A grande história da Bíblia (Parte 2)

Se você teve uma boa infância provavelmente já assistiu a uma série chamada Power Rangers. E se você já assistiu alguns episódios, deve ter notado algo bem interessante: a trama de quase todos os episódios é exatamente igual ou no mínimo bem semelhante. É sempre um grupo de jovens escolhidos para combater as forças do mal, onde na luta contra os seus inimigos eles começam até bem, mas acabam vendo esses inimigos se agigantarem e se tornarem praticamente invencíveis. Mas ao fim, através do auxílio dos Megazords eles alcançam a vitória e destroem o inimigo. Obviamente, o roteiro não é tão superficial assim, mas resumindo é isso que acontece episódio após episódio. Mas o que Power Rangers tem a ver com a História da Bíblia? É, parece que eu fui longe demais mesmo, mas pode ser o suficiente para ilustrar uma grande verdade – os eventos, ou episódios do enredo bíblico são ligados por um tema em comum.

Nós já começamos a andar pela Grande História da Bíblia. Essa Grande História nos conta a verdadeira história do mundo e é capaz de responder alguns dos mistérios que mais intrigam a mente humana. Já vimos o seu cenário, os seus personagens e um pouco do seu enredo. Veremos, a partir de agora, episódios marcantes desse enredo, e como ele se desenvolve ao longo de toda a Escritura. Devemos lembrar que faz parte dos nossos objetivos perceber como as histórias menores da Escritura apontam para sua Grande História. Assim, deduziremos de maneira mais profunda a Grande História que Deus compôs e arquitetou para este mundo e para as nossas vidas. Desta forma, entenderemos melhor o nosso mundo, com os olhos de Cristo e da sua Palavra.

Iremos destacar três dos mais marcantes episódios da história bíblica:​ o exílio do Éden, o exílio da Terra e a Morte de Jesus na cruz. Inicialmente, veremos o primeiro episódio, o exílio do Éden. Como uma espécie de sinopse daremos um tema que ligará todos esses episódios:​ a glória de Deus na salvação do seu povo em meio ao juízo, através de um Redentor.[1]

Exílio do Éden

Nós já comentamos que no jardim do Éden o próprio Deus andava (Gn 3.8), assim como no tabernáculo, Ele prometeu andar no meio do seu povo (Lv 26.11-12). Vimos que a arquitetura do jardim era semelhante a do templo (Gn 2.8-10; Nm 3.38; Ez 40.6). E que nele Deus pôs a sua imagem e o seu sacerdote (Gn 1.27; Sl 8.6-8), com a dupla função de cultivar e guardar o jardim, como um regente que o representa e é responsável por manter a ordem no espaço sagrado (Gn 1.28).[2] Adão e Eva, então, moravam em um lugar perfeito, cheio da abundante alegria da presença do Senhor.

Entretanto, nós bem sabemos o que aconteceu naquele jardim. Havia uma proibição, e eles transgrediram. A ordem dada pelo Senhor era de não comer da árvore do bem e do mal sob a pena de morte (Gn 2.17; 3.6). Essa era a aliança, o pacto. Mas eles comeram e agora estavam debaixo das sanções por causa da quebra dessa aliança. Então, o Senhor lança seu juízo através de três maldições, uma para cada pecador. No entanto, em meio a esse terrível juízo, o Senhor de maneira maravilhosa garante a salvação. Elementos de maldição e benção são encontrados nessas sentenças proferidas contra a serpente, o homem e a mulher.[3] Como bem afirma O. Palmer Robertson, as palavras que pronunciam a maldição do pacto da criação ao mesmo tempo inauguram o pacto da redenção.[4] A salvação através do juízo é anunciada, mas não sem um Redentor.

