A grande história da Bíblia

A Bíblia é um livro repleto de histórias. Tem para todos os gostos! Histórias cheias de ação, suspense, aventura, drama, romance, etc. No entanto, a Bíblia é, antes de tudo, um livro de uma única história. Mas que história é essa? É a história do mundo. E é exatamente esse tipo de história que mais fascina a todos nós. Não é por acaso que enredos como o de O Senhor dos Anéis, As Crônicas Nárnia, Star Wars e mais atualmente o universo cinematográfico da Marvel façam tanto sucesso. Esses enredos nos contam a história do mundo – do cosmos. Eles respondem algumas das perguntas que ocupam a mente do homem deste a antiguidade, que mundo é esse em que vivemos? Quem nós somos? De onde viemos? Para onde vamos? A Grande História da Bíblia nos conta a verdadeira história do mundo, e é capaz de responder alguns dos mistérios que mais intrigam a mente humana.

O nosso objetivo ao longo dessa série será perceber a Grande História da Bíblia, além de perceber como as histórias menores das Escrituras apontam para essa grande história e, assim, entender o nosso mundo com os olhos de Cristo e da sua Palavra. Se você deseja conhecer mais desse grande universo que, na verdade, é o seu próprio universo seja bem-vindo. Faço minhas as palavras do Dr. James Hamilton, “espero que você adote a perspectiva dos autores bíblicos, e que leia o mundo da perspectiva da Bíblia, em vez de ler a Bíblia da perspectiva do mundo”[1].

Elementos da Narrativa

Toda história ou narrativa possui pelo menos três elementos: Cenário, Personagens e Enredo. Da mesma forma, a história que as Escrituras nos conta possui esses mesmos elementos. Analisar cada um deles é muito importante se quisermos compreender a perspectiva bíblica da história do mundo em que vivemos.

1. Cenário

O cenário da Grande História da Bíblia é o mundo inteiro. Esse é o mundo que Deus criou. O próprio Deus elaborou, ao criar o mundo, o palco da história da qual Ele mesmo é o autor. Esse mundo foi criado para que fosse um lugar onde Ele seria conhecido, servido, adorado e estaria sempre presente.[2] O mundo que Deus criou é o seu templo cósmico. Não é por acaso que o tabernáculo e, depois, o templo sejam comparados com a céus e a terra que Deus criou (Sl 78.69), e que o próprio Senhor afirme: “O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós?” (Is 61.1). Deus é o Rei do mundo. Ele criou os céus e a terra (Gn 1.1). Os céus e a terra são dele, Ele fundou o mundo e toda a sua plenitude (Sl 89.11).

O jardim do Éden demonstra esta bela estrutura de templo e representa de maneira mais particular o grande templo cósmico. No jardim o próprio Deus andava (Gn 3.8), da mesma forma no tabernáculo Ele prometeu andar no meio do seu povo (Lv 26.11-12). A arquitetura do jardim era semelhante ao do templo (Gn 2.8-10; Nm 3.38; Ez 40.6). E nele Deus pôs a sua imagem e o seu sacerdote (Gn 1.27; Sl 8.6-8), com a dupla função de cultivar e guardar o jardim, como um regente que o representa e é responsável por manter a ordem no espaço sagrado (Gn 1.28).[3] No entanto, fica claro pelo texto bíblico que a glória de Deus não deveria ficar restrita ao jardim, mas deveria encher toda a terra (Gn 1.28; Is 45.18). Portanto, Gênesis 1 deve ser visto como a narrativa da construção de um templo cósmico construído por Deus.[4] O mundo deve ser um lugar onde Deus é conhecido e adorado. Esse é o cenário da Grande História das Escrituras.

2. Personagens

O Deus Trino é o grande protagonista da história. Isso nos é dito logo na primeira cena: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Não há suspense nessa questão. A história começa com o ato da criação de Deus e a história é a respeito dos atos de Deus. Como o salmista de forma bela pergunta, “quem nos céus é comparável ao SENHOR? Entre os seres celestiais, quem é semelhante ao SENHOR?” (Sl 89.6). Desde o primeiro versículo, a Bíblia é enfática a respeito de quem é o personagem principal de toda a trama. Ele é Deus.

Um personagem inserido no capítulo 3 é o antagonista desse enredo. Esse personagem é a antiga serpente, o diabo, Satanás (Ap 20.2). É importante dizer que esse antagonista não é um adversário à altura do protagonista. Na verdade, ele é um antagonista infinitamente vencido[5]. Esses dois personagens – protagonista e antagonista – estão em conflito. Ambos buscam o domínio sobre o mundo e os homens criados. Mas somente um deles os criou. Não é difícil saber, portanto, que o Rei Criador de todas as coisas seja o grande vencedor.

