Eleitos para a santificação

 Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade,
14 para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo. 15 Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.16 Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça,17 consolem o vosso coração e vos confirmem em toda boa obra e boa palavra.[1] II Ts 2.13-17

O apóstolo Paulo no texto de II Tessalonicenses expõe, nos dois primeiros capítulos, salutares especificações em relação ao cuidado pastoral e admoestações no tocante à santificação e exposições escatológicas. No capítulo primeiro, escreve, acerca da ação de graças, que o cristão de Tessalônica deveria ter em sempre se regozijar em Cristo mediante alguma tribulação (v. 7), pois Cristo haveria de se manifestar como juízo e a vingança de Deus dar-se-ia a conhecer (v. 8-10) a todos. Ainda neste capítulo, Paulo fala sobre a vocação dos membros desta Igreja, ressaltando a constância na fé, onde mais uma vez anima os irmãos de Tessalônica a suportar as tribulações e perseguições aos quais estavam sendo afligidos (v.4). Nos últimos versículos, o autor manifesta sua oração para que “o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé” (v. 11), para que o nome de Cristo seja glorificado (v.12).

No segundo capítulo, o Apóstolo dos gentios ainda dá continuidade a sua percepção escatológica, demonstrando a natureza da vinda de Cristo, pois a manifestação da apostasia e do homem da iniquidade deveria anteceder a vinda do Senhor (v.1-6). Posteriormente, Paulo relata o caráter do homem da iniquidade e sua derrocada perante o sopro da boca de Cristo (v. 7-8), bem como a negligência ao amor como característica daqueles que não O escolheram como fundamento para a salvação, sendo entregues, assim, a operação do erro, deleitando-se na injustiça por não dar crédito à verdade (v.11 – 12).

Por fim, Paulo termina o segundo capítulo dando ações de graças e exortando para que os irmãos de Tessalônica se santificassem, pois este fora o significado de sua eleição desde o princípio (v. 13), para que a partir deste chamamento, através do Evangelho, aqueles os quais foram chamados desde o princípio, alcançassem a Glória de Cristo (v. 14), mediante as doutrinas que os Apóstolos ensinaram “seja na palavra, seja na epístola” (v. 15), terminando assim a sua exortação para que os irmãos tivessem a certeza de que Cristo os consolaria e os daria esperança em toda boa obra e boa palavra (v.16-17).

O versículo ao qual referimos trata-se do treze, do segundo capítulo da Epístola dos Tessalonicenses: “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”. Nele aparece dois conceitos fundamentais da doutrina reformada (apesar da redundância, vale a pena ressaltar e acrescer “reformada e Bíblica”), os quais são pilares para uma vida cristã referente a ortopraxia e ortodoxia. Esses pilares são a doutrina da “Eleição” e “Santificação: “porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação” (eleição), “pela santificação do Espírito e fé na verdade (santificação)”[2].

Devemos utilizar estes dois princípios como parâmetro para explicar brevemente acerca da contraposição e questionamentos existentes e acerca da relação da doutrina da eleição com a doutrina da santidade. Muitas das acusações dos que se contrapõem a doutrina da eleição e predestinação é quase sempre envolvida ao pensamento de levar até as últimas consequências esta doutrina, cometendo por vezes a “falácia do espantalho”, afirmando que: “se somos predestinados então podemos pecar que não iremos para o inferno”, quase sempre iniciada com a máxima que não resume a doutrina e muito menos denota a profundidade e ramificações dela, a saber, a frase “uma vez salvo, salvo para sempre”. Outra máxima posta pelos inquisidores da relação da doutrina da eleição e santificação é expressa do seguinte modo: “Se uma pessoa que viveu uma vida em santidade e buscando as coisas de Deus morrer e ela não for eleita, ela irá para o inferno, diferentemente daquelas que viveram a vida em pecado e são predestinadas, estas irão para o céu?”.  Como afirmara, tais inquietações são meras falácias de espantalho,  as quais se definem assim:

 “A falácia do espantalho ocorre quando você deturpa a posição de alguém então pode-se atacar mais facilmente, derrubar essa posição deturpada, e então concluir que a posição original foi demolida. Isso é uma falácia porque falha em lidar com o argumento atual que foi feito.”[3]

            Este erro decorre dos inquisidores não se debruçarem sobre o tema como deve ser feito, isto é, com estudo, estudo e mais estudo. Não quero aqui convencimento pessoal, pois não cabe a nenhum mortal persuadir a outrem acerca daquilo que está expresso nas Escrituras, mas o posicionamento deve ser contrário aos argumentos que por vezes são levantados e que não passam de palavras rasas e frases prontas, sem nem sequer haver uma exegese  aprofundada. Charles Haddon Spurgeon, em um de seus sermões, mostra que “Um número impressionantemente grande de pessoas compreende mal e distorce inteiramente a doutrina da eleição!”[4] Este relato de Spurgeon revela que as argumentações rasas e a má compreensão estava presente já no início do século XIX.

A propagação desta falácia não apenas permanece no campo do debate teológico, mas há alguns que, por serem amigos da carne e assim deleitando-se na perspectiva do pecado (Gl 5.19-21), estão submissos a uma libertinagem e assim vivem por ela, sendo traídos por sua própria consciência e ignorância, achando que a santidade está dissociada da eleição e por isto pecam e pecam por erroneamente acharem que estão entre os eleitos. Tal é esta aferição da ignorância, que Agostinho de Hipona, no período da Patrística, revelara os seus erros pensando ser assegurado de uma falsa liberdade (mancas libertas)[5], onde este mesmo espírito governa os corações daqueles que pensam estar entre os eleitos e por isto utilizam de uma falsa liberdade para uma vida de pecados, não entendendo a doutrina da eleição e tampouco que esta é indissociável à doutrina de santidade.