As palavras são fortes: “porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a semente dela; ele ferirá a tua cabeça e tu ferirás o seu calcanhar.” (Gn 3.15​). Nós também já vimos que a inimizade posta por Deus entre as duas sementes é basicamente espiritual, sendo a oposição entre Deus e Satanás; entre os crentes regenerados e os homens não regenerados, os homens reprovados (Jo 8.33, 34; 1 Jo 3.8). A semente da mulher é formada por aqueles que estão em Cristo (Rm 16.20; Ap 12.17), enquanto a semente da serpente por aqueles que estão no maligno (Jo 8.44-47).

No entanto, nós também observamos que o texto de Gn 3.15 fala também de um conflito mais particular, “Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. A oposição passa a ser mais específica e toda a semente da serpente é representada por Satanás, e toda a semente da mulher é representada por um único descendente. A grande batalha entre os dois cabeças das sementes é anunciada. E nessa grande batalha Deus executará a sua maldição sobre a serpente de modo final e eterno, ao atingi-la com um golpe fatal, através do descendente prometido. Jesus Cristo, o descendente prometido da mulher, executará a maldição anunciada sobre Satanás, trazendo vitória sobre o adversário e salvação para todo o restante da semente da mulher.[5]

Todavia, a maldição sobre Satanás e sua semente, com a declaração de vitória e vida para o restante da semente da mulher, inclui também um pronunciamento de maldição sobre essa mesma semente da mulher: “tu ferirás o seu calcanhar”.[6] O juízo de Deus seria sentido sobre a semente da mulher no “ferir o calcanhar”. E da mesma forma que Jesus Cristo é o descendente prometido que executaria a maldição, golpeando fatalmente a cabeça da serpente, ele também é alvo desse juízo. Essa é uma referência clara à humilhação de Cristo, seu sofrimento, condenação, morte e sepultamento, quando recebeu sobre si toda a ira de Deus, e se viu debaixo da maldição do pecado (Rm 5.9; 1Ts 1.10; Gl 3.10-13).[7] O Messias prometido, o descendente da mulher, o Cristo prometido, tinha que sofrer, pois o sofrimento é o meio da glória do Messias (Is 53:12; Lc 24:26, 46; 1Pe 1:11; Ap 12:10, 11).[8] A salvação vem em meio ao juízo, através de um Redentor.

Os episódios mais marcantes da trama bíblica estão ligados por um tema, ou uma sinopse em comum. Essas histórias menores parecem possuir o mesmo tema, e apontar para a grande trama. O autor da Grande História do mundo fez questão de nos revelar o enredo que Ele mesmo escolheu para o mundo que criou. Esse enredo se repete em miniatura por várias vezes, sempre nos ensinando as mesmas verdades, mas com marcantes diferenças. A Escritura é bela. Ela não é uma colcha de retalhos de histórias das mais diversas sobre os mais diversos temas. Ela nos ensina uma trama elaborada, e que se repete através dos testamentos, livros, e histórias. Que o Senhor nos dê olhos para ver a “História da Redenção” do mundo através de Jesus Cristo.

 


REFERÊNCIAS

[1] Esse tema é fruto de uma reflexão a partir de dois trabalhos do Dr. James Hamilton: O que é Teologia Bíblica? Um guia para a história, o simbolismo e os modelos da Bíblia. – São José dos Campos, SP: Editora FIEL; e God’s Glory in Salvation through Judgment: a Biblical Theology – Wheaton, Illinois: Crossway; nos quais ele sugere que o tema central da Bíblia é “a glória de Deus na salvação, por meio do juízo”.

[2] Material de aula utilizado pelo Dr. Danillo Santos em aulas ministradas no Seminário Presbiteriano do Norte no ano de 2017.

[3] ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants. Philipsburg: P&R Publishing, Edição do Kindle, 1980, p. 102.

[4] Id. Ibid., p. 100.

[5] KLINE, Meredith G. Genesis: a new commentary. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers Marketing, ebook edition.

[6] GRONINGEN, Gerard Van. Criação e consumação: o Reino, a Aliança e o Mediador, volume I. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 138.

[7] Id. Ibid., p. 138.

[8] KLINE, Meredith G. Genesis: a new commentary. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers Marketing, ebook edition.

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