Resenha: “The Reformed Pastor” (Richard Baxter)

The Reformed Pastor é uma obra monumental, a qual, sob a graça e providência de Deus, foi escrita pelo Rev. Richard Baxter. O contexto no qual essa obra estava inserida foi o de confissão pública de pecados da parte de um grupo significativo de ministros da palavra de Deus na Inglaterra, ensejo de contrição, humilhação, quebrantamento, autoexame e reforma do coração e da vida prática e ministerial diante de um Deus santo, o qual vocacionara os verdadeiros ministros, apesar desses.

Assim, fica evidente o motivo da existência de tal escrito bem como o seu tom grave, severo, exortativo, admoestativo, confrontador, expondo os pecados, as inconsistências, as negligências, a carnalidade, os vícios, a pouca ou nenhuma piedade dos ministros e como isso macula o exercício e a credibilidade do ofício em prol da Igreja, para a glória de Deus

Além disso, há uma ênfase quanto ao dever de não somente expor a palavra e ministrar os sacramentos, mas também de instruir particularmente o rebanho de Deus, de casa em casa, como algo devido e eficaz para a edificação da casa de Deus.

Na nota introdutória, com base em At. 20.28, o autor expressa os objetivos do escrito, os quais são:

(a) considerar o que significa atender por nós mesmos;

(b) demonstrar por que precisamos atender por nós mesmos;

(c) indagar o que significa atender por todo o rebanho;

(d) ilustrar a maneira como devemos atender por todo o rebanho;

(e) declarar alguns motivos pelos quais devemos atender por todo o rebanho;

(f) finalmente, fazer uma aplicação de todas estas coisas.

Compreendendo os objetivos supracitados, obra é estruturada em três grandes partes: 1ª: Atendendo por nós mesmos; 2ª: O cuidado com o rebanho; 3ª: Aplicação.

1ª: Atendendo por nós mesmos

A primeira parte é subdividida em dois capítulos.

No primeiro capítulo, o autor discorre acerca da natureza do cuidado que cada ministro deve ter consigo mesmo, enfatizando a necessidade de que os ministros sejam pessoas regeneradas, disciplinadas na busca de crescer na piedade, a fim de, por sua vida, não contraditar, ofuscar, descreditar e macular o ofício, a mensagem, o pastoreio em desonra ao nome de Deus, aos dons por Ele dispensados, e em confusão, vergonha e prejuízo da Igreja e de cada alma eterna do rebanho individualmente.

No segundo capítulo, o Richard Baxter argumenta e elenca os motivos do cuidado que os pastores devem ter consigo mesmos, o que se encontra intimamente ligado à natureza do cuidado, anteriormente exposta. Em suma, os motivos do cuidado consistem na gravidade do ofício, dado que lidam com almas eternas e com seu destino eterno; no fato da nossa depravação e pecaminosidade; na maior tentação da parte do diabo, uma vez que a queda dos pastores reverberará em dispersão das ovelhas; no fato de que, em razão do ofício, os pecados dos ministros possuem agravantes mais severos; nas grandes obras para as quais foram vocacionados, o que demanda maior graça em comparação com os que não foram separados para tão árdua e grave labor; na honra devida ao Sumo Pastor e Bispo da Igreja e sua santa mensagem e caminhos, porquanto há maior responsabilidade sobre os ministros do que nos demais homens; no fato de que tal cuidado é essencial para a prosperidade do serviço em prol do povo da aliança da graça.

Além do texto-base, utilizado pelo Richard Baxter, um versículo que poderia representar e resumir bem os dois capítulos dessa primeira parte é 1Tm 4.16: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes.”

2ª: O cuidado com o rebanho

A segunda parte é subdividida em três capítulos.

No primeiro capítulo, o autor trata da natureza do cuidado com o rebanho de Deus, trazendo as pressuposições do cuidado pastoral, inferindo que um rebanho corresponde a um pastor e um pastor a um rebanho, bem como o fato de que o rebanho não deve ser maior do que a possibilidade de dele cuidar, não devendo o pastor, se tiver escolha, tomar para si mais do que o devido no tocante à quantidade de almas sob seu serviço, mas, caso não tenha essa escolha, deve fazer tudo o que pode em prol das ovelhas do sangue de Cristo.

Além disso, define o que significa todo o rebanho, ressaltando o dever que o pastor tem de conhecer as ovelhas que estão sob seu cuidado e ministério, a fim de saber do estado espiritual das almas, aconselhá-las e instruí-las de perto em suas lutas, encorajá-las em piedade, corrigi-las em virtude de seus pecados e edificá-las no fundamento da verdadeira religião. Em seguida, faz alusão ao discernimento que os pastores devem possuir no respeitante a certas classes de pessoas, isto é, os não convertidos, os que têm dúvidas sinceras e os convertidos, dentre estes, os jovens e fracos na fé, os que vivem na corrupção, os que caem em pecados escandalosos ou que são abatidos em seu zelo de sorte que perdem o seu primeiro amor, bem como os fortes.

