Como falaremos? — O dom das palavras formosas

Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um (Cl 4:5-6).

Naftali é uma gazela solta; ele dá palavras formosas (Gn 49:21).

I.

Falamos todos da degradação do diálogo, da comunicação na sociedade brasileira, estupefatos com a total impossibilidade de conversação verdadeira e sadia, de debate sério e real, de discussão bonita e culta entre nós por causa de tribos ideológico-políticos e religiões, etc. Porque sou pregador e preciso da comunicação para realizar minha obra evangélica; porque sou professor e preciso da linguagem e do debate para levar conhecimento às pessoas; porque sou poeta e escritor e preciso das palavras e do diálogo para chegar aos outros, essas problema da linguagem e do relacionamento na sociedade atual preocupa-me, porque dificulta extremamente tudo que considero minha obra, objetivo da minha existência. Todavia, não são só essas coisas que a morte da conversação ameaça e dificulta, mas, mais importante ainda, ela ameaça a própria irmandade e humanidade nossas. Essa horrível realidade participa também do arraial de Cristo, sim, a Igreja temos tido dificuldade para conversarmos entre nós (com divergências teológicas e políticas) bem como para conversarmos com os pagãos. Penso que é inevitável que, sendo cristãos, nós, filhos Paulo e Pedro, entremos em diálogo com os mundos à nossa volta visando à sua redenção; é inevitável que, sendo protestantes, filhos de Lutero e Calvino, não entremos em debate sobre Deus e o homem. A conversação, uma emanação do nosso papo interno com o Cristo, é um mandamento, uma obrigação para nós. Não podemos nos calar assim na terra como no céu, onde vemos trevas falaremos “Haja luz!”, onde vemos glória do Senhor a brilhar cantaremos “Glórias a Deus!” Afinal somos filhos da Palavra. Não nos disse o Senhor na jornada de Josué “Não pára de falar…”? Mas como falaremos? Como falaremos uns com os outros e como falaremos com os pagãos?

Conversar, dialogar, falar no mundo caído, desde o Éden, é marcado por divergência, controvérsia, acusação do outro, difamação, violência, em uma palavra, por “maledicência, linguagem obscena” ou torpe (como diz Colossenses) — em uma palavra, pelo pecado. Várias são as castas de controvérsias, mas todas resumem-se em uma: duelo com a Verdade. E este está presente em todas as esferas, mas hoje destaca-se a controvérsia ideológico-política, cuja efervescência é proporcional à quase total politização da própria sociedade que renegou princípios absolutos em favor de um relativismo expresso em individualismos e tribalismos que favorecem o estado de nós-contra-eles em que vivemos. Ato contínuo, a instrumentalização da linguagem para atacar e matar o próximo, com maledicências ou xingamentos, futilidades, enganações, difamações, instrução rebelde na maldade, em suma, com a rejeição do elemento divino da linguagem a fim de desterrá-la da verdade e desprovê-la de pessoalidade, tentando matar seu Criador e sua alma (a gramática) numa tentativa rebelde de fazê-la mecanismo de manipulação de consciências e sentimentos. Assim, a linguagem, que semeia e possibilita nossa humanidade, ao ser o espaço e veículo da nossa comunhão como irmãos e compatriotas, torna-se instrumento de morte e de desumanização em todas as áreas. Efeitos desse utilitarismo na linguagem na popular busca de lacração em vez da verdade e de humilhação do outro em vez da persuasão. Já não se busca persuasão da mente, mas a aniquilação do próximo e exposição da sua ignorância como atestado de sua indignidade existencial. Por isso foge-se do verdadeiro diálogo e aniquila-se qualquer debate sério com gritarias e histerias: selvajarias.

