Providência divina em Rute: graça, redenção e vida eterna (Parte 2: O amor que se arrisca)

Antes de mais nada, alerto você, leitor (a), que esse texto é uma continuação do “Providência divina em Rute: graça, redenção e vida eterna (parte 1: soberania de Deus)”. Nele fiz algumas considerações introdutórias acerca da história de Rute e de como nosso Senhor, delicada e estrondosamente, mesmo cuidando de cada detalhe da vida dessa jovem senhora e de sua sogra, também estava indicando o Seu plano redentivo, qual seja, a preparação do caminho para Jesus Cristo, o resgatador da humanidade.

Assim, desde logo te alerto: é importante que, na leitura do livro de Rute, tenhamos a compreensão de que, em cada desdobramento da história, por mais que dolorosas sejam as situações em que Noemi e Rute se encontrem, o final de todas as coisas é a glorificação de Cristo a partir da soberania de Deus.

Portanto, prossigamos.

2. O amor que se arrisca

A parte 1 desta série termina com o seguinte cenário: Rute, em atitude que parece-nos, à primeira vista, um tanto arriscada, decide voltar com Noemi para Belém de Judá (Rute 1.16 e 17). Vimos brevemente que tal atitude de Rute nos revela, primordialmente, o direcionamento do Senhor de todo curso da história de forma tão grandiosa que Rute viria a fazer parte da genealogia de Cristo (Rute 4.21 e 22 e Mateus 1.1-17). É exatamente mediante essa perspectiva que te convido a atentar às nuances inerentes a três situações um tanto “arriscadas” na vida de Rute.

Primeiramente, analisemos a atitude de Rute quando assumiu o compromisso com Noemi de, junto a ela, voltar a Belém de Judá.

Rute afirmou a sua sogra:

“Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.” (Rute 1.16 e 17)

Esses versículos são muito utilizados em casamentos. Certamente você já os ouviu em alguma cerimônia, pois demonstram uma aliança, um pacto feito entre os cônjuges. Mas perceba que aqui a aliança fora feita entre uma nora e uma sogra. Aliás, por uma nora, até então, de ascendência pagã para sua sogra pertencente ao povo de Deus. Em nenhum momento do livro de Rute fica evidenciado quando o encontro do Senhor com ela aconteceu. Ah, convenhamos que “isso é o de menos”. O que importa, nas palavras do Pr. Emilio, é que

“Rute está efetivamente se colocando fora do alcance de seu velho deus e chamando Yahweh como testemunha. Ao dizer que deseja ser enterrada na terra de Yahweh, ela está abandonando sua ligação com deuses moabitas e se apegando ao  Deus de Israel.”[1]

Tal decisão de Rute provém do trabalhar de Deus em seu coração! Perceba que ela invoca o nome do Senhor e parece confiar mais Nele do que a própria Noemi.

Ao analisar o contexto da vida de Rute, veremos que só o Senhor poderia impulsionar o seu coração para que fizesse tais votos à Noemi. Pense: uma jovem viúva deixando sua terra onde, talvez, ainda tivesse família que pudesse ampará-la ou, quem sabe, onde poderia ter a chance de casar-se novamente com alguém do seu próprio povo. Agora some a essa circunstância o fato de Rute ser moabita (fator ainda mais complicado, como já explicado na parte  1. Leia, também, Números capítulos 22 ao 25 e perceba o histórico do envolvimento do povo de Deus com o povo moabita) e estar desamparada economicamente (Rute 1.21). Para que pudesse obter mantimentos para sua sobrevivência, bem como a da sua sogra, senhora que se julga de idade considerável (Rute 1.12), talvez precisasse trabalhar arduamente em campos estranhos. Em uma sociedade patriarcal, sem nenhum homem  que cuidasse dela, certamente Rute estava vulnerável[2]. E, quando levamos em consideração que o tempo em que toooodos esses elementos estão inseridos é o período dos juízes, anos de grande instabilidade política e social, percebemos que tudo fica ainda mais delicado.

