A Fé é uma Cruz (Parte 2)

Leia a primeira parte em: A Fé é uma Cruz (Parte 1)

3.

Um dos heróis da fé que amo, que o Paulo não conheceu, mas que é também um dos homens de quem o mundo é indigno, é o pastor Richard Wurmbrand (1909-2001). Enquanto escrevo este ensaio, estou com um de seus livros nas mãos: o In God’s Underground, traduzido como Cristo em Cadeias Comunistas. Nele, o pastor relata as suas prisões e torturas por causa de Cristo e sua obra de ministro mesmo preso pelos comunistas na Romênia. Algo que chama atenção no relato, porque lembra-nos dos inimigos da fé que suporta perseguição, a fé verdadeira: são coisas boas deste mundo e o medo consciente do quão caro é um caminho cujo símbolo é uma cruz. lemos: “Eu disse a Jesus: ‘Nunca terás a mim como discípulo. O que eu quero é dinheiro, é viajar, é prazer. Já sofri o bastante. O teu caminho é o da Cruz, e ainda que seja o caminho da verdade, não te seguirei.’” Sua resposta veio-me à cabeça com a força de argumento: “Venha comigo por este caminho! Não tema a Cruz! Você verá que isso será o maior gozo!”

A sua resistência à fé em Jesus chama atenção: ele tinha consciência do custo de que fala O’Connor acima, sabia que o Caminho é estreito, que crer significa uma cruz a carregar. Todos os cristãos maduros sabem disso, mas os cristãos perseguidos sabem disso de maneira mais viva e radical, pois é literalmente a sua realidade. O custo de crer está aí em Hebreus 11: tortura, escárnio e açoites, algemas e prisões, apedrejamentos, provações, ser serrado pelo meio, morrer a fio de espada;  vagar pelo deserto, pobreza, aflições, maltrato, etc. E como foi com Wurmbrand, essa tem sido a biografia da fé de milhões de cristãos espalhados pelo mundo, como o trabalho da Portas Abertas vem mostrando há décadas.

No domingo (dia 16), celebramos o Dia da Igreja Perseguida, na igreja. Lembramos dos irmãos perseguidos e oramos por eles. Quando se fala de perseguição na nossa geração, o pastor Wurmbrand não me sai da mente (mas também lembro das garotas que fugiram de sua cidade para a minha das quais, entre elas, duas calharam de ser acolhidas pela minha família: N’dela e Umananki). Um herói da fé que estimo bastante, Wurmbrand conta que, quando liberto, viajou para o Ocidente, encontrou pessoas que se maravilhavam com a sua liberdade porque haviam passado anos orando por ele. No DIP, o que fazemos é saber dos perseguidos e interceder por eles, como jeito de unirmo-nos ao seu sofrimento. Essa oração deve ser diária, pois a perseguição não descansa. Os relatos tenebrosos do seu sofrimento nas prisões comunistas entristecem a alma, mas a fé inabalável de Wurmbrand é o que mais comove, humilha, inquire e desafia-me: estou preparado para sofrer por Jesus? Não tenho resposta para isso, já vi Pedro afirmar que o faria, porém, na hora, fugiu três vezes da possiblidade de o praticar.

Wurmbrand sofreu tudo, mas recusava denunciar os seus irmãos na fé, recusava delatar os seus companheiros de jornada, como soldado valente, decidira suportar toda a dor sozinho perante Deus. Ele fez algo comum aos perseguidos: mesmo na prisão não parou de meditar, recordar a Bíblia, pregar sermões (como ele mesmo disse: para Deus e os anjos e os santos) mesmo estando na solitária, louvar e dançar para Deus no escuro de seu cárcere subterrâneo, onde comunicava o Evangelho para os vizinhos detentos por sinais: e ganhou almas ali para o Reino. Isso é uma das coisas marcantes em Wurmbrand: a sua mente está saturada de Bíblia, o que possibilitou-lhe viver das Escrituras durante o encarceramento na “cela da morte”, inobstante estar o tempo todo desprovido do livro sagrado físico. A palavra de Deus é fundamental nesta questão de perseguição, justamente porque ela promete bençãos, mas também prenuncia sofrimentos, tribulações e perseguições. Crer nela inclui crer também nas perseguições e, sobretudo, crer que elas só existem para encenar, realizar, avolumar e revelar a nossa bem-aventurança profetizada no Sermão do Monte, pregado por ninguém menos que o Servo Sofredor de Isaías 53, cujo apelido é “homem de dores e que sabe o que é padecer”:

 

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.

