A dádiva da dependência

Recentemente, fiz uma viagem interestadual com uma amiga querida. Sendo aproximadamente nove horas de viagem, tivemos tempo de sobra para realizar atividades como ler, assistir série e ouvir música. Foi nesse contexto que me veio a ideia para esse texto.

Estava ouvindo “Stop this train”, do John Mayer, e contemplando a paisagem. Foi inevitável não pensar na grandeza e na beleza da criação, bem como foi inevitável não refletir acerca da letra da canção que ouvia. Neste texto, tenciono analisar a referida música sob a cosmovisão cristã, fazendo comentários a partir de cada estrofe. É importante salientar que esses comentários partiram de uma visão subjetiva, ou seja, da minha visão sobre a letra. Entendo que um mesmo texto (literário, obviamente!) pode dar margem para diferentes interpretações, a depender da visão de mundo de quem o lê.

À priori, exibirei a letra completa e traduzida da música para, em seguida, discuti-la por estrofe (aconselho, caro leitor, que, se possível, você a ouça também!):

 

Stop this train / Pare Este Trem

Não, eu não estou daltônico

Eu sei que o mundo é preto e branco

Tento manter uma mente aberta

Apenas não consigo dormir esta noite

Pare este trem

Eu quero sair, e voltar para casa novamente

Não posso calcular a velocidade em que ele se move

Eu sei que não posso

Mas honestamente, ninguém vai parar este trem?

 

Não sei mais o que dizer

Não quero ver meus pais partirem

Uma geração se distancia

De lutar pela vida

 

Pare este trem

Eu quero sair

E voltar para casa novamente

Não posso calcular a velocidade em que se move

Eu sei que não posso

Mas honestamente, ninguém vai parar este trem?

 

Tanto medo de envelhecer

Sou bom somente em ser jovem

Então brinco com o jogo dos números

Para descobrir um jeito de dizer que a vida apenas começou

 

Tive uma conversa com meu velho pai

Pedi: “me ajude a entender”

 

Ele disse: “Chegue aos 68

Você renegocia”

“Não pare este trem

Nem por um minuto mude o lugar onde você está

Não pense que eu não poderia entender

Eu tentei fazer isso

John, honestamente

Nós nunca iremos parar este trem”

 

De vez em quando, quando tudo estiver bem

Você se sentirá como se tudo fosse como é para ser

E todos eles ainda estão ao redor

E você ainda está são e salvo

E você não sente falta de nada

Até você chorar enquanto dirige para longe na escuridão

 

Cantando

 

Pare este trem

Eu quero sair e voltar para casa novamente

Não posso saber a que velocidade está se movendo

Eu sei que não posso, porque agora eu vejo

Nunca vou parar este trem

 

Em linhas gerais, podemos compreender esse “trem” como sendo a própria vida, a qual está sempre seguindo velozmente, além disso, é perceptível a visão pessimista do eu lírico ante a vida; isso fica claro logo na primeira estrofe: “Sei que o mundo é preto e branco”. Essa visão muito me lembrou da visão de mundo expressa na literatura gótica do Romantismo, em que os personagens geralmente assumem uma atitude de descontentamento frente ao mundo, destacando o que há de pior no homem e em sua realidade (o grotesco). Na contemporaneidade, é muito comum que as pessoas encarem a vida dessa maneira, uma vez que

 

[…] Em nossos dias, porém, temos nos focalizado tão intencionalmente na atividade imediata de causa e efeito, que, na maior parte, temos ignorado ou negado o poder causal que abrange tudo e está por trás de toda a vida. O homem moderno não tem, basicamente, nenhum conceito de providência.” (SPROUL, 2013, p. 14).

 

Na terceira estrofe, vemos o medo de perder seus pais, nessa passagem tão fugaz que é a vida. O medo do amanhã se revela no medo de estar sozinho, no medo de perder pessoas queridas. Na quinta estrofe, vemos, ainda, o medo da velhice e das incertezas que ela traz (“Tanto medo de envelhecer/ Sou bom somente em ser jovem”). Certamente, nosso eu lírico se preocupa em viver num mundo sem as pessoas amadas e se angustia pensando em quem cuidará de si, como será sua saúde e, possivelmente, teme a morte. Dessa forma, ele procura uma forma de consolar sua mente: “Então brinco com o jogo dos números/ Para descobrir um jeito de dizer que a vida apenas começou”.