Ante a tudo isso, percebe o quão arriscada fora a atitude de Rute para que ela tenha agido por ela mesma? Foi DEUS! Única explicação possível! No entanto, nas palavras do Pr. John Piper, ela foi movida por um “amor radical, disposto a correr os riscos”[3]. Com a mesma concepção, escreveu o Pr. Emilio Garofalo Neto:

“Junto a isso vêm vários perigos. Ela está deixando uma situação de mais provável segurança financeira. Talvez ainda tivesse seus pais. Talvez pudesse casar com um moabita. Rute está deixando sua terra sem garantias de receber algo melhor. Ela está jurando que não voltará. ‘Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada’. Ela não disse ‘quando você morrer eu morrerei’. Não se trata de um pacto de suicídio ou algo assim. Ela disse onde você morrer eu morrerei. Ela estava explicando que onde Noemi morresse, ali ela morreria também, mesmo que fosse cinquenta anos depois. (…)  É o contrário do suposto amor que vemos hoje em dia, em que sentimentos falam acima do compromisso.”

Que compromisso surpreendente! Rute, de descendência moabita, que cultivava adoração a outros deuses, confia no Deus de Israel e, em sendo escolhida para fazer parte da genealogia do Cristo, mesmo sem saber, demonstra amá-lo e evidencia o desejo de a Ele pertencer! Infelizmente, Noemi, amargurada, não percebe que Rute também era demonstração de cuidado do Senhor para com ela. Tanto é assim que, agora, denomina-se, “Mara”, pois, segundo ela grande amargura teria Deus lhe dado. Vejamos:

Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Ditosa parti, porém pobre o Senhor me fez tornar; por que pois me chamareis Noemi, visto que o SENHOR se manifestou contra mim e o Todo-Poderoso me tem afligido?” (Rute 1.20- 21)

A amargura de Noemi a impedia de enxergar que Deus também trabalha ante as dificuldades da vida. Assim não foi com o povo de Israel em toda sua caminhada até chegar à Canaã? Não seria diferente dessa vez. O Pr. John Piper assevera que:

“Foi Deus quem tirou a fome e abriu o caminho de volta ao lar. Noemi ouviu falar que o Senhor havia visitado o seu povo, dando-lhe alimento (1.6). Tão certo quanto Deus havia dado a fome, ele a tirou. Noemi podia ver. No entanto, ela não conseguia ver tudo que Deus estava fazendo. Mais tarde olhará para trás, da mesma forma  que nós ao lermos o livro pela segunda vez, e verá os pontos salientes da esperança.

Por exemplo, observe o delicado toque de esperança no final de 1.22: Elas chegaram a Belém no início da colheita da cevada. Se Noemi pudesse ver o que significará… o campo de cevada é o lugar onde Rute conhecerá Boaz, seu futuro marido.”[4]

A segunda situação que demanda a nossa atenção é: Rute se dispõe a trabalhar. Logo no início do capítulo 2, Rute diz: “Deixe-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele que me favorecer”. Compreendo que já aqui Rute crê que o Senhor irá bendizê-la. Apesar de sua delicada situação, ela confia na provisão de Deus e dirige-se ao campo crente na bondade do Deus da sua sogra que, agora, também é o seu.

À vista do contexto anteriormente mencionado, Rute, novamente, se arrisca[5]. Ocorre que a postura dela, nas lições do Pr. Emilio,

“(…) é muito importante e revela algo precioso sobre quem ela é. Esse contentamento é bom e agradável a Deus. É a tranquilidade de confiar sua vida a Deus ao invés do vitimismo do coração que acha que Deus e o mundo lhe devem tudo. Trabalhar é algo bom e justo.”[6]

O coração de Rute mostra-se humilde. Embora confie na provisão do Senhor, não se exime da responsabilidade que assumiu para com a sua sogra. Rute trabalha, mostrando-se humilde e assídua na colheita. Aqui, mais uma vez, Deus, na soberana teia da sua providência, direciona Rute para o campo logo de quem? Boaz, aquele que seria seu futuro esposo. O escolhido por Deus para ser o “resgatador”. Uau! Quaisquer filmes de romance passam bem distante da realidade da história de Rute. Isto porque não existe neles narrativa fática que represente lição tão rica quanto a que podemos ter com Rute. Foi justamente no campo, lugar onde Rute, mulher estrangeira, muito provavelmente estaria vulnerável a preconceitos e riscos sociais, que o Senhor proveu aquele que, achando graça nela, a resgataria, tudo conforme a lei mosaica[7]. Novamente, com delicadeza ao descrever a obra de Deus para com Rute, o Rev. Emilio expressa:

“Rute está se arriscando, não somente se cansando. E o Senhor Deus está operando. A providência do Senhor é bela e misteriosa. Um hino do antigo Willian Cowper fala que Ele deixa pegadas no oceano. Devemos nos lembrar dessas lições. Coisas causais à nossa vista na verdade são planejadas pelo Todo-Poderoso. Não há acaso. Este simples fato deve nos confortar o coração.”[8]

Exatamente isso o que aconteceu. Ao ler os versículos 2 ao 17, veremos que Boaz, da família de Elimeleque, como bem explicita o texto bíblico, tendo notado a presença de Rute, pergunta a um dos seus servos quem esta seria. Ao ouvir de quem se tratava e como teria procedido com sua sogra, deixando pai e mãe, achou graça nela, orientando-lhe a permanecer nos seus campos junto às suas servas, ordenando aos seus servos, ainda, que a deixassem colher livremente, sem restrições.[9] Ainda, Boaz convidou Rute para que com ele comesse:

Achega-te para aqui, e come do pão, e molha no vinho o teu bocado. Ela se assentou ao lado dos segadores, e ele lhe deu grãos tostados de cereais; ela comeu e se fartou, e ainda lhe sobejou.” (v.14)

Perceba que aqui Boaz está demonstrando a Rute cuidado, bem como o mesmo amor “desinteressado e generoso” que Rute teve para com Noemi.[10] Boaz simplesmente aparece na história como exemplo de misericórdia e piedade. Ele te faz lembrar alguém? Remeto a importância de ter em mente que toda a história de Rute nos indica Jesus Cristo, aquele que viria como resgatador dos homens, os quais estavam mortos em seus delitos e pecados.

É justamente nesse momento que Cristo é indicado na figura de Boaz. Aqui quero explicitar um trecho cirúrgico e deveras contundente do Pr. Emilio acerca da indicação de Cristo mediante a postura de Boaz:

“Boaz o faz lembrar alguém? Quem é o mais rico? Aquele de é, de fato, dono de céus e terra? Quem é piedoso, verdade seja dita, o único que cumpriu com piedade em sua inteireza e que é a própria revelação da piedade (1 Tm 3.16)? Que não só respeita a lei de Deus, mas de fato é autor da própria lei? Quem é o homem mais apropriado, manso, bondoso? Nosso Senhor Jesus aqui é vislumbrado em forma de sombra. Quando falamos que o Antigo Testamento contém sombras de Cristo, estamos simplesmente dizendo que Deus pontilhou o Antigo Testamento de pessoas, eventos, objetos e até festas que serviam como prévias da pessoa de Jesus Cristo. Boaz é alguém que nos chama a atenção. E a principal razão para isso é a semelhança com o que é ser um homem verdadeiro, o Senhor Jesus Cristo.”[11]

Sim, Deus proveu os campos de Boaz para Rute. O Senhor é benevolente e, agora, Noemi percebe isso (Rute 2.20).

Nessa perspectiva, temos a terceira e última situação na qual Rute mais uma vez se arrisca. Atentemos!

Noemi, sabendo, a partir da narrativa de Rute acerca do que tinha acontecido com Boaz, que este era parente de Elimeleque, explicita que este é um dos seus resgatadores, aquele que, conforme o princípio do levirato constante da lei mosaica (Deuteronômio 25.5 e 6), poderia garantir que as posses deixadas pelo falecido esposo de Noemi fossem protegidas, bem como assegurar que a sua descendência não fosse interrompida[12]. Além disso, seria o parente que, de certa forma, as redimiria, pondo um final à pobreza e à solidão vivida por ambas.[13] Portanto, em Boaz, Noemi vislumbrava a possibilidade de ter um protetor.[14]

Ante a este fato, Noemi planeja, no capitulo 3, versículos 1-5, um encontro um tanto ousado, de incertas consequências para Rute. Ao ler as instruções de Noemi, temos a leve impressão que Rute estaria se oferecendo? Estranho? Seria um insight um pouco aventuroso da parte de Noemi? De fato, Rute estaria se arriscando e poderia ser rejeitada. O Pr. Emilio afirma que o que Rute estava prestes a fazer era algo contracultural em virtude das diferenças de idade, o fato de Rute ser moabita, a posição social de ambos e por ser uma mulher propondo o casamento.[15] Perceba as orientações:

