As Bem-Aventuranças do Contentamento

O mundo que nos cerca é tomado por preceitos anticristãos, a mácula do pecado está impregnada em todas as áreas da vida do homem. Seja no simples agir bem (Is 64.6), seja no agir conforme a própria concupiscência de nosso coração (Rm 1.24) o pecado é manifesto.

As Sagradas Escrituras revelam que um dos preceitos do pecado é a cobiça, a qual se revela como o não contentamento daquilo que se tem, sendo um desejo desenfreado, partindo da mesma raiz do consumismo que a cada dia adoece o nosso século. Este pecado é categoricamente negado pela Bíblia, através do décimo Mandamento expresso na Lei de Deus, o qual diz: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.”[1]

Este mandamento resume o pacto social da Aliança de Deus para com o seu povo, é a base para o relacionamento do homem para com o seu semelhante, por isto no decálogo este pensamento cobiçoso é um pecado em si mesmo, “um desejo insatisfeito e insaciável”. O Catecismo Maior de Westminster na pergunta 147 e 148 afirmam:

        1. Quais são os deveres exigidos no décimo mandamento? 
          Os deveres exigidos no décimo mandamento são: um pleno contentamento com a nossa condição e uma disposição caridosa da alma para com o nosso próximo, de modo que todos os nossos desejos e afetos relativos a ele se inclinem para todo o seu bem e promovam o mesmo. 
        2. Quais são os pecados proibidos no décimo mandamento? 
          Os pecados proibidos no décimo mandamento são: o descontentamento com o nosso estado; a inveja e a tristeza pelo bem de nosso próximo, juntamente com todos os desejos e afetos desordenados para com qualquer coisa que lhe pertença.  (grifo do autor).[2]

  Ao escreverem o Catecismo de Heidelberg,  Zacarias Ursinus e Gaspar Olevianus, comentam acerca deste décimo mandamento[3] como um conectivo do contentamento a todos os outros, onde o homem deve estar amplamente satisfeito na Lei de Deus.

PERGUNTA 113 – O que exige de nós o Décimo Mandamento?

Resposta: Que nem o mais leve pensamento ou desejo contrário a quaisquer mandamentos de Deus jamais deveria surgir em nosso coração. Antes, de todo coração, devemos sempre odiar todo o pecado e nos deleitar em toda justiça.[4]

 

No livro de Mateus 5 versículos 4; 10 e 11, no sermão da montanha, Cristo faz um paradoxo entre a palavra Makário  (greg. Bem-aventurado, feliz. Cf. Comentário Bíblico Beacon, p.53, V.6) e os verbos chorar (v.4), perseguir (v.10) injuriar (v. 11). Analisando o texto, inferimos as seguintes indagações: “Como alguém pode chorar e ser feliz? Como alguém pode ser perseguido e ser feliz? Como alguém pode ser injuriado e continuar a ser feliz?”

No sermão das bem-aventuranças, Cristo estabelece o que denominamos de “Contentamento”, isto é que, mesmo com as intempéries da vida (Jo 16.33), o consolo do homem está em Cristo, o regozijo está na comunhão e união com o Senhor Jesus, revelando que mesmo no choro, perseguição, injúria Cristo é o nosso contentamento e nos concede por graça a “Makários” (que é um contentamento pleno, uma satisfação total). Deste modo, a Confissão de Heidelberg expressa prontamente no Dia do Senhor 1, pergunta 1: “Qual é o seu único consolo na vida e na morte? R- Que não pertenço a mim mesmo, mas pertenço, de corpo e alma, tanto na vida quanto na morte, ao meu fiel Salvado Jesus Cristo. (…)

Matthew Henry em seu comentário (Volume 5, p.43) afirma que as “Bem-aventuranças” são para corrigir o erro de uma felicidade “materialista” e apontar para uma felicidade eterna, isto é a salvação, por isso ele afirma:

“o nosso Senhor Jesus vem corrigir este erro fundamental, trazer uma nova hipótese, e nos dar uma noção diferente de bem-aventurança e de pessoas bem-aventuradas, que, por mais paradoxal que possa parecer aos preconceituosos, ainda é, em si mesma, e parece ser a todos os que são esclarecidos em termos de salvação, uma regra e uma doutrina de verdade e certeza eternas, segundo as quais em breve seremos julgados” .

Estes pressupostos mostram que um dos problemas de nosso coração pecaminoso é o não contentar-se em Deus. Contentamento refere-se a uma satisfação plena e total nos desígnios de Deus, é repousar (greg. KATAPAUSIS) em Deus (Hb 4.3).  Contentamento em Deus reflete uma profunda intimidade com o Criador e Sustentador de todo Universo, reflete o entender que em tudo (seja em momentos bons ou maus) há o controle e propósito divino (Ec 3.1-8) e tudo está regido pelo Senhor do tempo.

O apóstolo Paulo tinha em si esta perspectiva de que apesar dos sofrimentos que sua carne perecível viesse a sofrer, o seu contentamento estava em Deus, por isso ele afirma que temos tesouros em vasos de barros para que a Glória seja de Deus e não de nós e que “em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (II Co 4.7-9), e por mais que os sofrimentos estivessem sempre presentes haveria um acalento, que é o permanecer em Cristo.

Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.[5]

Doravante a isso, percebemos a incompreensão do “evangelicalismo” moderno em sempre associar as bênçãos de Deus a uma materialidade, o que demonstra claramente onde está o seu tesouro (Mt 6.21), alimentando sempre o pecado da cobiça que também pode ser visto no texto de Paulo em I Tm 6.10.

