Pelo contrário: o que aprendemos é que, quando nós dividimos bem o texto bíblico, os seus tesouros se multiplicam.


Revisão: Laísa Caroline | Publicação: Alicia Catarina

NOTAS

[1] Köstenberger, Andreas J.; Merkle, Benjamin L.; Plummer, Robert L., Going Deeper with New Testament Greek: An intermediate study of the grammar and syntax of the New Testament. – Nashville, Tennessee: B&H Academic, 2016, p. 456.

[2] Para uma lista mais completa de nomes: http://andynaselli.com/phrasing-my-favorite-way-to-trace-an-argument.

[3] Bateman, Herbert W., Interpretação das Cartas Gerais. – São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 180.

[4] Köstenberger, Andreas J.; Merkle, Benjamin L.; Plummer, Robert L., Going Deeper with New Testament Greek: An intermediate study of the grammar and syntax of the New Testament. – Nashville, Tennessee: B&H Academic, 2016, p. 456.

[5] Naselli, Andy., Phrasing: My favorite way to trace an argument. Disponível em http://andynaselli.com/phrasing-my-favorite-way-to-trace-an-argument.

[6] Utilizo os termos unidades, ou porções menores para evitar o uso de uma nomenclatura mais técnica, buscando demonstrar que até mesmo aqueles que não possuem o conhecimento ou lembrança de conceitos e termos mais complexos e técnicos da língua portuguesa ou das línguas originais (hebraico e grego), podem muito bem se beneficiar dessa técnica que se baseia em um conceito tão simples como dividir e alinhar. No entanto, podemos (e até devemos em geral) usar conceitos mais técnicos como oração, sujeito, predicado, etc.

[7] Sintaxe, basicamente, diz respeito à parte da gramática que estuda as funções das palavras em uma frase, e a função das frases em um período, ou discurso.

[8] Esses passos são adaptações dos passos descritos em: William D. Mounce, A Graded Reader of Biblical Greek. – Grand Rapids: Zondervan, 1996.; e Köstenberger, Andreas J.; Merkle, Benjamin L.; Plummer, Robert L., Going Deeper with New Testament Greek: An intermediate study of the grammar and syntax of the New Testament. – Nashville, Tennessee: B&H Academic, 2016, p. 456.

[9] É verdade que nesse texto ficou bem mais fácil pelo uso da vírgula, que já resolvem os nossos problemas. No entanto, tenha consciência de que nem sempre vai ser tão simples assim.

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