Depois, também trata sobre os cuidados com a família, afirmando o seu papel fundamental na igreja e na sociedade, fomentando em cada membro familiar, especialmente nos cabeças dos lares, o dever familiar de oração, leitura, guarda do dia do Senhor, destacando os benefícios disso no pastoreio da igreja e na sua repercussão na sociedade e a longo prazo nas gerações seguintes. Também trata do cuidado dos enfermos e moribundos, enfatizando a importância dessa condição e oportunidade sob a Providência para a salvação de almas eternas, tendo prontidão para apregoar o evangelho da remissão de pecados, a assertividade, sabendo pontuar com diligência e propriedade as verdades fundamentais da fé, bem como a oportunidade de relembrar aos enfermos que melhoraram dos compromissos feitos diante de Deus quando da enfermidade. Por fim, o autor trata da disciplina eclesiástica, sua importância na santificação do rebanho de Deus, classificando-a nos seguintes níveis e espécies: repreensão pública, exortação, intercessão, restauração e exclusão.

No segundo capítulo, o autor discorrerá acerca do modo do cuidado do rebanho, com os seguintes pontos: a) A obra ministerial deve ser desempenhada puramente para Deus e a salvação das almas, não para nossos fins particulares; b) A obra ministerial deve ser desempenhada com esforço e diligência, pois têm consequências inefáveis para nós e para os outros; c) A obra ministerial deve ser desenvolvida com prudência e ordem; d) Devemos escolher prioridades; e) Devemos comunicar com simplicidade; f) Devemos ensinar com humildade; g) Severidade e mansidão; zelo e amor; h) Perseverança e zelo por Deus e por sua Palavra; i) Devemos manter vivos os sinceros desejos e expectações de sucesso verdadeiro; j) Todo aspecto do trabalho deve ser feito com profundo senso de nossa própria insuficiência e total dependência de Cristo. Conclui esse capítulo enfatizando a necessidade de união e comunhão entre os pastores e à unidade da paz nas igrejas sob sua supervisão. Especialmente no tocante à conclusão, há um aparente discurso ecumênico, o que é um pouco controverso, especialmente no que respeita à tensão entre catolicidade e uniformidade.

No terceiro capítulo, Richard Baxter fala no concernente aos motivos para o cuidado do rebanho. Em suma ele destaca o seguinte: a) a natureza do ofício, pois foram ordenados para pastorear o rebanho de Deus; b) a causa eficiente, o Espírito Santo, pois os qualificou e os habilitou bem como dirigiu a igreja para discernir as qualificações e aptidões dos ministros, assim como para desempenhar o santo labor na seara de Deus; c) a dignidade da Igreja de Cristo, pois é a sua noiva e o seu corpo, de sorte que quem é remisso no cuidado para com a Igreja, assim o é também em relação a Cristo; d) o preço pago em prol dessa Igreja, pois, uma vez que Cristo derramou o seu próprio sangue, não deveriam os ministros dar a sua vida em prol daquela por quem Seu Salvador deu a sua vida, sendo eles mesmos parte dessa santa Igreja?

3ª: Aplicação

Na terceira e última parte, seção da Aplicação, imbuídos do dever relativo ao cuidado de si mesmos e do rebanho e da transgressão desse dever, o Richard Baxter tratará do uso da humilhação nesse dia solene de confissão de pecados e reforma de vida dos ministros bem como ressaltar acerca do dever da instrução pessoal e particular do rebanho, ponto de certa forma central no modus operandi pastoral do Richard Baxter e ao qual se vinculariam os ministros nessa ocasião de reforma e contrição solenes e públicas.

No capítulo primeiro, o autor exporá quanto ao uso da humilhação, evidenciando: o hediondo e tão acolhido pecado do orgulho no seio dos ministros: a falta de seriedade e operosidade irrestritas no exercício do ofício a despeito desse dever; a negligência quanto a nós e ao que possuímos no serviço do Rei e Cabeça da Igreja, como lhe é devido; a culpa por desvalorizar e desvirtuar a paz e a unidade da Igreja; a culpa por serem negligentes quanto ao dever relativo à disciplina e ao governo eclesiásticos. Por fim, conclui com a necessidade de humilhação, contrição e confissão de pecados perante Deus, na esperança de reforma remissão de pecados e vivificação dos ministros e da Igreja.

No segundo e último capítulo, o autor discorrerá exaustivamente acerca do dever da instrução pessoal e particular do rebanho. De certa forma, tudo o que foi exposto converge para o uso desses meios, a fim de que os fins gloriosos para a honra de Deus e a prosperidade da Igreja vislumbradas, pudessem vir a efeito, sob as dores de parto da causa consistente no dever de tais fins e na transgressão de tal dever da parte dos ministros sob confissão pública e resolutos e reformar a sua vida, o seu ministério e a sua igreja. Na primeira parte, o Richard Baxter tratará minuciosamente no que pertine aos motivos para o cumprimento desse dever, subdividindo-o em quatro partes:

1ª) Motivos advindos dos benefícios do trabalho;

2ª) Motivos advindos das dificuldades do trabalho;

3ª) Motivos advindos da necessidade do trabalho;

4ª) Aplicação dos motivos.

Depois, busca refutar as objeções sobre o dever do ministério pessoal individualizado, concluindo que, sob o crivo das Escrituras e do bom senso, não há qualquer condenação razoável ao ministério pastoral individualizado, pelo contrário, há aprovação e que o mesmo Deus que ordena os fins, também é gracioso e poderoso para prover os meios necessários. Por fim, o Richard Baxter orienta os ministros quanto ao modo de executar o ministério pessoal, cativando o povo pela piedade a fim de que esse possa receber de bom grado esse serviço mais aproximado e personalizado, na medida da instrução de cada ovelha e de suas necessidades imediatas e eternas segundo a fé verdadeira, observando se eles mesmos estão convictos, convencidos e animados em amor a Deus e à sua vinda.


Revisão: Nathália Soares | Publicação: Alicia Catarina

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