Resenha: Pescadores de crianças (Charles H. Spurgeon)

Pequenos cristãos devem ser buscados, instruídos, acreditados e aceitos pela igreja entre os Santos do Senhor. Esta é a mensagem que permeia todo o livro do Spurgeon, no qual o escritor traz esclarecimentos, exortação e encorajamento a todo aquele que se diz interessado com o crescimento e fortalecimento do Reino de Deus.

1. Há espaço para as crianças entre os eleitos de Deus.

Existe certo descrédito velado a respeito de crianças crentes no meio cristão. Talvez até um pensamento de que as crianças não estão aptas a alcançar o conhecimento necessário para a salvação. Essa mentalidade acaba dando lugar ao entendimento de que o evangelho não é simples para os simples. Precisamos perguntar a nós mesmos: será que temos nos esforçado pela salvação de crianças tanto quanto nos esforçamos pela salvação de adultos? Será que temos investido tempo e oração rogando para que Deus salve os pequenos tanto quanto investimos pedindo que salve os grandes? Se a resposta for não, então estamos desprezando a verdade de que é do agrado de Deus que crianças sejam evangelizadas e recebam o novo nascimento.
Não devemos duvidar de suas profissões de fé, nem mesmo por um instante, a menos que não estejam acompanhadas de frutos dignos de arrependimento. A profissão de fé de um pequeno deve ter tanto peso e credibilidade para nós como a de qualquer adulto. Por mais novo que seja o crente, ele não deve ser excluído, rejeitado e muito menos desacreditado, inclusive no que diz respeito à participação das ordenanças dadas pelo Senhor. Spurgeon diz acerca disto:

“A capacidade de crer se acha ainda mais na criança do que no adulto […], cada ano leva a mente não regenerada para mais longe de Deus, e a torna menos capaz de receber as coisas de Deus. Nenhum terreno está mais bem preparado para a semente do que aquele que ainda não foi pisado […] também, em alguns casos, a criança ainda não aprendeu os enganos do orgulho, a mentira da ambição, as ilusões do mundanismo, os truques do comércio, os sofismas da filosofia; e por enquanto desfruta de uma vantagem sobre o adulto. Em todo caso o novo nascimento é obra do Espírito Santo, e ele pode tão facilmente trabalhar sobre o jovem como sobre a idade madura.” [1]

2. Devemos respeitar o trabalho dos mestres de crianças.

Professores de crianças têm um valor inestimável. Não devem ser vistos como aqueles que ficaram com a parte menos difícil. Não devemos enxergá-los como tolos e meros mestres de pessoas intelectualmente menos capazes; em contrapartida estes também devem se esforçar para não se enquadrarem em tais definições.

É dever do que ensina, mesmo que ensine a crianças, dedicar-se com esmero aos estudos necessários. Ele mesmo antes de cuidar dos cordeiros do Senhor deve velar por si mesmo; antes de alimentá-los deve garantir que sua própria alma esteja bem abastecida. Deve amar o seu ofício e se dedicar a amar àqueles que são ensinados. Deve ser doce e de rosto amigável, afim de se fazer pequeno para com os pequenos.

O mestre que busca honrar ao Senhor no exercício de sua função, ensinando os pequeninos precisa estar comprometido com a oração e leitura árdua da palavra. Não pode se contentar em ensiná-los apenas as verdades periféricas e superficiais, mas deve buscar com zelo apresentá-los a toda verdade de Deus, até as doutrinas mais profundas, sabendo que eles são capazes de entendê-las, desde que o professor as torne entendíveis.

Sobre a capacidade da criança de entender doutrinas difíceis, Spurgeon diz:

“Se há alguma doutrina difícil demais para uma criança, é antes por culpa do conceito que o mestre tira dela, do que por falta de capacidade do pequeno para recebê-la, conquanto que a criança esteja realmente convertida a Deus. Compete a nós tornar a doutrina simples; essa será a parte principal do nosso trabalho.” [2]

Fala também: “Cristo crucificado não é um enigma para os sábios, e sim uma verdade simples para pessoas simples: sim, é carne para os homens, mas também é leite para os bebês.” [3]

Com base na passagem de 2Tm 3.15, onde Paulo fala a respeito do jovem crente Timóteo, o autor relata quais devem ser os objetivos principais do professor:
1. Levar a criança a ter reverência profunda pela palavra de Deus.
2. Certificar-se de que não apenas ensinou, mas que o pequeno aprendeu tudo o que foi ensinado. Esta é a prova de que um docente foi bem sucedido na sua tarefa de instruir.

Por fim, aqueles que lidam com crianças apresentando-lhes o caminho da salvação deve sentir a dor e agonia de suas almas perdidas. É crucial que o professor tenha um espírito solidário para sentir compaixão da condição terrível que aquela tal criança se encontra. Da mesma forma, deve alegrar-se com o mínimo sinal de novo nascimento. Deve agradecer ao Senhor por cada ato que manifeste um possível fruto de salvação.

3. Devemos respeitar o desenvolvimento da salvação da criança.

Talvez sejamos céticos quanto à salvação de crianças porque elas agem conforme suas naturezas. Crianças agem como crianças e isso não nos deve fazer desacreditar de uma criança que se diz crente em Jesus Cristo. Não é justo esperarmos que junto ao novo nascimento sejam acrescentados 10 ou 20 anos de idade em cada pequeno convertido.

Temos de enxergar com naturalidade que nosso jovem irmão brinca correndo nas ruas, ou que nossa pequena irmã na fé anda com sua boneca nos braços. Eles também estão sendo aperfeiçoados na fé e por vezes sua falta de experiência de vida os fará ter comportamentos que um irmão mais velho em idade pode não apresentar. Assim também, seus pecados e falhas serão manifestos conforme suas idades.

É preciso que entendamos que da mesma forma que nosso desenvolvimento espiritual é do início ao fim pela fé, assim também funciona com os pequenos salvos. O Deus que começou neles a boa obra irá aperfeiçoá-la até o final por meio da fé que eles têm.

Por fim, sejamos também pacientes com o desenvolvimento de suas habilidades em falar do evangelho, relatar suas experiências pessoais com Deus ou fazer orações. Eles não devem ser pressionados a tornar-se “bons oradores” como nós, mas devem ser incentivados a dirigir-se honestamente a Deus expressando seus sentimentos de maneira espontânea e reverente, evitando entregar-lhes à mão orações prontas que não condizem com aquilo que seus corações querem expor diante de Deus.

“Nunca ponha na boca de uma criança uma palavra que ela não possa dizer de todo seu coração […], se precisa ter uma oração decorada, que ela não expresse desejos como uma criança nunca teria, mas que seja adaptada à sua capacidade.” [4]


Revisão: Vanessa Lima | Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

[1] [1] SPURGEON, Charles. Pescadores de crianças: orientação prática para falar de Jesus às crianças. São Paulo: Shedd Publicações, 2004. p. 25

[2] [2] SPURGEON, Charles. Pescadores de crianças: orientação prática para falar de Jesus às crianças. São Paulo: Shedd Publicações, 2004. p. 10

[3] SPURGEON, Charles. Pescadores de crianças: orientação prática para falar de Jesus às crianças. São Paulo: Shedd Publicações, 2004. p. 48

[4] SPURGEON, Charles. Pescadores de crianças: orientação prática para falar de Jesus às crianças. São Paulo: Shedd Publicações, 2004. p. 79

Deixe uma resposta