Disse-lhe Noemi, sua sogra: Minha filha, não hei de eu buscar-te um lar, para que sejas feliz? Ora, pois, não é Boaz, na companhia de cujas servas estiveste, um dos nossos parentes? Eis que esta noite alimpará a cevada na eira. Banha-te, e unge-te, e põe os teus melhores vestidos, e desce à eira; porém não te dês a conhecer ao homem, até que tenha acabado de comer e beber. Quando ele repousar, notarás o lugar em que se deita; então, chegarás, e lhe descobrirás os pés, e te deitarás; ele te dirá o que deves fazer.” (Rute 3.1-4)

Ocorre que Rute agiu um tanto diferente. Inicialmente fez o que sua sogra tivera lhe orientado: foi à eira no final da noite e quando Boaz deitou, descobriu-lhe os pés. Tendo este percebido que tinha alguém perto dele, acordou e, imediatamente, Rute explicou a situação. Ela disse logo o que queria. Propôs casamento. Analise:

Disse ele: Quem és tu? Ela respondeu: Sou Rute, tua serva; estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador.” (Rute 3.9)

Ante a isso, Boaz percebeu que Rute era virtuosa e sua atitude demonstrava amor tanto à sua sogra, quando a Deus (v. 10 e 11). Oportunamente, reconhecendo a possibilidade de ser um resgatador, diz-lhe que deseja unir-se a ela quando afirmou “tudo o quanto disseste eu te farei”. Ademais, Boaz demonstra que estava disposto a enfrentar o risco social de se casar com uma moabita[16] ao mesmo tempo que também cuida da reputação desta (v. 13 e 14).

Ora, perceba que em todo tempo da história de Rute, o Senhor lhe direcionou os passos. A providência divina mostra-se SUFICIENTE. Não foi isso que o Senhor Jesus ensinou no sermão da ansiosa solicitude pela vida (Mateus 6.25-34)? “Por isso vos digo, não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou de beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do as vestes?” O objetivo do Senhor nesse sermão foi afirmar que, se Ele tem cuidado de coisas que, em nossa perspectiva, são de pequeno valor, sejamos instados a considerar que Ele não deixará de cuidar daqueles que são à sua imagem e semelhança.

Devemos ter em mente que foi o Senhor quem preparou todas as condições para o que temos e tudo o que somos. É Dele que tudo provém. Ele é o direcionador de tudo e de todos. Cada ovelha de Cristo está bem apascentada em seu rebanho. Espero que seu coração encontre descanso na soberania de Deus, pois, assim como o meu, em tempos de ansiedade, este tem sido o único remédio. Lembre, nas palavras do Pr. Emilio, que

“Deus tem orquestrado sua vida e a vida dos que vieram antes; ele preparou sua árvore genealógica para que você estivesse aqui. Sua história é contada por ele. Começo, meio e fim. Cada um sob seus cuidados. Nesse processo, ele muda nosso coração, ele muda nossa vida. (…) Deus é capaz de ver todas as coisas ao mesmo tempo. Ele sabe passado, presente e futuro, ele não é limitado pelo tempo. Ele determina cada coisa que se passa. Deus sabe ao mesmo tempo todos os fatos e a relação completa entre todos esses fatos. Nós não precisamos saber todos os detalhes dessas operações providenciais. Precisamos é lembrar que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8.28). Todas as coisas. Mesmo as ações rebeldes de famílias que fogem de Belém. Mesmo fome. Mesmo viuvez.[17]


Revisão: Nathália Soares | Publicação: Alicia Catarina

NOTAS

[1] NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P 63

[2] Leia atentamente a orientação de Noemi no capítulo 2, versículo 22 do livro, para que Rute permanecesse no campo de Boaz a fim de que ficasse segura, sem que ninguém a molestasse.

[3] PIPER, John. Doce e amarga providência: sexo, raça e soberania. São Paulo: Hagnos, 2012. P.12.

[4] Idem. Ibidem. P. 31

[5] NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P 91

[6] Idem. Ibidem.

[8] NETO, Emilio Garofalo. As boas novas em Rute: redenção nos campos do Senhor. Brasília: Editora Monergismo, 2018. P 91.

[9] Idem. Ibidem. P. 93

[10] Idem. Ibidem.

[11] Idem. Ibidem. P. 96

[12] Idem. Ibidem. P. 116.

[13] Idem. Ibidem.

[14] Idem. Ibidem. P. 106

[15] Idem.  Ibidem. P. 110

[16] Idem. Ibidem. P. 120.

[17] Idem. Ibidem. P.161-166

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