Até os cristãos, tenho visto, se envolveram, assim como o mundo (que está pobremente dividido hoje em esquerda e direita), em conversar com os outros de formas nem de longe cristãs e sem o objetivo espiritual que devia identificar-nos no debate nas esferas eclesial e pública. Há anos vejo cristãos participando da política e do debate político e cultural com horrível esquecimento de que os nossos inimigos não são carnais, com a ignorância de que a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Ef 6:12). Tenho visto os cristãos vivendo na nossa sociedade controversa e dividida com total esquecimento teórico e prático de que embora andando na carne, não militamos segundo a carne e de que as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2 Cor. 10:4-5), justamente porque cremos e somos palco de Efésios 6:13-18, já que, sendo uma gente que vive pela fé, não olhamos “para as coisas segundo a aparência”. Fosse a carne o adversário o Crucificado dar-nos-ia armaduras celestes? A nossa espada é espiritual — a Palavra de Deus. A nossa armadura é divina e o nosso inimigo é o diabo, o deus deste século que domina, cega e usa os filhos da desobediência.

Mas ainda seguem a pergunta assinalada anteriormente: como falaremos?

II.

Falar para uma época pagã como a nossa, e mesmo para muitas igrejas como as que temos, fim falar com o objetivo de persuadir o outro e convertê-lo para o meu Deus ou para minha mundivisão significa desejar e tentar tirar água da pedra, como Moisés, apenas com as palavras. É querer um milagre, sobretudo porque nossa época odeia a verdade e foge do diálogo, e mesmo o diálogo que existe é falso porque não se crê na verdade como absoluto e tampouco no conhecimento. Religião e política, o povo diz, não se discutem. Mas não cremos nisso e nem cremos que, porque nossa época é impermeável ao diálogo e à verdade, devemos passar a usar métodos falsos como a maledicência ou o silêncio para com ela. Os que lutam contra a Luz, por mais doidos e tolos que sejam, devemos sempre buscar a sua metanoia, não evitando oportunidades para dialogar com eles e sempre usando uma linguagem que leve em consideração que são imagens de Deus e possíveis eleitos que um dia entrarão no Corpo. E temos e teremos criatividade e inteligência, imaginação e discernimento suficientes para saber, em cada esfera, dialogar com os nossos irmãos de maneira que haja em tudo que falamos sal suficiente para lhes curar, luz suficiente para lhes iluminar a vida pagã e orgulhosa.

Em Gênesis 49: 21, o nosso pai Jacob, já nos seus dias derradeiros, congregou em seu torno todos os seus filhos e abençoou-lhes com palavras proféticas e reveladoras do seu destino no corpo da nação de Israel e no mundo. Quando chegou no filho que teve com Bila e que Raquel chamou de Naftali, Jacob falou algo que surpreende o leitor, ele deu ao seu filho a benção de boas palavras, dizendo: Naftali é uma gazela solta; ele dá palavras formosas. Como gazela solta, Naftali seria um povo que não se acomodaria com a escravidão, mas lutaria pela liberdade e seria livre. A segunda parte, que faz paralelo estranho com a liberdade e a beleza da primeira diz que Naftali dá boas palavras. Isso alude a discurso belo, dizendo assim que esta tribo seria notável pela liberdade e pela linguagem, como doador, anunciador, entregador de boas e belas palavras. O uso de boas palavras no discurso humano, portanto, é um dom, uma benção do Senhor.

Sobre Naftali, diz-nos Albert Barnes que Eloquência na prosa e no verso era a característica dessa tribo em particular. E há um único evento importante em que vemos a encenação disso, i.e., no episódio da vitoriosa guerra de libertação que um filho de Naftali, Baraque, lidera com Débora e cuja culminação foi um cântico de celebração atribuído aos dois, evidenciando a habilidade com as palavras que Jacob prenunciara como característica da tribo. Matthew Henry chama atenção para o fato de que Naftali é um nome com guerra na sua etimologia, porque Raquel o chamou assim aludindo à sua luta com sua irmã, Leia. Naftali é lutador e resistente em prol da verdade, como o episódio de Juízes 4-5 mostra. Matthew Henry argumenta que os da tribo da Naftali, zelosos da liberdade e rápidos na ação como as gazelas, eram amigáveis e irmãos dos seus irmãos de tribo e doutras tribos, sua conversação era educada e amorosa, feita numa linguagem refinada doando bondosas palavras para as pessoas.