Muitos dizem: “Sou um filho escolhido por Deus, sem importar qual seja a minha conduta. E, por conseguinte, vivo como bem quiser e faço o que melhor me parecer!”[6] Que terrível engano destes! Afirmar isto é transformar e distorcer aquilo que está claramente previsto nas Sagradas escrituras, por isto Paulo adverte em II Ts. 2.13: “(…) porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação (…)” , em outra versão o texto sagrado nos diz que : (…) porque Deus vos escolheu desde o princípio para serdes salvos mediante a santificação (…)”[7], deste modo, a santificação está atrelada concomitantemente ao processo de salvação, no qual ninguém pode ser santificado sem ser eleito, nem pode ser eleito sem ser santificado, são premissas lógicas tautológicas.

Essa é a autêntica eleição divina- a eleição para a santificação e para a fé. Deus escolhe o Seu povo para que seja crente e santo. (…) Jamais pensem que são eleitos enquanto não forem santos. Você pode aproximar-se de Jesus Cristo como um pecador, mas não pode aproximar-se dEle como uma pessoa eleita enquanto sua santidade não for visível.[8]

Os Eleitos de Deus, portanto, devem ser santos e os santos são eleitos, pois a Santidade é a possibilidade de ver a Deus (Hb 12.14), isto demonstra a intrínseca forma imperativa de achegar-se a Deus e com Ele ter comunhão, isto é a marca de um povo eleito, por isto Paulo diz: “agora, porém, vos reconciliou no corpo de sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis (…)” (Cl 1.22). Qualquer um que se intitula eleito deve ter a santidade como encosto de sua cabeça, e uma quebra desta relação já distingue uma vida pecaminosa e não pactuada pelos caminhos do Senhor (bem sabido que há eleitos que ainda não se reconciliaram com Cristo e por isto vivem em uma vida dissolúvel, porém no oportuno tempo haverão de ser reconciliados em amor e assim viver uma vida de santidade). Desta forma, Paulo em I Ts 4.7 afirma: “porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação”, esta é a marca da eleição, ser justificado, glorificado e consequentemente santo (Rm 8.30-39).

João Calvino em seu comentário acerca de II Ts 2.13, afirma:

 Isto pode ser explicado de duas maneiras –  com  santificação,  ou  por  santificação.  Não é  de  muita  importância  qual dos  dois escolheis,  pois é  certo que  Paulo pretendia simplesmente  apresentar,  em  conexão  com  a  eleição,  aqueles  sinais  mais  imediatos  que manifestam  a   nós  o  que  em  sua  própria  natureza  é  incompreensível,  e  estão associados  a  ela  por  um  elo  indissolúvel.  Por isso, afim de que  saibamos  que somos  eleitos  por  Deus,  não  há  razão  para  inquirirmos  quanto  ao  que  ele  decretou  antes  da  criação  do  mundo;  mas  encontramos  em  nós  mesmos  uma prova  satisfatória  de  que  ele  nos  tem  santificado  pelo  seu  Espírito  –  se  ele  nos tem  iluminado  na  fé  do  seu  evangelho.  Pois o evangelho  é  para  nós  uma  evidência  da  nossa  adoção;  e  o  Espírito  o  sela;  e   aqueles  que  são   guiados  pelo Espírito estes são filhos  de Deus  (Rm 8:14); e  aquele que  pela fé  possui a Cristo  tem  a  vida  eterna  (1  Jo  5:12).  Estas coisas devem ser atentamente observadas para que,  desprezando  a  revelação  da  vontade  de  Deus,  com  a   qual  ele  nos  manda  permanecermos  santificados,  não  mergulhemos  em  um  labirinto profundo  por  um  desejo  de   extraí-la  a  partir  do   seu  conselho  secreto,  de cuja investigação ele nos afasta.  Por isso, convém que fiquemos satisfeitos com a fé do evangelho, e com aquela graça do Espírito pela qual  temos  sido  regenerados.  E, deste modo, é refutada impiedade daqueles  que  fazem  da  eleição de  Deus  um  pretexto  para  todo  o   tipo  de  iniquidade  –   ao  passo  que  Paulo  a relaciona  com  a  fé  e  a  regeneração  de  tal  modo  que  ele  não  queria  que  a  julgássemos sobre qualquer outro fundamento.

 

Portanto, a salvação é expressa na relação da eleição com a santificação, sendo indissociáveis estes dois conceitos, onde o eleito sempre vai por vias das benesses divinas procurar se santificar. Não devamos, então, incorrer nos erros dos obstrutores que afirmam que a eleição é uma carta branca para agir e viver em pecado, isto é um erro grotesco da falácia de espantalho, a nossa ortodoxia deve estar minimamente afinada e homogênea a ortopraxia.

Soli Deo Gloria!

 


REFERÊNCIAS

[1] Revista e Atualizada.

[2] Grifo nosso.

[3] MATHEW. LÓGICA & FALÁCIAS. Ed. Martins Fontes. Acessado em 31/05/2019 às 11:10 <http://www.martinsfontespaulista.com.br/anexos/produtos/capitulos/248209.pdf>

[4] SPURGEON. Charles H. Eleição. Ed. Fiel, 2002, p.24.

[5] Confissões, III, 3.; Confissões., II, 6

[6] SPURGEON. Charles H. Eleição. Ed. Fiel, 2002, p.24.

[7] Bíblia de Jerusalém, Ed. Paulus, 2002.

[8] SPURGEON. Charles H. Eleição. Ed. Fiel, 2002, p.25

 

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