Breves meditações no Salmo 119 – parte I

INTRODUÇÃO

“Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho. Desvenda os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei. Como purificará o mancebo o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti. Desvia os meus olhos de contemplarem a vaidade, e vivifica-me no teu caminho. Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos.” (Sl. 119.105,18,9,11,37,71 ARC) [1].

Os textos supracitados, em maior ou menor grau, permeiam a cristandade evangélica hodierna, como expressões breves de grande sabedoria, beleza e instrução, popularmente conhecidas e faladas. O que eles têm em comum? Além de serem expressões da Escritura e do livro dos Salmos, são de um mesmo e grandioso salmo, o sendo 119, sendo o maior do Saltério, bem como da Escritura, com 176 versos.

Algo que faz o salmo 119 ser tão peculiar, é que, de “Álef” à “Tav” (como que de “A” à “Z”, em termos de equivalência com a ordem do nosso alfabeto), a oração e o cântico do salmista são a respeito, segundo, em face, centrados e a própria palavra de Deus nas mais variadas situações e afeições. Compreender, confessar, louvar e anelar a excelência, suficiência, necessidade, natureza, beleza, majestade, glória, fulgor, preciosidade, dignidade e supremacia da Escritura, assim como em relação ao salmista, é algo que deve nos impelir à santa meditação, rogando ao Pai das luzes o progressivo e gradual entendimento dessas verdades tão dignas de serem cridas quanto imprescindíveis sua obediência.

Assim, a finalidade do texto ora em questão, o qual será dividido em quantas partes forem necessárias para consumar tal pretensão, consiste em breves meditações nesse salmo de riqueza inaudita, trazendo à luz contribuições menos populares, mas não menos verdadeiras e importantes no processo de santo fascínio e redentivo deslumbramento pela Escritura, buscando comentar cada estrofe e cada verso da estrofe quanto ao que fora meditado.

Nesse sentido, não tenho como não me lembrar do G. K. Chesterton, o qual, na Ortodoxia, brilhantemente afirma: “Quem se propuser a discutir alguma coisa deve sempre começar falando daquilo que não irá discutir. Antes de apresentar o que se propõe provar, terá de apresentar aquilo que já considera provado.” [2]

Portanto, desde já, tendo em vista o escopo do texto, é importante ressaltar que não se trata de uma exposição do salmo 119, sem embargo o fruto das meditações poderem servir na sua construção. Também, ainda que em um momento ou outro possa ser enfatizada a relação e a referência da seção com o todo e outros textos de modo específico, haverá uma inclinação mais da parte, do específico, isto é, da estrofe e do verso em comento.

Além disso, partirei objetivamente dos seguintes pressupostos: (a) da estrutura fundamental do Salmo 119 com o 118, juntamente com o do 19 e 18 bem como do 1 e o 2, na relação da Lei e do Messias, sua unidade e em como essa estrutura permeará todo o Saltério; (b) do Salmo 119 como uma verdadeira demonstração dos três usos da lei, [3] e, especialmente no tocante ao salmista, como um membro do povo da aliança, a notoriedade do terceiro uso da lei, seu uso pedagógico, e que a sua guarda, cumprimento e observância, não constitui causa de sua justificação e salvação, mas como um efeito da livre graça que move o justo a observar a lei em resposta de gratidão pela salvação e justificação já nele operada, em obediência à vontade revelada de seu Pai, em imitação e conformação à imagem do Filho, Varão Perfeito e nosso Mediador, sob a operação do Espírito, o qual aplica a obra de Cristo em nós, sem a qual, não teríamos qualquer progresso na reforma de nossa vida perante o Criador; [4] (c) da estrutura poética do salmo 119, a qual é um acróstico, onde cada oitava (ou estrofe) começará com uma letra do alfabeto hebraico; tal forma sugere, juntamente com o fato de cada verso consistir geralmente em duas breves proposições, que havia uma intencionalidade quanto à memorização desse salmo, em consonância com os deveres pactuais de inculcar a revelação bíblica; (d) por mais que cada palavra tenha sua peculiaridade, os termos “lei”, “mandamentos”, “testemunhos”, “preceitos”, “estatutos”, “juízos”, “decretos”, “caminhos”, “palavra”, geralmente terão um sentido comum, ressalvados os casos onde notoriamente a palavra específica requeira um tratamento específico, de sorte que, por uma questão prática, de modo geral essas palavras serão observadas de modo semelhante..

Minha oração é que o SENHOR se digne a abençoar essa empreitada, iluminando o nosso entendimento, para que, por sua palavra e por seu Espírito, cresçamos na sua graça e no seu conhecimento e, como o salmista, que todo o nosso ser seja cheio da palavra do Deus por cuja palavra fez os céus e a terra, bem como os redime no Filho sob a operação do Espírito, e, assim, sejamos arrebatados pela beleza desse salmo logocêntrico, extraindo um pouco mais da sua sublime riqueza, dessedentando a nossa sede no rio da graça das Escrituras Sagradas e do sacro cântico inspirado, aquecendo o nosso coração nos raios emanados do Sol da justiça rumo à cidade da luz. “Desvenda os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei” (Sl. 119.18 ARC).


Referências bibliográficas
[1] BÍBLIA SAGRADA. Tradução em português por João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Corrigida.
[2] CHESTERTON, G. K., Ortodoxia, p. 27.
[3] CALVINO, João. A Instituição da Religião Cristã, Livro II, Capítulos VII e VIII; Vide também o Catecismo Maior Westminster, perguntas e respostas 91-97.
[4] Vide Catecismo Maior de Westminster, pergunta e resposta 97.

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