Agridoce: Reflexões sobre o contentamento

“Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade. Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece.” (Filipenses 4.10-13)

De antemão, alerto os leitores sobre o estilo quase confuso e excessivamente subjetivo que este texto terá. É que ele vem do fundo de uma alma que dá os primeiros passos na caminhada que o apóstolo Paulo nos recomenda: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11). Começo a escrever sem saber exatamente como o raciocínio se desenvolverá; certa, porém, que Deus nos usa para o Seu Reino, apesar de nós e em meio ao que Ele opera em nós.

Sobre o contentamento, lembro das inúmeras vezes que torci o nariz diante da referência nas pregações, palestras e aulas de Escola Dominical. C-O-N-T-E-N-T-E. Parecia um adjetivo atribuído ao servo de Deus, em situações de dor que esmaga, de provação que aperta o coração, de esperanças destroçadas, de sofrimento que parece insuportável, muitas vezes quando não se entende o porquê, e o cristão se resigna, se conforma “com menos” e fica quieto. Sabe, como aquela criança que chora e se angustia quando tem fome, mas naquele momento específico, por algum motivo, não pode ter a comida que deseja, de modo que os pais lhe dão a chupeta que, apesar de ser um conforto para muitos bebês, diante da fome real é uma solução inferior, que não satisfaz os anseios?

Assim pensei, não poucas vezes, para minha vergonha, acerca do contentamento.

Para mim, o contentamento era como algo “de menos”, até mesmo medíocre, em que as esperanças da pessoa praticamente não teriam importância (olhando pela perspectiva humana, ela só experimentaria frustração) e ela simplesmente teria que se resignar ao ser esmagada pelo trator das circunstâncias incompreensíveis, permitidas pelo Deus soberano e bom, não tendo satisfação e sentindo só a dor.

Ah, mas Ele é bom! E este é exatamente o ponto em que tudo muda. Ele é tão bom que conduz as coisas na minha vida, e na sua vida também, leitor, de forma que, deparando-nos com planos que não eram os nossos, dificuldades, provações – um roteiro para a nossa vida que não é aquele que traçamos em nosso coração enganoso – possamos nos frustrar, e, assim, sentir a nossa necessidade profunda dEle, de nos alegrarmos e satisfazermos nEle, sob pena de ficarmos vazios e recorrermos a ídolos, cisternas rachadas, que não retêm as águas, quando temos a fonte de água viva dentro de nós .

Diante da ação de Deus em nossas vidas, e dos ensinos do Espírito Santo em nossos corações, começamos a perceber que contentamento não é aquele “Tudo bem” desanimado com o qual se responde à pergunta de um conhecido, a quem você não revela o que de fato está em seu coração. Não é um estado tolerável, medíocre, de quem ainda não alcançou a felicidade na vida. Contentamento é uma condição do coração que o SENHOR requer de todos os Seus servos, e que Ele deseja (e vai) ensinar a cada um de nós na escola da santificação. O pregador puritano Jeremiah Burroughs nos dá a seguinte definição:

“O contentamento cristão é aquele estado de espírito doce, interior, tranquilo e compassivo, que livremente se submete e se deleita na sábia e paternal disposição de Deus em qualquer condição.”

Andar altaneiramente

 Assim, ser contente envolve uma firmeza no caráter de Deus e em Suas promessas reveladas nas Escrituras, firmeza ensinada a nós pelo nosso Consolador, que nos faz ser como a corça sobre a qual o profeta Habacuque fala no conhecido texto de Hc 3.17-19:

“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. Ao mestre de canto. Para instrumentos de cordas.”

A corça é um animal que habita as montanhas no verão, subindo a alturas cada vez maiores, à medida que a temperatura aumenta. Suas patas, seu peso e uma série de características de que ela foi dotada pelo Criador permite que ela corra a cerca de 88 km/h. Um de seus predadores é o guepardo, conhecido pela capacidade de atingir as mais altas velocidades (de 100 a 120 km/h). Como então a corça sobrevive diante deste e de outros predadores em seu encalço? Através da capacidade de fazer curvas, mantendo a mesma velocidade em que corre, só que em diferentes direções, e dos saltos que podem chegar até 9 metros.

Vemos, então, que a corça não é um animal que vive no sossego. Há predadores que a perseguem, mas ela é veloz, é ágil nas curvas que faz – muda de direção e prossegue correndo, enquanto o predador derrapa, sem conseguir acompanhá-la. Logo, quando o profeta Habacuque falou sobre “pés como os da corça”, ele quis dizer que o Senhor, em tempos de provações, nem sempre livra os seus servos de passarem pelas dificuldades. Entretanto, Ele dá capacidade e habilidade a eles para escalar montanhas, para saltar em todas as direções, escapando dos inimigos e perseverando na caminhada rumo ao lugar em que há paz e alegria (a Nova Jerusalém) [1].

Portanto, o contentamento é a disposição de um coração que, em meio às provações, vai sendo ensinado por Deus a andar altaneiramente como a corça: acima das circunstâncias e da adversidade.

