A Fé é uma Cruz (parte 1)

Dedico este texto para N’delá e Umananki, irmãs que a perseguição ofereceu-me.

1.

Em Hebreus, o Apóstolo Paulo escreveu sobre a suprema revelação de Deus e como caminhar sob sua sombra significa também combinar os nossos passos com os rastros que uma multidão de heróis e heroínas da fé deixaram durante a sua jornada rumo ao paraíso, antes de nós. Embora eles sejam majoritariamente anônimos, o santo Apóstolo deu-nos uma lista razoável de seus nomes para instruir e robustecer a nossa fé. Essa lista dos heróis, contudo, não está cheia de vitórias no sentido mundano, mas de derrotas: perdas de bens, conforto e vida. Sangue e lágrimas esses homens e mulheres derramaram pela fé, cada um deles foi um mártir e um combatente do “bom combate” que a nossa Religião ensina e exige. O Hebreus fala, na primeira parte, da superioridade da pessoa e obras do nosso Cristo, assim na terra como dentro do movimento espiritual de Deus em busca do Adão que a queda desamparou da glória para resgatá-lo da perdição: isso vai até o capítulo 10. A partir do mesmo e indo ao fim, lemos a aplicação dessa mensagem na vida do povo de Deus, mostrando que temos diante de nós, em Cristo, a maior revelação de Deus e ela devia, pela nossa fé, ser-nos pedra de salvação e não de tropeço como as manifestações de Deus no deserto foram  para os nossos ancestrais porque abraçadas com incredulidade e rebeldia, o que gerou suas mortes.

Em vivermos a nossa fé, sob a supremacia de Cristo, é inevitável que soframos no mundo, mas a verdadeira fé é incompatível com a apostasia. A fé é que faz a diferença – eis o que o cap. 10 revela-nos: os que não morreram no deserto só sobreviveram porque creram na palavra de Elohim sobre a terra prometida, que Jesus chamaria “casa de meu pai” (João 14). E nós também, comprados pelo sangue do Crucificado, precisamos de permanecer na fé para não cairmos como os nosso pais no deserto. Leiamos no cap. 10 de Hebreus:

Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.

O testemunho que o Apóstolo dá da fé desses irmãos evidencia a espécie de fé radical que ele encoraja na perícope acima. É a fé cristã, a fé que imita Jesus, a fé que transtorna os mundos, a fé que é a nossa Religião. Participarmos dos sofrimentos por Cristo é comungarmos com os herói da fé e é também praticarmos a recusa da desistência. Lemos ainda no mesmo lugar:

Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos co-participantes com aqueles que desse modo foram tratados. Porque não somente vos compadecestes dos encarcerados, como também aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens, tendo ciência de possuirdes vós mesmos patrimônio superior e durável. Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará; todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma.Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.

Os sofrimentos são próprios ao Caminho, assim como o regozijo. As dores e as lágrimas, por causa do Nome, regam e estrumam o nosso conhecimento de Deus e maturam nossa esperança e perseverança na nossa peregrinação perante Elohim. O Cristo profetizou que perseguições nos acompanhariam na jornada rumo à “casa do meu pai”; disse que o mundo nos cuspiria aflições e violências como a Ele fez. A humanidade não mudou, mas é a mesma rebelde e idólatra de demônios, riquezas e poder e inimigo de Deus, de forma que nem ela mesma poderia entender sem ajuda do Eterno. Esses irmãos hebreus, no princípio da caminhada, experimentaram essas durezas da religião cristã, mas a fé radical que tinham ajudou-lhes a permanecerem firmes no Senhor. Se, como parece, estavam a esmorecer, o autor apostólico encoraja-lhes que continuem firmes, constantes e inabaláveis no Senhor e suas promessas.

Quando os crentes são perseguidos, a sua perseverança corre risco de desmoronar; a alma cristã os diabos impelem ao medo e à rendição à incredulidade que “tenazmente nos assedia” e, assim, a esperança murcha e o homem fica fraco e preso em dúvidas para com as palavras/promessas do Amado. Paulo, portanto, lança à memória dos irmãos o princípio da sua própria fé e a biografia da fé dos nossos pais para que reencontrassem a sua estrada estreita e única da nossa Fé, pois só a fé vence as tribulações e o medo. Essa memória diz mais: a fé é sempre histórica, ela lança suas raízes aos passados que vivemos, ela é cheia de experiências. Nas horas mais sombrias, é importante um retorno a esses momentos gloriosos da fé, para ver a fidelidade anterior do Senhor e ler nela a confirmação da imutabilidade no presente e no futuro, afinal, “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e o será para sempre”. A perseverança dos crentes é, portanto, a fundamental arma nas tribulações: permanecer em Jesus, ou em outras palavras, conservar a alma. Mas é impossível perseverar sem a fé, nada podemos sem a fé, nem esperar e nem amar: Sola fide. Quando os crentes são perseguidos, é a sua fé que é perseguida, é ela que se quer exterminar e é ela também que Hebreus quer fortalecer visando a possibilitar a obra da perseverança de cada um dos seus santos leitores.