Observemos que já no Éden o pecado do não contentar-se em Deus foi manifesto no pecado de nossos pais, pois, ao receber a proposta da serpente para comer do fruto proibido e o querer (cobiçar) ter o conhecimento do bem e do mal semelhante a Deus revela um não contentamento em sua Lei e em todas as suas benesses concedida ao homem na criação, sendo expresso por uma cobiça que nasce primeiro no coração e que, por conseguinte, é expresso pela ação: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.” (Gn 3.6). Ou seja, o pecado da cobiça está atrelado ao primeiro pecado e sempre é um pecado nascido primeiro no coração do homem.

Os Puritanos, reconhecendo este pecado intrínseco ao coração do homem, buscaram a consolidação da doutrina do Contentamento em Deus, abstendo-se de coisas supérfluas e atentando verdadeiramente para uma vida de piedade e contentamento. Ratificando isso, podemos observar em uma oração muito profunda, a qual expressa bem a questão do Contentamento:

PAI CELESTIAL. Se devo padecer necessidade, e nudez, e pobreza, faz meu coração estimar teu amor, conhecê-lo, ser constrangido por ele, ainda que todas as bênçãos me sejam negadas. É misericórdia tua me afligir e tentar com provas, para que por tais testes eu veja meus pecados, e me aparte do desejo de cometê-los. Faz-me aceitar de bom grado misérias, tristezas, tentações, se eu puder por elas sentir o pecado como o maior dos males, e ser entregue a elas com gratidão a ti, reconhecendo-as como o testemunho maior do teu amor.[6]

 Outro exemplo que também deve ser estímulo ao contentamento em Deus é o do autor, martirizado em 1567, Guido de Brès. Guido de Brès foi o autor da Confissão Belga, escrita em 1561. Sendo um expoente do Evangelho Reformado, através da constatação da opressão do povo por parte dos governos romanistas, prepara a Confissão Belga como documento para reafirmar a fé Reformada. Em seus últimos momentos, o mártir escreve uma carta a sua esposa Catherine Ramon mostrando uma fé inabalável, uma satisfação em Deus, um contentamento:

Catherine Ramon, minha querida e amada esposa e irmã em nosso Senhor Jesus Cristo: tua angústia e tristeza perturbam um tanto a minha alegria e a felicidade do meu coração. Por isso, escrevo isto para consolo de nós dois e, em especial, para teu consolo, visto que sempre me amaste com ardente afeição e porque apraz ao Senhor separar-nos um do outro. Eu sinto mais intensamente o teu sofrimento por essa separação que o meu. Eu te imploro para que não te perturbes demais com isso, por temor de ofender a Deus. Quando casaste comigo, sabias que estavas desposando um marido mortal, com a vida incerta, e, ainda assim, agradou a Deus permitir-nos viver juntos por sete anos, dando-nos cinco filhos. Tivesse o Senhor desejado que vivêssemos juntos por mais tempo, ele teria providenciado os meios. Porém, não lhe agradou fazer isso e que sua vontade seja feita. Agora, lembra-te de que eu não caí nas mãos dos meus inimigos por mero acaso, mas por meio da providência do meu Deus, que controla e governa todas as coisas, a menor assim como a maior. Isso é demonstrado nas palavras de Cristo: “Não temais. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não se vendem cinco pardais por dois asses? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais”. Essas palavras da divina sabedoria dizem que Deus conhece o número dos meus fios de cabelo. Como, pois, o mal pode vir a mim sem a ordem e a providência de Deus? Não seria possível, a não ser que se possa dizer que Deus já não é Deus. É por isso que o Profeta diz que não há aflição na cidade que o Senhor não tenha desejado (…) E eu te suplico, minha querida e fiel companheira, que una-te a mim em gratidão a Deus pelo que ele tem feito. Porque ele não faz algo que não seja justo e mui equânime, e deves crer que é para meu bem e minha paz. Tens visto e sentido as lutas, aflições, perseguições e dores que suportei, e até experimentaste parte delas ao acompanhar-me em minhas viagens durante o período de meu exílio. Agora, meu Deus estendeu sua mão para receber-me em seu bendito reino. Eu o verei antes de ti e, quando agradar ao Senhor, tu me acompanharás. Essa separação não é para sempre. O Senhor também te receberá para unir-nos novamente em nosso cabeça, Jesus Cristo.[7]

Portanto o contentamento em Deus é estar satisfeito nas Leis e desígnios de Cristo, é permanecer com a fé inabalável mesmo que o inferno se levante e potestades nos cerquem, é estar fiel a Cristo mesmo que a nossa vida esteja por um fio, é entender que somos peregrinos neste mundo e que a maior bem-aventurança que poderíamos ter nos foi concedida na Cruz do Calvário mediante os desígnios eternos e imutáveis de Deus.

 


REFERÊNCIAS

[1] Êxodo 20:17

[2] http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm

[3] DIA DO SENHOR 44

[4] AS TRÊS FORMAS DE UNIDADE DAS IGREJAS REFORMADAS: A Confissão de Fé Belga, O Catecismo de Heidelberg e Os Cânones de Dort. Ed. Clire, 2017, p.103.

[5] Rm 8. 37-39

[6] The valley of vision: A collection of Puritan Prayers & Devotions, editado por Arthur Bennet, p. 163. http://www.monergismo.com/textos/oracao/contentamento_oracao_puritana.pdf

[7] https://reforma21.org/artigos/um-martir-da-reforma-conforta-sua-esposa.html

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