Este texto, portanto, argumenta que os cristãos, hoje, precisamos reconquistar este dom de Naftali e intencionalmente doar palavras formosas aos nossos irmãos e aos pagãos nos nossos debates. Que imitemos Naftali, pois como ele somos livres e também guerreiros da liberdade, zelosos demais por ela para permitir que nos seja roubada ou para confundi-la com politicagens e governos. O que compreendo como sendo palavras formosas são palavras que tecem uma linguagem que é sal e luz para as pessoas. Em Ef. 5:19, Paulo ensina aos irmãos a conversarem com a percepção de que nossos diálogos também devem cultuar a Deus e devem servir aos seus propósitos coletivos de mútua cultivação, o que necessariamente implica em fazer a nossa linguagem comum incarnar os Salmos, ou seja, a palavra de Deus, a fim de que nossos diálogos sejam apenas a palavra de Deus apelando e penetrando o coração de cada um, e ainda um louvor a Deus. Não ha exemplo maior de palavras formosas senão os poemas magníficos e diversos do livro dos Salmos, e de toda a Bíblia. Falar como contamos, com palavras pessoais, linguagem que toca , educa, encanta, exorta os corações e eleva as almas. Entre nós devemos falar da mesma forma como falamos ou louvamos a Deus, o que significa que falaremos uns com os outros com a linguagem bíblica, divina, ou seja, inspirada (saudamo-nos com a fórmula paulina “Graça e Paz do Senhor sejam contigo”); com Palavra que é nossa vida e nosso espírito e pão diário e sustento e luz e caminho e verdade etc. Não demos nada menos que isso aos nossos próximos, nada menos.

Falar com palavras formosas é, portanto, falar como se Cristo, que em nós mora, falasse com eles. Em outras palavras, isso significa que, ao falarmos, como Josué, a boca deve de falar aquilo de que está cheio o coração, e deve de estar cheio de salmos, hinos, cânticos espirituais. Cl 3:16 diz a mesma coisa, mas de modo mais amplo, mostrando que a conversação dos cristãos é emanação do seu pão diário: A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda a sabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações. O que nós precisamos fazer é aplicar no mundo o que fazemos na igreja: mirar o coração humano e perspectivar enlevo espiritual para a vida do irmão (como diz o irmão H. D. Lopes). Calvino ensina-nos que não há excepção de conversas, mas todas devem ser formosas, cumprindo o papel de edificar os irmãos: que vossas conversas, não meramente as que são sérias, mas também as que ocasionam júbilo e entusiasmo, contenham algo proveitoso. Em vez de conversações tolas da roda dos escarnecedores cheias de torpezas e obscenidades, e em vez das neutras e inocentes nossas conversas devem de ser formosas, i.e., salmistas, bíblicas, devem de louvar. O nosso falar deve de ser espiritual. Devemos falar em espírito e em verdade, em todas as esferas da vida: Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus (1 Pe 4:11). Se uma conversa não pode ser espiritual não é para nós, é indigna da presença do nosso Deus e da nossa presença e participação, vestidos que idealmente estamos de Sl.1. Se a questão for apologética ou evangelização, falaremos espiritualmente, ou seja, palavras salmistas, belas e puras, divinas e profundas, poéticas e claras, com ousadia, mansidão, inteligência, temor, autoridade, poder e “amor e verdade”, diante de Deus. Falar com palavras formosas: com linguagem temperada com sal, que carrega a presença do Verbo; falar com a boca e o coração para que o nosso próximo seja vencido pelo Verbo que mora em nosso falar, já que para nós o viver e o falar é Cristo.