A história da nossa fé não é somente pessoal, também é coletiva, congregacional: os antigos crentes deixaram pegadas (testemunhos) no Caminho e ao ler sobre elas na Bíblia ou noutros livros, comungamos nossos formosos pés com essas pegadas, imitando sua perseverança e fé. É por isso que Paulo dá exemplos da fé dos heróis. Não promete findar as dores, ele próprio era um servo sofredor, como os outros apóstolos e outros inumeráveis cristãos anônimos para nós (mas não para Deus!).

2.

O cap. 11 é a secção que apresenta essas pegadas dos antigos crentes que andaram com Deus, formando uma galeria diversificada, mas que tem em comum um movimento religioso de fé radical, louca, selvagem, chocante, alegre, etc. que orgulha e enriquece as nossas almas. A lista começa em Abel e Enoque, passando por Abraão e Moisés e indo até Raabe e os profetas. Expectadores da promessa de Deus, em fé, inobstante as durezas que a religião atrai, “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria” (Hebreus 11). Eles não receberam em vida ou de fato a promessa, mas a viram cumprida de longe, ou seja, pela fé, e seus olhos estavam fixos nos céus: “E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade” (Hebreus 11).

Olhos fixos no Cristo, não viram nas aflições licenças para o pecado, mas, praticantes da fé, viveram a santidade e serviram a Deus: “por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros” (Hb. 11). Eles transtornaram os mundos, derribaram idolatrias e demônios, converteram multidões. Mas isso tudo tem alto preço: a fé é uma cruz. Daí o escriba sagrado adicionar: “Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra” (Hb. 11). Ler-meditar essa longa lista de santos encoraja a fé dos que estão sob tormentos, medo, perigo, cativeiro, prisões, etc. por causa da fé. Como Paulo assevera, esses heróis que morreram vivendo a fé são nossos precursores, preparadores do nosso comum Caminho, biografias que devemos imitar para prosperarmos na nossa jornada:

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma. Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue (Hb. 12).

Assim, imitando o Raboni, os cristãos devem perseverar nas provações, suportar as dores que carregar-a-cruz planta em nossos corpos, cruz essa que vê-se nos heróis da fé que o cap. 11 arrola. Todos eles marcados por perigos em que a fé mostrou-se seu modo ou sua forma de viver no mundo: literalmente viveram pela fé.

A fé que olha para o céu como o seu mundo e pátria, cidade e casa-lar, paraíso e capela, padrão e princípio; a fé que despreza e supera a terra e seus sistema de valores e de interesses; a fé que não busca o que os gentios buscam, mas mira apenas o Reino dos Céus; essa é a fé dos heróis da fé e a que persevera nas tribulações, alegre. Essa fé não precisa de hegemonia cultural e social, política e militar, intelectual e econômico etc. Pelo contrário, ela é mais forte e poderosa quando desprezada e tomada como lixo pelo mundo; é mais letal aos sistemas diabólicos deste mundo quando desprezada e perseguida pelo status quo. Desprezar o mundo, a própria reputação e um amor radical ao Céu “onde Cristo está assentado à direita do Pai”, é o que faz-nos compatíveis com essa fé dos patriarcas. Como lemos acima, em Hebreus, os que suportaram a dor por causa da fé fizeram isso porque estavam de olhos fixos na outra pátria, percebiam que o mundo não lhes era pátria, fixaram os olhos e os pensamentos nas coisas do alto, como fala Colossenses 3: “buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.”

A mentalidade que quer curtir o mundo, gozar a vida, em completa prosperidade e conforto, como hoje se vê, não é compatível com a fé cristã, que baseia-se na cruz, ou na doutrina do negue-se-a-si-mesmo. Há que haver um negar-se progressivo do crente, que significa um carregar a sua cruz e seguir ao Cristo para fora do arraial. Fora do arraial, é o deserto, não há lá conforto, além da Presença do Senhor, e ela não necessariamente elimina a sede, fome, doença, guerras e morte: às vezes, é ela mesma que atrai essas coisas sobre nós. E Flannery O’Connor, numa missiva de 1959 escrita para Louise Abbot, arremata no mesmo diapasão: “What people don’t realize is how much religion costs. They think faith is a big electric blanket, when of course it is the cross.” Essa assertiva é apenas uma glosa bonita e crua do texto clássico de Lucas 9: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.” De fato, a fé é uma cruz que carregamos e em que nos crucificamos diariamente e continuamente: essa é a realidade da nossa religião e a escritora O’Connor captou-a muito bem.

 

Leia a segunda parte em: A Fé é uma Cruz (Parte 2)


 

Revisão: Nathália Soares | Publicação: Alicia Catarina

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