Mas existem outros personagens envolvidos nessa trama: os seres humanos. E nessa história só existem dois lados: ou se é semente da mulher ou semente da serpente (Gn 3.15). Deixe-me explicar de maneira simples. A inimizade posta por Deus entre as duas sementes é basicamente espiritual, sendo a oposição entre Deus e Satanás; entre os crentes regenerados e os homens não regenerados, os homens reprovados (Jo 8.33, 34; 1 Jo 3.8). A semente da mulher é formada por aqueles que estão em Cristo (Rm 16.20; Ap 12.17), enquanto a semente da serpente por aqueles que estão no maligno (Jo 8.44-47).

No entanto, o texto de Gn 3.15 fala também de um conflito mais particular, “Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. A oposição passa a ser mais específica e toda a semente da serpente é representada por Satanás, e toda a semente da mulher é representada por um único descendente. Como resume muito bem Meredith G. Kline, “na decisiva batalha, os dois exércitos são representados por campeões individuais, Cristo e Satanás”.[6] Jesus Cristo é a semente singular da mulher que fere a cabeça da serpente (Gn 3.15). E nós que estamos nEle, que recebemos os benefícios de sua obra pela fé, somos também desta semente. Nós, o que cremos em seu Nome, somos a semente coletiva da mulher. Somos representados nEle e a sua vitória é a nossa vitória.

3. Enredo

De forma geral, podemos resumir o enredo bíblico em quatro palavras: criação, queda, redenção e restauração. Já vimos que Deus é o criador do seu templo cósmico. Como sabemos esse templo cósmico foi profanado através da ação maligna de Satanás levando o homem a pecar (Gn 3). Essa é a queda. No entanto, Deus logo se ergue para trazer a redenção e a restauração ao mundo e aos homens. Nas próprias maldições proferidas por Deus à serpente, à mulher e ao homem vemos a esperança (Gn 3.15-19).

O cosmos não deixaria de existir, muito menos Satanás assumiria o controle total sobre ele e sobre o homem. Adão e Eva não seriam colocados de lado. Eles continuariam com seu matrimônio, capacitados a gerar uma descendência sob a promessa messiânica do “protoevangelho”. Mesmo em sofrimento Adão continuaria a cultivar e trabalhar na terra, e mesmo com suor, colheria os frutos de seu trabalho árduo[7]. Deus continuaria seu Reino cósmico[8]. Todo os meios necessários para a provisão de um novo pacto de Graça e seu mediador foram assegurados. A esperança foi garantida por Deus. A esperança raiou mesmo em meio ao juízo. Deus trouxe a Esperança do Redentor.

Essa esperança então cresce, assim como uma semente se torna uma árvore. Essa esperança chega ao seu momento final na promessa da volta de Cristo para vencer de uma vez por todas os seus inimigos e buscar e restaurar o seu tão amado povo. O Enredo se resolve. Haverá um novo templo cósmico, novo céu e nova terra (Ap 21.1). Mais uma vez, com as palavras o Dr. James Hamilton, “a grande trama da Bíblia, com sua garantia de ressurreição e nova criação, dá confiança mesmo em face da morte”.[9]

 

Começamos a andar pela Grande História da Bíblia. Uma história fascinante e real. Vimos o cenário, os personagens e um pouco do enredo dessa bela trama. Veremos, posteriormente, episódios marcantes desse enredo, e como ele se desenvolve ao longo de toda a Escritura. Que o autor da Grande História do mundo nos guie nessa caminha, nos fazendo enxergar o mundo e as nossas histórias com os olhos de Cristo e da sua Palavra. E nos faça perceber cada vez mais que a “Grande História” é, a na verdade, a “História da Redenção” do mundo através de Jesus Cristo.


NOTAS

[1] Hamilton Jr., James M.. O que é Teologia Bíblica? Um guia para a história, o simbolismo e os modelos da Bíblia. – São José dos Campos, SP: Editora FIEL. Edição do Kindle.

[2] Id. Ibid.

[3] Material de aula utilizado pelo Dr. Danillo Santos em aulas ministradas no Seminário Presbiteriano do Norte no ano de 2017.

[4] Beale, G. K.. A New Testament Biblical Theology: The Unfolding of the Old Testament in the New (Locais do Kindle 15770-15771). Baker Publishing Group. Edição do Kindle.

[5] Hamilton Jr., James M.. O que é Teologia Bíblica? Um guia para a história, o simbolismo e os modelos da Bíblia. – São José dos Campos, SP: Editora FIEL. Edição do Kindle.

[6] KLINE, Meredith G., Genesis: a new commentary. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers Marketing, ebook edition

[7] GRONINGEN, Gerard Van. Criação e consumação: o Reino, a Aliança e o Mediador, volume I. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 141.

[8] Id. Ibid., p. 141.

[9] Hamilton Jr., James M.. O que é Teologia Bíblica? Um guia para a história, o simbolismo e os modelos da Bíblia. – São José dos Campos, SP: Editora FIEL. Edição do Kindle.

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