Resenha: “Sobre a vida feliz” (Agostinho)

Apesar de ser um livro bem pequeno no que se refere às dimensões físicas, “Sobre a vida feliz” traz reflexões bastante profundas acerca da felicidade. Trata-se de um diálogo entre Agostinho, sua mãe, seu irmão Navígio, seus dois discípulos Trigésio e Licêncio, seus dois primos Lastidiano e Rústico e seu filho Adeodato, ocorrido durante um banquete em comemoração ao aniversário de Agostinho. O desenvolvimento do livro culmina numa conclusão dialeticamente construída sobre o que é a felicidade e quem pode ser considerado feliz.

Inicialmente, temos uma bela metáfora: estamos navegando em direção à vida feliz, contudo chegar nessa terra é algo muito difícil, que apenas poucas pessoas conseguem; a chegada à vida feliz só é possível por meio do porto da filosofia. Ademais, “aqueles que podem ser acolhidos pela filosofia” são cotejados a três tipos de navegantes: 1. aqueles que são conduzidos pela razão, alcançam o porto da filosofia e tentam alcançar o máximo de pessoas para si; 2. aqueles que se lançam ao mar sem uma direção e acabam se perdendo ou retrocedendo; 3. por fim, aqueles que, presos a certos atrativos, acabam naufragando.

Agostinho inicia o debate propondo que “Bem-aventurado é aquele que possui o que quer” (pag. 13). Dando procedência, ele afirma que, sendo dotados de alma e corpo, precisamos alimentar, também, o primeiro, pois, assim como o corpo definha sem o alimento, a alma não pode se sustentar sem a virtude e a ciência. Retornando ao pressuposto de que quem não tem o que quer não pode ser feliz, os convidados começam a discutir e chegam à conclusão de que, aqueles que alcançam o que almejam, mas almejam o que não convém, são miseráveis e não podem ser felizes. Dessa forma, quem é feliz? “quem tem Deus, disse eu [Agostinho], é feliz”. Todos concordam que: “todo aquele que vive bem faz a vontade de Deus, e todo aquele que faz o que Deus quer vive bem; e viver bem nada mais é que fazer aquelas coisas que agradam a Deus.” (p. 25) Em contrapartida, não possuir significa ser indigente; Agostinho define como indigente o não possuir sabedoria. E, por conseguinte, “ser feliz nada mais é que não ser indigente, isto é, ser sábio.” (p. 40).

O livro finaliza com todos os envolvidos no diálogo chegando a um entendimento em comum: quem não pode possuir o que quer não pode ser feliz, mas, por outro lado, como Agostinho aprendeu com Cícero, nada adianta possuir aquilo que deseja se são coisas más; e o ser humano está suscetível à malícia da vontade, proveniente de seu coração. Dessa forma, feliz é aquele que possui a Deus, pois Ele é a “suprema plenitude”.

“O que deveremos chamar à sabedoria, se não a chamarmos de sabedoria de Deus? Mas também aprendemos da autoridade divina que o Filho de Deus nada mais é que a Sabedoria de Deus (1 Co 1.29); e o filho de Deus é seguramente Deus. Todo aquele que é feliz, portanto, tem a Deus; essa afirmação agradou a todos nós, já no início de nosso banquete. Mas o que julgais ser a sabedoria, se não for a verdade? Pois também isso foi dito: Eu sou a verdade” (Jo 14.6).


Referências 

AGOSTINHO. Sobre a vida feliz. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.

Deixe uma resposta