Exercitando o dever de confrontar nossos irmãos

A Palavra de Deus retrata os cristãos como guerreiros. Uma das metáforas bem conhecidas no Novo Testamento, utilizada pelo Apóstolo Paulo é de que o cristão é um soldado. Apesar desse tipo de linguagem ser bastante utilizada nas Escrituras, em nossos dias os cristãos parecem se esquecer dela na prática. Mas nós deveríamos manter essa metáfora em nossas mentes, até mesmo quando precisarmos confrontar o pecado de nossos irmãos.

É bem verdade que o texto mais conhecido das Escrituras sobre confrontarmos o irmão em pecado seja Mateus 18, mas existe um texto menos conhecido no Antigo Testamento com o qual nós também podemos aprender a praticar esse tipo de confronto que deve ser uma realidade constante na vida cristã.

O livro de Josué retrata a entrada do povo na terra prometida, as promessas feitas aos patriarcas, as quais tiveram o início do seu cumprimento no ministério de Moisés com a saída do Egito, finalmente estão sendo concretizadas com Josué, mas existe um detalhe geográfico interessante no cumprimento dessas promessas. Tecnicamente, a terra que foi prometida a Abraão consistia na terra dos descendentes de Canaã que habitavam do outro lado do Jordão. Contudo, no caminho da terra prometida, Moisés derrotou alguns reinos antes do Jordão que foram habitados pelas tribos de Rúben, Gileade e pela meia tribo de Manassés, ou seja, o rio Jordão separava essas tribos das outras no território de Israel. Por que isso é importante? E o que isso tem a ver com confrontar um irmão em pecado? Tudo! Visto que no capitulo 22 de Josué é registrado um embate entre as tribos que estavam separadas pelo Jordão, porque as duas tribos e meia resolveram fazer um altar (Js 22.11).

Sabemos que nessa época, a adoração em qualquer lugar fora do Tabernáculo era terminantemente proibida por Deus (Dt 12.4). Inclusive, a adoração fora do local indicado por Deus será um dos pecados mais constante que ocorrerá em Israel, principalmente no período da monarquia (IRs 3.3;12.31;13.33). Então temos um problema: Os filhos de Israel ficaram sabendo da construção desse altar e se prepararam para a peleja, para confrontar seus irmãos que supostamente estavam em pecado (Js 22.19).

O que nós podemos aprender com isso? Que o pecado cometido por nossos irmãos é algo sério, mesmo que não envolva você diretamente. Podemos perceber esse entendimento bíblico de forma clara no livro de Josué, visto que, no início do livro, o pecado cometido por Acã, um israelita, fez com que trinta e seis israelitas “inocentes” morressem (Js 7.5), e, nesse incidente, Deus não dirige uma repreensão individual a Acã, o SENHOR da aliança afirma que: “Israel pecou” (Js 7.11). E ainda, quando o pecado dele foi descoberto, sua família foi morta junto com ele (Js 7.24). Portanto, a atitude de Israel em confrontar seus irmãos que tinham construído o altar era necessário. Se nós fizermos “vista grossa” aos pecados de nossos irmãos, Deus deixa claro que poderemos ser punidos por esse tipo de omissão, como se nós mesmos tivéssemos cometido o pecado.

Então, os filhos de Israel saíram à peleja dispostos a matar seus irmãos por conta do pecado deles. Mas o interessante é que, durante o confronto verbal, conforme registrado, nós podemos perceber que o coração dos israelitas não estava consumido pelo desejo de destruir seus irmãos, pelo contrário, o coração deles estava preenchido por um amor ao SENHOR, que era manifestado: 1) através do ódio que eles sentiam pelo pecado: “Assim diz toda a congregação do SENHOR: Que infidelidade é esta, que cometestes contra o Deus de Israel, deixando, hoje, de seguir o SENHOR, edificando-vos um altar, para vos rebelardes contra o SENHOR?” (Js 22.16); 2) através de um desejo por santidade: “Acaso, não nos bastou a iniquidade de Peor, de que até hoje não estamos ainda purificados, posto que houve praga na congregação do SENHOR,” (Js 22.17); e 3) através do temor santo da ira divina: “Se, hoje, vos rebelais contra o SENHOR, amanhã, se irará contra toda a congregação de Israel.” (Js 22.18).