 

Para um homem preso por sua fé e cuja única luz no fim do túnel é a luz negra do assassinato, para este homem ou esta mulher, a única esperança é a palavra de Deus, infalível, inerrante: Salmos 63: “a tua graça é melhor do que a vida”; Deuteronômio 32: “esta palavra não é para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida”; João 11: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente”, etc.

As ameaças que lhe faziam não lhe intimidavam, porque ele tinha a doença incurável chamada Jesus; ele estava habitado totalmente pela loucura de Deus:

 

Repetiram perguntas já conhecidas. Dei-lhes as mesmas respostas. Dessa vez havia uma mulher entre os investigadores. Em dado momento ela disse em voz estridente, “Se não responde corretamente, mandaremos esticá-lo no cavalete”. (…) Eu disse, “Na epístola aos Efésios, S. Paulo diz que devemos esforçar-nos por alcançar a medida da estatura de Cristo. Se os senhores me esticam no cavalete, estarão ajudando-me a atingir meu objetivo.” A mulher bateu com força na mesa, ouvindo-se uma discussão atrás do brilho forte dos refletores.

 

Postura como essa desarma totalmente o algoz: como amedrontar quem não tem medo de nada? Como torturar quem ama o sofrimento em Jesus? As pancadas, acoites, escárnio e violações só fazem sentido se a vítima for, como seu algoz, materialista, i.e., se achar a sua vida na terra preciosa. E o pastor romeno, como Paulo, não endeusava a sua vida. É neste mesmo diapasão que Paulo foi para Jerusalém no fim de sua carreira mesmo sabendo, pela profecia de Ágabo, que aguardavam-lhe prisão e pancadas. Foi ele mesmo que disse em Atos dos Apóstolos: “em nada tenho a minha vida por preciosa contanto que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”. E, na verdade, a perseguição, prisões e açoites acompanharam-no em todo o seu ministério: “o Espírito de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações”.

A principal coisa por que oro em prol dos irmãos perseguidos é pela sua perseverança na fé e no amor a Cristo. Peço a Deus que se faça presente neles e que ajude-lhes a testemunhar a graça aos seus algozes: a dor dos cristãos, seus sofrimentos são oportunidades de evangelhizar as pessoas; são, por assim dizer, púlpitos para anúncio do Evangelho. O pastor Wurmbrand conta que fazia exatamente isso: buscava pensar nos seus algozes pondo-se no seu lugar o que facilitava o amor por eles, orava por sua conversão e declarava-lhes amor e anunciava o Evangelho aos comunistas, não usava a política para confrontá-los, mas sim as Escrituras. Foi isso que um dos investigadores não compreendeu: “Eu não amaria alguém que me trancasse em prisão solitária durante anos, que me fizesse padecer fome e me surasse”, o investigador disse. Eu pergunto-me se amaria, hoje, os meus inimigos. Conheço-os aqui no Brasil, mas será o que os amo? O revanchismo que percebo tomar conta de corações de cristãos em relação a pessoas de esquerda ou de direita não coaduna com a nossa Fé. Eu falava em amar e orar pelos ladrões da nação, anos atrás, quando percebia que o ódio e o desejo de vingança estavam a dominar a muitos de nós. A resposta de Wurmbrand ao seu inquisidor é estupenda: “Não é questão de guardar um mandamento. Quando me tornei cristão foi como se tivesse nascido de novo, com um novo caráter cheio de amor. Como somente água pode manar de uma fonte, assim só o amor pode brotar de um coração amoroso”. Isso é imitação de Jesus que, na cruz, recusou desistir da crucifixão para provar que é Deus, mas uniu-se a ela, orando pelos seus algozes: isso é amor. O pastor Wurmbrand conta que o inquisidor a quem respondeu daquela forma veio a tornar-se cristão e a servir aos irmãos, pondo sua vida em perigo: “Tornamo-nos irmãos.” Irmanados na fé e no serviço e no perigo. Cristãos não odeiam que lhes lancem inimizade, mas transformam os inimigos em irmãos, pela obra da graça do amor de Deus e da graça da oração que habita e opera em nós (Paulo é um deles!). Odiar inimigos é impróprio ao cristão.