Eu não deprecio o duro falar necessário. O mundo ama a formosura? Ou a beleza não é dura e desconcertante e decepcionante também? O mundo odeia o que é bom e belo, cria simulacros para fugir dele. Palavras belas não defendo para agradar ao mundo, mas para conceder-lhe o que precisa e rejeita: vida, verdade e caminho, conhecimento, beleza e humanidade. Elas podem atrair perseguição e a morte, impopularidade e injúrias, perdas pessoais e coletivos. Mas, mesmo assim, devemos de falar salmos no mundo, para que, como nós, o mundo venha a desistir de si e de seus ídolos e, perdendo-se, ganhe o Raboni. Por ex., adoradores de riquezas se vestem de capitalistas e de socialistas (ambos materialistas) diante de nós. Falemos as palavras formosas para dar-lhes iluminação, expondo a ilusão do Mamon que louvam e elevando o Cristo, o Senhor, que rejeitam. Condenarmos os promotores de depravações da vida e do sexo, mas silenciarmo-nos, por estratégia política e farisaísmo, em relação aos adoradores do dinheiro, materialistas e os idólatras romanistas é anti-cristão e tem de acabar porque a realidade de ambas as tribos é a mesma de pecaminosidade e destino infernal. Ambos são filhos e súbditos do deus deste século; o destino de ambos os pagãos é horrível e não podemos escolher entre inferno menor e inferno maior. Por mais que nos identifiquemos mais com os direitistas e os católicos, temos de bradar que estão também na perdição e, sem a entrega ao senhorio de Jesus, estão trabalhando em prol do deus deste século e assim ruindo o que sua volição pretende preservar. Temos que dizer-lhes que seu conhecimento, não sendo teorreferente e biblicamente embasado, é falso ou incompleto.

O objetivo de darmos palavras formosas aos pagãos não é honrá-los, mas cumprir o objetivo da nossa vida, a glorificação de Deus, nos termos que Pedro fala: Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem (1 Pe 2:1). Doarmos palavras formosas aos povos não é garante de que eles receberão educadamente o que temos a dizer, mas isso é pouco diante da necessidade de falarmos cristãmente ao engajarmo-nos no diálogo da nossa sociedade. E em Pedro e Paulo há o mesmo Sopro: E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis (Cl 3:23,24). Vai no mesmo diapasão este outro Colossenses: Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Cl 4:5,6). Calvino diz que o que Paulo quer com esse texto é nos ensinar que a vida deve ser regulada de tal maneira que tudo quanto dissermos ou fizermos seja totalmente governado pela autoridade de Cristo, e tenha um olho em sua glória como sua meta. Pois compreenderemos, habilmente, sob este termo, as duas coisas seguintes – que todas as nossas metas sejam exibidas com a invocação de Cristo, e sejam submissas à sua glória. Da invocação siga o ato de bendizer a Deus, que nos supre com motivo de ação de graças.

Se o nosso inimigo é o diabo e seus anjos e se a direcionalidade da alma humana é Jeová e que, como cristãos, precisamos de falar de modo que nossas palavras sejam teorreferentes e produzam/busquem a persuasão verdadeira para que os cristãos imaturos possam aprender e entender melhor o Caminho e também que os pagãos tornem-se nossos irmãos em Cristo através da fé no Salvador, então o nosso engajamento no debate teológico e público (na net, TV, imprensa, etc.) deve de ser diferente: precisa de ser cristão, bíblico e não europeu ou ocidental e nem marxista ou da teologia da libertação, sem aquela coisa de usar o ser cristão para fins globalistas e marxistas e capitalistas. Cristãos não defendem fariseus e nem saduceus, nem gregos e nem romanos, nem zelotes nem publicanos, nem ateus nem gnósticos – como mostra a Escrituras, chamamos todos ao arrependimento e a fé; lembramos a todos a sua condição pecaminosa e fim infernal bem como a destruição do seu mundo e cultura no fim; chamamos a todos ao conhecimento de Deus (Cl. 1:10) e da alma. E à submissão a Deus. Na política, nas artes, na educação e na academia, nos desportos etc. Por isso, defendo, ao criarmos ou entrarmos nesses debates na igreja, na universidade, na net ou tv etc., falemos, exponhamos, discutamos de forma que as nossas palavras e linguagem tenham um apelo aos nossos próximos, um convite aos pagãos e cristãos carnais à verdade e à salvação pelo poder para a salvação de todo o que crê. Um convite à fé. Ao conversarmos com os homens, as nossas palavras – porque cheias do Espírito que enche-nos – também sejam do caminho de Emaús e ardam o coração dos que ouvem-nos de modo a revelar-lhes o Elohim de nossos pais. Assim em conversação mais simples (como as piadas) como nas mais sérias ou complexas, como referiu acima o Calvino.

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