Agridoce

 Agridoce. Adjetivo biforme utilizado para qualificar algo como simultaneamente amargo e doce, ou ainda ácido e doce. Houve tempos em que minha maior familiaridade com o termo se resumia a um sabor de molho que eu não tinha muita vontade de colocar no sanduíche da Subway. Hoje, penso que o adjetivo designa bem o desafio do contentamento, pois este é como um alimento em que podemos sentir duas modalidades de sabores – doce e amargo ou doce e ácido.

Contentamento é um estado doce do coração! É não ter mais que focar a vida e os pensamentos em preocupações, como se vou passar no vestibular de primeira, se arranjarei um emprego após a faculdade, com quem vou me casar, se terei filhos, com quantos anos vou me aposentar, dentre tantas outras … que liberdade!!! É se livrar do fardo que o Senhor não quer que carreguemos. É viver profundamente a letra do cântico que nossos pais cantavam: “É meu somente meu todo o trabalho/ e o teu trabalho é descansar em mim”, entregando a Ele o controle (que Ele já tem) de toda a sua existência – ou seja, é reconhecer esse controle, se submeter a esse senhorio e CONFIAR na bondade da orientação de sua vida conforme a Vontade dEle, em muitos aspectos para nós desconhecida. É doce pela liberdade que vem com a entrega a esse Amor, pela contemplação e aprendizado desse Caráter, pelas promessas mui lindas!

O contentamento é um pouco amargo e ácido à nossa percepção humana, porque precisamos abrir mão de nossas pretensões de controlar a vida (sim! pretensões, porque nosso controle nunca foi e jamais será real), da murmuração, da inveja, da presunção em achar que temos direito a isso ou aquilo, para focarmos nossos corações e mentes no Senhor e em Sua Palavra de tal forma que o amor por Ele nos consuma e que descansemos em confiança em Sua boa, agradável e perfeita vontade. E tudo isso exige nossa morte a cada dia.

Por fim, o contentamento é agridoce agora e o será sempre ao longo de nossas vidas aqui na terra, porque nesta vida ele sempre envolverá uma dor com a qual precisaremos lidar, consequência da existência em um mundo caído, bem como as nossas limitações de não conseguirmos enxergar tudo da perspectiva sábia do Senhor. No entanto, creio e ao mesmo tempo anseio que ele ficará cada vez mais doce à medida que amadureçamos na fé e confiemos no Senhor ao conhecê-lO mais.

Alegria profunda

Em última instância, o contentamento é quando nosso coração aprende a encontrar diariamente, e por toda a vida, a alegria mais profunda e duradoura que jamais existiu (da qual gozaremos por toda a eternidade): a alegria de ter um relacionamento de Aliança com o Senhor, de sermos amados por Ele e de aprendermos a amá-lO. Isso é diametralmente oposto à ideia de que ser contente é se resignar ao que não é tão bom, porque ter contentamento é não mais buscar como fundamento para nossa felicidade a alegria pequena e transitória que as coisas desta vida podem nos dar, mas sim ter o coração baseado no prazer em Deus.

Essa realidade fica bem clara no seguinte trecho que C.S. Lewis escreveu:

“Somos criaturas divididas, correndo atrás de álcool, sexo e ambições; desprezando a alegria infinita que se nos oferece, como uma criança ignorante que prefere continuar fazendo seus bolinhos de areia numa favela, porque não consegue imaginar o que significa um convite para passar as férias na praia.” (Grifos nossos)

Assim, aprender a estar contente é ser santificado pela obra do Espírito Santo, ter ídolos destronados do coração e se tornar cada vez mais um verdadeiro adorador do Senhor, tendo maior alegria no relacionamento com Ele, mediante Cristo.

Um poema doce para momentos amargos

Para que você, leitor, possa ser encorajado a olhar além das circunstâncias e andar altaneiramente, buscando a cada dia o contentamento em meio a um contexto amargo à sua percepção humana, deixo esse doce poema que muito me conforta diante de minhas limitações e dificuldades em compreender a ação de Deus em minha vida:

Deus se move misteriosamente
(William Cowper)

 “ Deus se move de forma misteriosa
Para realizar suas maravilhas;
Ele imprime suas pegadas no mar,
E cavalga sobre a tempestade.

 Fundo, em minas imensuráveis
De habilidade que nunca falha,
Ele entesoura seus desígnios brilhantes
E opera sua vontade soberana.

Vós, santos medrosos, renovai a coragem!
As nuvens que tanto temeis,
São grandes em misericórdia, e irromperão
Em bênçãos sobre vossas cabeças. 

Não julgue o Senhor com débil entendimento,
Mas confie nele para sua graça.
Por trás de uma providência carrancuda,
Ele oculta uma face sorridente.

Seus propósitos amadurecerão rapidamente,
Desvendando-se a cada hora;
O botão pode ter um gosto amargo,
Mas a flor será doce. “


NOTA

 [1]  Exposição e aplicação retiradas de anotações do sermão do Rev. Marcelo Maurício no dia 16/04/2019 – estudos no livro de Habacuque.


Revisão: Vanessa Lima | Publicação: Alicia Catarina

Um comentário em “Agridoce: Reflexões sobre o contentamento

  1. Parabéns Gabriela, belo texto. Muito bom ler algo com fundamentação bíblica. Você é uma doce menina, muito inteligente. Me alegro de ver tudo isso sendo usado da maneira correta, para glória de Deus. Beijos

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