 

Conclusão

As perseguições proclamam que não pertencemos ao mundo; que nossa pátria não é senão celestial, a cidade santa de Jerusalém que descerá do céu, a terra prometida em que os heróis da fé fixaram os olhos da esperança e os pensamentos da fé. Estarmos cientes de que não somos de baixo, mas do alto; não da terra, mas do céus, faz vãs todas as coisas que prendem-nos à terra, todas as coisas que o mundo e o diabo usam para extraviar-nos do Caminho. É só assim que faz sentido sermos bem-aventurados por sermos, na qualidade de discípulos de Jesus, perseguidos e injustiçados e caluniados. O Senhor não nos prometeu esta terra mas a civitate Dei; não esta vida, mas a vida eterna; não este corpo corruptível mas um corpo glorioso; portanto, perdermos a cidade dos homens, esta vida e este corpo não é incompatível com a suas promessas superiores: “a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.” Seria incompatível, se os nossos sofrimentos “leves e momentâneos” ameaçassem realmente a glória que aguarda-nos no Senhor, se pudessem roubar a nossa vida que está escondida em Deus. Mas isso é impossível. Nenhuma separação entre a nossa vida e Cristo será possível por maior que seja o sofrimento que estejamos a passar. Essa verdade complexa é celebrada por Paulo, um mártir par excéllence, em determinada parte da epístola aos Romanos 8: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.

O sofrimento, as perseguições varrem totalmente todos os pedacinhos de confiança que depositamos nos homens e nos sistemas e ideologias mundanas.  A nossa casa e cidade, a nossa terra prometida não poderia ser este aceldama que chamamos mundo, não poderia ser este vale de lágrimas e agruras de desassossego e medo. E se essas agruras desqualificam a terra na sua tentativa de ser o paraíso prometido, a vida cristã ou espiritual é a única fortuna que importa buscarmos, cultivarmos; é a única coisa que é realmente real e valiosa – e está em sermos de Cristo, escondidos em Deus, no alto onde devemos entesourar nossas riquezas e fixar nossos olhos e pensamentos.  É desse modo que os sofrimentos dos cristãos tornam-se-lhes arautos confirmando que o céu não é aqui e impulsionando-os a não idolatrar os homens e nem a terra e suas civilizações e culturas, mas a desapegarem-se da terra e a viverem para Deus: “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus”.

Escrevo este texto para celebrar os irmãos perseguidos, aplaudir a sua fé radical, inabalável, bíblica, doida no Senhor Jesus – fé que lhes arrola entre os heróis da fé que Hebreus celebra, fé que lhes transforma em partes das “nuvens de testemunhas” que paira sobre todos os cristãos asseverando a necessidade de vivermos a fé, da e pela fé evangélica que vemos nos nossos  patriarcas, matriarcas, apóstolos e mártires. O tipo de fé que imita e segue a Jesus nos sofrimentos próprios à vida piedosa, pois “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3). Escrevo, outrossim, para alertar a todos nós, cristãos dum tempo cujo espírito religiosamente correto é assaz avesso à dor, ao sofrimento, às dificuldades na sua vivência e cultivo da fé. A “nuvem de testemunhas” da nossa fé não é povoada por homens ricos e abastados e que viveram em segurança e que não choraram e que não sofreram até o sangue, pelo contrário. Pensar que podemos viver um Cristianismo menos do que Paulo na carta aos Hebreus mostra é uma tolice que pode custar muito caro.

Servir ao Servo Sofredor é servi-lo também com os nossos sofrimentos, por sua causa e em seu nome.

 

 

 

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