A grandeza do contentamento cristão

Entre as virtudes cristãs, talvez o contentamento seja uma das menos cultivadas em nosso meio. Não raras vezes, somos tentados a admitir e a viver como se a felicidade exigisse algo a mais do que aquilo que temos no momento. Isso acontece porque desde a queda há um inerente descontentamento no coração do homem, e, por mais que tenhamos a convicção na soberania e no cuidado de Deus, é possível que às vezes sejamos tomados por um sentimento de insatisfação. Mas como podemos trabalhar isso em nosso coração? O contentamento pode ser definido como “aquele estado doce, interior, sereno e gracioso de espírito, que livremente se submete e se delicia na disposição sábia e paternal de Deus em toda e qualquer situação” (BARCLEY, 2014). Esse conceito foi dado por Jeremiah Burroughs, que escreveu um livro no século XVII intitulado “A Rara Jóia do Contentamento”, demonstrando que não é de hoje o problema que temos em encontrar este estado.

De fato, desenvolver essa característica é uma jóia rara. Na busca pelo contentamento, antes de tudo, devemos ser sinceros com nossos sentimentos e admitirmos que a falta de contentamento é pecado visto que afronta a soberania do Deus que governa todas as coisas. No fundo, quando acreditamos que a felicidade seria melhor alcançada em determinada circunstância, estamos dizendo que a vontade do Criador não é a melhor, ou que Ele não tem conduzido as nossas histórias da melhor forma. Não obstante, o descontentamento também é a raiz de muitos outros pecados nossos, estando muitas vezes atrelado à cobiça (BACLEY, 2014). Nas perguntas 80 e 81 do Breve Catecismo de Westminster, que trata sobre o décimo mandamento, podemos conferir esta relação:

PERGUNTA 80. Que exige o décimo mandamento?
R. O décimo mandamento exige o pleno contentamento com a nossa condição, bem como disposição caridosa para com o nosso próximo e tudo o que lhe pertence.
Ref. Hb 13.5; 1Tm 6.6-10; Lv 19.18; 1Co 13.4-6.

PERGUNTA 81. O que proíbe o décimo mandamento?
R. O décimo mandamento proíbe todo o descontentamento com a nossa condição, todo o movimento de inveja ou pesar à vista da prosperidade do nosso próximo e todas as tendências ou afeições desordenadas a alguma coisa que lhe pertence.
Ref. 1Co 10.10; Gl 5.26; Cl 3.5; 1Tm 6.6-10.

Assim, longe de ser apenas um estado desejável, estar contente é uma obrigação de todo aquele que crê em Cristo como Senhor da sua vida. O escritor da epístola aos Hebreus, inspirado pelo Santo Espírito nos apresenta um imperativo, isto mesmo, uma ordem: “Seja a Vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes (Hb.13.4). No mesmo sentido, Paulo destaca em sua carta à Timóteo que “a piedade com o contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; (1 Timóteo 6:6-7). Precisamos, portanto, buscar continuamente o prazer naquilo que Deus nos tem provido, tendo plena satisfação nEle.

No clássico texto de Paulo aos Filipenses, no capítulo 4, nós observamos algumas lições a respeito do contentamento. Como se sabe, esta Carta é caracterizada pelas admoestações de Paulo acerca da necessidade de se alegrar no Senhor mesmo nas circunstâncias mais adversas. Aliás, a carta foi escrita de dentro da prisão (Fp 1.12-20) para os crentes em Filipos, que enfrentavam grande perseguição (Fp 1.27-30). Assim, vejamos o que Paulo diz:

Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade. Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece.
Filipenses 4:10‭-‬13 ARA

O primeiro ponto que podemos observar no referido texto é que o apóstolo Paulo “aprendeu a viver contente”. Com isto, vemos que o contentamento consiste em um estado que precisa ser desenvolvido e aperfeiçoado nas diversas experiências que passamos na vida. É indispensável que exercitemos o nosso coração e aprendamos a estar contentes em toda e qualquer situação.

Nessa perspectiva, a segunda lição que extraímos é que o contentamento deve funcionar em qualquer circunstância, seja ela agradável aos nossos olhos ou não (CARSON, 2017). A verdade é que não alcançaremos o contentamento somente se encontrarmos condições que nos são favoráveis; nós o alcançamos quando Deus moldar nosso espírito de acordo com nossas condições. Seja em estado de humilhação ou de honra, de pobreza ou riqueza, quando temos sucesso profissional ou quando o mercado está difícil, em qualquer situação, devemos confiar que Deus está sempre no controle.

Por fim, a partir da compreensão de que Deus controla todas as coisas, podemos afirmar o que Paulo disse no versículo 13: “tudo posso naquele que me fortalece”, isto é, quaisquer que forem as circunstâncias, podemos enfrentá-las de modo contente, porque é Cristo, e não a situação ao nosso redor, que nos fortalece. Podemos cantar com convicção de que Tudo o que nosso Deus ordena é bom, e por isso, podemos descansar, faça ele o que quiser. (Hino: Tudo o que meu Deus ordena é bom).

O contentamento ganha ainda mais robustez quando fortalecemos algumas verdades em nossos corações. A certeza de que somos peregrinos neste mundo, e de que a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo (Fp 3.20), e de que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós (Rm 8.18), nos levam à direcionar nosso prazer e satisfação para o Criador. No final das contas, a essência do contentamento é desfrutar Deus. Deleitar-se e descansar nele (BARCLEY, 2015). Aliás, como resume a primeira pergunta do catecismo de Westminster, a finalidade principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre. De acordo com John Piper, isso implica dizer que buscar o prazer em Deus é o nosso maior chamado, uma vez que Deus é mais glorificado em nós quando estamos satisfeitos nEle. Precisamos, portanto, nos banquetear em Deus conforme buscamos a Sua glória, pois somente ele pode satisfazer a alma sedenta do ser humano.

 


BARCLEY, William B. O segredo do Contentamento. São Paulo: Nutra, 2014.
CARSON, D. A. Coração de crente: ensinos para a vida cristã em Filipenses. Campina
Grande, Visão Cristã, 2017.
PIPER, John. Plena satisfação em Deus: Deus glorificado e a alma satisfeita. São José
dos Campos: Fiel, 2011.

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