Além disso, podemos observar o amor ao próximo nas palavras ditas pelos israelitas aos seus irmãos que estavam sendo acusado de pecado: “Se a terra da vossa herança é imunda, passai-vos para a terra da possessão do SENHOR, onde habita o tabernáculo do SENHOR, e tomai possessão entre nós; não vos rebeleis, porém, contra o SENHOR, nem vos rebeleis contra nós, edificando-vos altar, afora o altar do SENHOR, nosso Deus.” (Js 22.19). Nós ficaremos profundamente emocionados se pudermos entender o profundo significado dessas palavras ditas, porque esses israelitas que estão dispostos a matar seus irmãos, por causa de um suposto pecado, também estão dispostos a abrir mão de parte da sua própria herança na terra prometida para que seus irmãos abandonem o pecado!!! Facilmente nos dispomos a “matar” nossos irmãos juntamente com seus pecados, com um falso zelo pelos mandamentos do SENHOR, mas o grande teste pelo qual se evidencia a origem santa da nossa paixão pelos mandamentos de Deus é se estamos dispostos a “morrer” para nós mesmo com a finalidade de auxiliarmos os nossos irmãos no abandono de seus pecados.

Por outro lado, o texto de Josué 22 também nos ensina a sermos confrontados por nossos irmãos, mesmo quando não estivermos em pecado. Se continuarmos a leitura de nosso texto, perceberemos que as duas tribos e meia que viviam do outro lado do Jordão não estavam em pecado, eles conseguiram explicar que construíram o altar por motivos piedosos (Js. 22.24-29).

Na verdade, eles tinham construído o altar por ficarem com medo de que, futuramente, os filhos dos outros israelitas, não permitissem que os filhos deles, por estarem do outro lado do Jordão, não fossem considerados verdadeiros israelitas e não pudessem adorar ao SENHOR, visto que a promessa inicial feita a Abraão não incluía a terra do outro lado do Jordão. O motivo era justo, mas não fez com que os israelitas acusados fossem consumidos por justiça própria e indignação por estarem sendo acusados.

No lugar de se sentirem ofendidos, por seus irmãos pensarem que eles estavam em pecado, os israelitas que estavam sendo acusados de pecado demonstraram o seu zelo pelo SENHOR ao chamá-lo como testemunha de suas boas intenções e buscaram dar uma explicação de suas ações aos seus irmãos, demonstrando inclusive a disposição de morrer se estivessem realmente em pecado (Js 22.21-23).

É muito comum ficarmos ofendidos com nossos irmãos quando somos falsamente acusados, e até mesmo que revidemos acusações que julgamos injustas com outras acusações. Mas não é esse o caminho que o Senhor nos ensina. Se o amor a Deus e ao nosso próximo gerar motivos de sermos falsamente acusados, que ainda assim, continuemos a amar ao Senhor e aos nossos irmãos. Como soldados de Cristo, Deus nos chama ao amor completo, independente de sermos os “acusados” ou “acusadores” em um confronto específico.

Essa passagem do livro de Josué nos mostra que nem sempre haverá alguém errado em um confronto (falo isso com muito temor, visto que a pós-modernidade de nossos dias nos inclina a relativizar a verdade); nós não precisamos ficar magoados se irmãos acharem que estamos em pecado, o orgulho não precisa tomar conta de nós: já que todos somos pecadores e nossa esperança está unicamente em Cristo Jesus, podemos passar por uma “disputa” sem  ofendermos ou nos sentirmos ofendidos desnecessariamente.

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