As estrofes seis e sete são bastante interessantes. Nelas há um diálogo entre pai e filho, no qual este desabafa com seu velho pai sobre sua inquietude e ansiedade, acerca do medo que tem de não conseguir viver tudo o que almeja. Seu velho pai, com a sabedoria de quem já viveu algumas décadas e de quem já tivera essas mesmas inquietações da juventude, apenas responde “Não pare este trem/ Nem por um minuto mude o lugar onde você está/ Não pense que eu não poderia entender; eu tentei fazer isso/ John, honestamente, nós nunca iremos parar este trem“. Seu pai o alerta de que nós simplesmente não podemos ter controle sobre nossas vidas. Por mais que planejemos nosso futuro, é o Senhor quem nos determina a direção (Pv 16.9).

Na sétima estrofe, é como se a voz poética da música manifestasse lampejos de alegria e paz. Entretanto, logo isso se dissipa, pois a confiança dele encontra-se no palpável e não no Senhor: “Você se sentirá como se tudo fosse como é para ser/ E todos eles ainda estão ao redor/ E você ainda está são e salvo/ E você não sente falta de nada/ Até você chorar enquanto dirige para longe na escuridão”. Note que sua segurança está em ter as pessoas que ama por perto (não se sentir só) e não na providência divina.

Diferentemente das outras estrofes de refrão, no final da oitava, ele finalmente se dá conta de que não lhe cabe a direção da vida; essa é uma função que vai além de suas possibilidades: “Eu sei que não posso, porque agora eu vejo/ Nunca vou parar este trem”.

Mas, enquanto cristãos, o que essa letra nos leva a refletir?

Contrapondo esta perspectiva encontrada na música, temos em Mateus 6 o melhor aconselhamento contra a ansiedade e as preocupações desta vida:

 

25 Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?

26 Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?

27 Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?

28 E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.

29 Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.

30 Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?

31 Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?

32 Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas;

33 buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

34 Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.

 

Quantas vezes não vivemos e/ou pensamos de forma incrédula como o eu lírico da música em questão? Não devemos andar ansiosos, preocupados com o dia de amanhã, pois o Senhor, em sua infinita graça, cuida dos nossos dias. Assim como Deus provém o alimento às aves do céu e “veste” os lírios do campo, Ele jamais desamparará seus filhos, criados à sua imagem e semelhança.

Atentemos para a pergunta 26 do catecismo de Heidelberg, referente ao credo apostólico:

 

“Em que você crê quando diz: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra?”.

RESPOSTA. Creio que o eterno Pai de nosso Senhor Jesus Cristo criou do nada o céu, a terra e tudo que neles há e ainda os sustenta e governa por seu eterno conselho e providência. Ele é também meu Deus e meu Pai, por causa de seu Filho, Cristo.

 Nele confio de tal maneira, que não duvido que dará tudo que for necessário para o meu corpo e minha alma, e que ele transformará em bem todo mal que me enviar nessa vida conturbada. Tudo isso ele pode fazer como Deus Todo-poderoso e quer fazer como Pai fiel.”

 

O fato de não termos controle sobre nossas vidas é uma benção do Senhor para conosco, uma vez que, sendo seres caídos, encontramos nossa alegria e proteção em um Deus que tem cuidado de nós (1Pe 5.7). Que benção, meus irmãos, ter o senhor como o guia de nossas vidas. Saber que é Ele quem planeja nossos dias deve ser motivo de paz para os nossos corações.

A pergunta 26 do catecismo de Heidelberg nos suscita a exercitar a nossa segurança e confiança em Deus. Ressalto, portanto, a importância, necessidade e o nosso dever de confiar inteiramente no Senhor, deixando de lado nosso desejo pecaminoso de ter (a ideia de) controle sobre a nossa vida, pois isso apenas trará angústia ao nosso coração.

Isso incide diretamente na questão do contentamento cristão, visto que, na medida em que nos tornamos cada vez mais dependentes de Deus e compreendemos a doutrina da Providência, mais aprazimento e felicidade teremos nEle.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SPROUL, R. C. Deus controla tudo? São José dos Campos: Fiel, 2013.

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